Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

O segredo de Sharbat

Mas os olhos de Sharbat ainda estavam lá. Gritando um segredo...

0015slz11.jpgExistem algumas fotografias que se tornaram ícones da humanidade. E comumente são conhecidas não apenas por aqueles que se dedicam ao estudo e prática fotográfica. Mas alcançaram um nível de senso comum das visibilidades que nos cercam. Seja pelo jornalismo, televisão, revistas, e até mesmo pelo imenso arquivo de informações visuais que a internet propicia. Onde as imagens se ligam continuamente a nossa rotina, trazendo consigo uma rede significados.

Mas o que de fato sabemos do que vemos? O que nos permitimos conhecer? O que é permitido? O que conseguiríamos? Quais as histórias que intrinsecamente perpassam uma fotografia? 

Quando fazemos uma foto, ao olharmos por intermédio de uma máquina em um pequeno buraco, fazemos um recorte do que vemos. É instituído um enquadramento, que emoldura e cria um vácuo de luz, que aprisiona a imagem. E assim como o foco trabalha com uma lógica de exclusão ao eleger um ponto de fixação seletiva da percepção visual, o ato do clique, que gera a fotografia exclui uma infinidade de outras imagens, que se escondem para além da luz que lançamos ao objeto, que ao vir a ser fotografado, se materializa em imagem.

Portanto podemos afirmar que em meio à experiência fotográfica inevitavelmente imagens escondem outras imagens. Fotografias sempre escondem histórias por trás do que mostram. E nessa perspectiva que trago o famoso retrato e mundialmente conhecido da menina afegã fotografada por Steve McCarry, em 1984 num campo de refugiados. 

Os olhos verdes alarmados penetrantes. Uma alusão ao que fez desta, uma grande imagem em circulação no mundo, o retrato dramático das vivências de um povo massacrado fisicamente e psicologicamente pelo efeito da guerra. Mas por trás dessa coletividade representada, existia uma menina. A menina que emprestou sua voz as lentes de Steve. Existia uma história interdita, que se proibia à medida que levava para os futuros espectadores do retrato, possíveis decifrações do que viam. Segredo. Talvez seja está à palavra que acompanha algumas fotografias. É justamente isso o que sempre me atraiu no retrato da menina afegã. Era como se ela quisesse com os olhos me contar um segredo. Não o segredo de um povo, de uma guerra, de um massacre. Mas algo mais íntimo, profundo e interno. O segredo de uma singularidade. 

Dezessete anos depois, uma equipe da National Geographic Television & Film, acompanhada do fotógrafo, realizou uma expedição pelo Paquistão para tentar localizar a menina. E eles a encontraram. Descobriram seu nome, Sharbat Cula, que era agora casada, sofrida, e ainda refugiada. Ao recriarem a imagem usando o mesmo enquadramento e ângulo desvelaram as marcas de um envelhecimento precoce devida as circunstâncias desoladoras de sua vida. Mas os olhos de Sharbat ainda estavam lá. Gritando um segredo...

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Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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