Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

A câmera como prótese do olho

Poderia ser a câmera fotográfica uma prótese do olho, que vê por mim?

rob_spence.jpeg(Na imagem, Rob Spence, um cineasta canadense que transformou sua prótese ocular em uma câmera de vídeo)

O questionamento iniciou quando me deparei com um anúncio publicitário em vídeo no youtube de um lançamento da Canon. O estranhamento foi imediato, pois o título do vídeo foi colocado da seguinte forma, EOS 5D Mark III: Criatividade redefinida. Não consegui engolir a propaganda e até agora acho que estou mastigando-a. E tentarei expressar isso neste artigo.

0.jpgCriatividade redefinida? Quer dizer então que a câmera tem o poder de redefinir a criatividade? Mas de quem? De si mesma? De quem a utiliza? Creio que estas perguntas passarão despercebidas pela massa que está sendo atingida pela propaganda. O objetivo central desta e todas as outras publicidades que nos cercam é impor uma lógica imperativa em si mesma, e longe disso esteja o pensamento reflexivo e questionador. Se vende não simplesmente o produto, mas sim o ideal do mesmo. E neste espaço do ideal, o mercado explora gananciosamente todas as possibilidades de supervalorização fantasiosa dos produtos. Estamos nós no meio de todos estes ideais, que vão desde o corpo perfeito – midiaticamente vendido –, as virtudes inteiramente humanas e subjetivas que são também mercantilizadas, como no caso em questão: a criatividade. 

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Por mais que exista uma ambiguidade de interpretação no título da propaganda, sua formulação foi inteiramente intencional. A indústria fotográfica não é uma imaculada que se desvinculou do engendramento do capitalismo e do cientificismo. Ela vive em busca do equipamento perfeito, (super)especializado. Tudo isso em troca das fotos perfeitas? Para alegria mundial dessa raça de gente estranha chamada fotógrafos? Provavelmente não, e provavelmente sim, no campo da ilusão. Temos aí a ganância das grandes empresas de câmeras fotográficas, atravessada por uma corrida da ‘óptica precisa’, da câmera infalível, da lente como prótese do olho e que visa ultrapassar o próprio olho. Uma constante superação das capacidades humanas. É isso que se percebe no campo da pesquisa científica tecnológica dos novos aparelhos. Busca-se sim a foto perfeita, inteiramente técnica e previsível, fria e calculada. Obviamente também, os rentáveis lucros obtidos com as vendas dos equipamentos. Diga-se de passagem, que preços! E estamos nós aqui, fotógrafos amadores, profissionais, amantes da prática fotográfica, envolvidos de corpo, alma e bolso nesse turbilhão.

As discussões de câmera, fotógrafo e olhar, já se tornaram bastantes clichês, apesar destes serem pautados na superficialidade de opiniões meramente copiadas, um repasse de informações que não tem se dado no campo da experiência singular do fotógrafo, claro que com exceções. Minha intenção não é dizer o que todos já sabem, ou que fingem que sabem. Mas é desconstruir em um processo de conceituações uma afirmativa seguida de uma posterior pergunta. E a afirmativa é a seguinte: Quem faz a foto não é a câmera. É engraçado dizer isso, pois ao mesmo tempo em que se entende o que quer fazer-se dito, o discurso retorna. Se a câmera não faz a foto, então quem faz? O fotógrafo? Entre esta relação de câmera e fotógrafo, que vejo a necessidade da pergunta-chave: O que é uma câmera? 

Usamos a câmera fotográfica como objeto, para além do nosso corpo. Então ela seria um aparelho, máquina ou instrumento? Ao buscar em pesquisa o conceito de significação destes termos cheguei às seguintes definições:

O instrumento é uma coisa que eu uso como se fosse à extensão do meu corpo. Exemplo: A máquina de lavar roupas, apesar de ser nomeada de máquina, na verdade faz uma atividade para poupar o uso do meu corpo. A caneta é utilizada por mim para facilitar o registro de códigos (palavras ou desenhos) em uma superfície plana ou papel. A máquina é um instrumento maior que meu corpo e pode me destruir. Um avião, um carro. Aparelho é todo o objeto que acredito que estou manipulando, mas na verdade acontece o contrário. No ato de manipulá-lo eu tenho que conhecê-lo. Mas ao conhecê-lo percebo que suas potencialidades são infinitamente maiores que a minha capacidade de conhecê-lo. O aparelho comanda as minhas ações e meus comportamentos diante dele.

Dentre os três conceitos, a câmera fotográfica fica em uma linha tênue, entre o instrumento e o aparelho. E o que vai determinar a apropriação de um ou de outro será a criatividade de quem a utiliza. Criatividade. Retomo a palavra que estimulou toda minha reflexão. E ela – criatividade – está na câmera-aparelho, e na câmera-instrumento.Todavia com distinções essências. 

No aparelho é a criatividade em uma dimensão técnica e nominalista científica. A criatividade publicitária, que ao vender o aparelho vende também à promessa de uma ilusão, que se desenha na passividade do portador dos reais significados (o fotógrafo) e na atividade das potencialidades obscuras e infinitas ao alcance humano do aparelho (câmera). Criando um aprisionamento do sujeito, que ao se deixar objetivar na relação com a câmera enquanto aparelho, deixa de ser sujeito no ato da foto, se (des)subjetiva . É manipulado, na ilusão de manipular. É enganado por si mesmo.

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Para pensar a câmera enquanto instrumento, recordo-me da obra, “A Filosofia da Caixa Preta – Ensaios para uma futura filosofia da fotografia” do filósofo tcheco Vilém Flusser, radicado no Brasil, que formulou uma teoria filosófica onde pensa e debate questões relacionadas à fotografia e modernidade, – prenunciando inclusive como em espécie de profecia toda a era da imagem digital popularizada, e a problemática do virtual. Dentre as relevantes contribuições ele aponta já no final do séc. passado os caminhos que se delineavam da câmera sendo assimilada como aparelho obscuro de imagens instantâneas. E uma possível superação seria a (re)apropriação da câmera como instrumento, como extensão do corpo, geradora de imagens, fecundadas pelo olhar do fotógrafo. A criatividade ressurge aqui na etimologia da palavra, derivada de criar, vindo do Latim CREARE, significando “erguer, produzir”. Aquela que ergue o olhar e se reinventa, se movimenta e produz. A relação se inverte, a câmera deixa de ser aparelho ativo manipulador para se tornar um mero instrumento passivo. E o fotógrafo sujeito-das-imagens. E estas (imagens) deixam de ser meramente a materialidade de um aparelho – cópias falseáveis de uma suposta realidade – para adquirirem valor em um campo maior e inteiramente rico: de criação, experiência e (re)significação. A lente deixa de ser uma prótese do olho de quem vê, para se tornar um instrumento subordinado do olho.   

E para você o que é uma câmera fotográfica? Instrumento ou Aparelho?


Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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