A fotografia enquanto um processo dinâmico de produção, faz surgir constantemente imagens-conceitos. E estes são (re)apropriados tanto no campo da técnica como subjetivamente. Caminhos se unem, distâncias se encurtam. Histórias se contam, aproximando pessoas. Destinos se entrelaçam – tomo aqui a palavra destino para além de seu teor místico ou cósmico, mas com uma fatalidade de fluxos de energia comum.
Entrelaço as histórias de Diane Arbus e Francesca Woodman, duas jovens fotógrafas que em vida produziram conceitos que ainda hoje se presentificam. Dois nomes que estiveram à frente de seu tempo, deixando um rico patrimônio artístico de imagens. Dois olhares distintos sob o mundo e o eu, mas que se cruzaram na passagem de um ato – a morte voluntária.
Diane ao fotografar as pessoas ao seu redor buscou dar voz as minorias sociais – aqueles estereotipados, por uma maioria imersa em uma cultura de pós-guerra americana, onde a imagem vendida para o mundo, e também compartilhada entre a própria nação, era de um país vitorioso, pragmático e homogêneo, em busca de um desenvolvimento que excluía as diferenças, e as singularidades. Inversamente a este contexto ela propôs um diálogo inteiro, que colocava em pauta a questão do desejo do indivíduo. Desejo atravessado pelo real do corpo, que se pode mascarar, mas não extinguir. Diante de suas lentes são vistas pessoas em vivências cruamente verdadeiras.
São fotografias que só foram possíveis através de um mergulho interior da fotógrafa em sua própria história. E como eram essas águas em que Diane se dispôs a nadar? Nunca saberemos; mas existe algo em suas fotografias que aponta ainda hoje para a intensidade de sua entrega. É como se cada retrato repetisse um pedaço de Diane que talvez fosse doado por ela, no ato da foto.
Francesca, a menina nascida em uma família de artistas, e que aos 13 anos iniciou uma jornada no mundo da fotografia. Uma jornada desenfreada para dentro de si. A mulher como enigma, é o que vemos nos seus autorretratos.
Envolta por um meio social conturbado, diante da massificação do papel da mulher nas artes, embriagada de coragem Francesca salta sobre si mesma, e realiza com suas fotografias um manifesto revolucionário do feminino.
Seus autorretratos são de fato embriagantes, e é impossível passar impune diante deles. Fico a imaginar o turbilhão de afetos envolvidos naquele corpo frágil, mas que ao se retratar em cena ganhavam a densidade de um grito que ainda hoje atinge a alma, e desconcerta o espectador.
As duas encontram na morte algo de comum. Talentosas jovens, que tinha um futuro promissor pela frente, mas que se suicidaram. Será que de fato teriam? Quando nos deparamos com a eminência da morte, e sua concretização em outro, principalmente em um caso de suicídio, nos vestimos de um discurso consciente de autodefesa. Nosso olhar se distância e tomamos um direito diante do morto de julgá-lo neutramente. Obviamente essa posição amortece o profundo horror que escondemos diante da obscuridade da morte.
Mas diante dos dois suicídios que assombram esse artigo, gostaria que o leitor desconstruísse seu olhar diante das imagens e das histórias, colocando-as na frente de qualquer julgamento – possibilitando assim um processo de inter-subjetividade, de troca. Meu desejo é que sejam afetados pela potência das imagens, dessas duas fotógrafas que ganharam a contemporaneidade. Duas mulheres que criaram conceitos a partir da energia interior que regava suas respectivas práticas fotográficas. E muito dos conceitos que vemos hoje em dia, são cópias, releituras, ou inspirações que surgiram e continuarão a surgir a partir delas.
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