Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

O mais além do corpo em: Luiza Prado

O corpo que se entrega como veneno a si próprio na arte fotográfica de Luiza Prado.

5209770859_f8814e5818_o.jpg Existem aqueles que são trazidos à arte no colo, e em meio ao horror do ser-no-mundo, vivenciado em uma construção singular, encontram nela (arte), um refúgio, um escape. Não um paliativo, mas algo que assume um potencial de transvalorar, e de se por em constante movimento, que nos diz do ato da criação. E cada obra peculiarmente é tomada por uma constante metamorfose.

Dessa forma que leio interpretativamente a arte fotográfica autoral de Luiza Prado. Paulistana, influenciada pela linguagem cinematográfica; é design por profissão e fotógrafa por paixão. Paralela as suas ocupações desenvolve um projeto de auto-retratos, do qual me ocuparei em apresentar, pincelando com um olhar mais demorado, que diz de uma busca pessoal de experimentação minha de sua arte. 

Sua execução de produção criativa desenrola-se como um tratado autobiográfico de entrega íntima e subjetiva. O que por definição, é visto em imagens que exalam uma marginalização de um "eu" em constante conflito pelo corpo, onde o mesmo representa uma marionete nas mãos de forças mais profundas e primitivas. Corpo descentralizado, tomando à forma de um objeto a margem, sem domínio de si mesmo. 5218934631_18aac34a0a_o.jpg 5219518692_5d4caa424f_o.jpg 5208202612_49de471e10_b.jpg Dessa forma que seus retratos exercem um domínio visual subversivo, onde a própria concepção retratada, que se dá especificamente por uma modalidade de nu, oculta, vela e mascara. O corpo objeto, fugaz e efêmero, e sem uma forma conceitual que lhe diria de alguma essência. Uma transubstanciação constante, vista de forma atemporal em cada retrato. Esta corporificação pode ainda ser lida como: um destino da condição existencial, que ela enquanto artista transforma em arte. 5052808569_404a11b334_b.jpg

Sua arte é crítica, não-convencional e permeada por uma estética de intolerância. O barro usado como a matéria-prima de sua criação, é a angústia do corte, da ruptura da simbiose orgânica que marca a inscrição do indivíduo no mundo como sujeito. Luiza explora todo esse emaranhado, de ficção artística e autobiografia numa perspectiva existencial. Uma demanda do que cerca todo esse contingente de paradigmas em uma impossibilidade de traduzir no gestual do corpo o que escapa a linguagem, o que não pode ser dito. Em suas próprias palavras ela diz: “Não quero uma arte quieta, bonita, quero a turbulência e a sujeira, só elas vão mostrar que ainda estamos vivos. Então opto por este lirismo caótico, desnudo e inconseqüente. Seja a loucura, o ambíguo, o mistério, a lascívia, o impudico, sádico, o silêncio que fala o conflito, a caoticidade. Tudo que temebra, eu almejo e eu almejo por mudança.”

Toda esta eclosão representativa no seu ato criativo me diz justamente dessa possibilidade de mudança, onde uma liberdade, um sem limites, se faz dizer de um não materialismo, totalmente intensificado por algo profundo e obscuro a consciência, que vem a tona em algo sintomático, pela via artística.

4988871716_249323a09c_b.jpg 4987136462_977c54ac18_b.jpg Ao se pensar uma interpretação crítica intempestiva de suas fotografias, poder-se-ia dizer: Uma liquidez performática abusiva, distorcida, imoral, obscura e envaidecida. Mas é justamente o que esta para além desta leitura crítica, que me prende enquanto contemplador de sua arte. Aquilo que prende como enigma, e convida o espectador a deixar se levar pela fluidez artística indo de encontro ao vazio do que não é lúcido, o que transgride a ordem e um suposto controle sistêmico,  excedendo a consciência racional: o desútil, o íntimo, o desver, o falho, a falta, a fala (corporal). Que expressa a singularidade do nada, do ser. 4950377490_b8cb5cf8cd_o.jpg 4950664879_d017f4aae9_o.jpg Uma gota ou uma centelha. Seja por uma gota do mergulho fantasístico do delírio ou a pequena centelha de sanidade, que todas nós carregamos, e que se move em constante estado de ebulição. E na arte de Luiza Padro, coloca-se como o explosivo do corpo, fazendo-se a lenha desta fogueira. Objeto fomentador de um simbolismo que choca e se reinventa. O corpo que se entrega como veneno a si próprio.

Acompanhe e saiba mais sobre a artista em seu site pessoal.


Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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