Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

A existência como manequim

Mas, para além do discurso ideológico da moda, que se dá a olhos nus pela via da cultura do consumo, me parece que existe algo mais obscuro por detrás dessas figuras humanas seriadas, que entopem o palco do grande espetáculo – as vitrines –, promovido e financiado pelo deus capital.

340px-Figuren.jpgSomos cercadores por superfícies do visível. Pela faculdade do ver, carregamos também, outra superfície, – servindo esta de leitura do mundo visual por sua capacidade nervosa fotorreceptora – os olhos, que nos permite a construção de relações com o visto. E foi numa dessas experiências de visibilidade, enquanto andava pela cidade numa noite, numa rua de várias vitrines expostas, com suas iluminações tendenciosas, que me atentei para uma figura curiosa, que é o chamativo principal, a imagem em evidência, o protagonista das lojas de roupas: os manequins.

Passei adiante daquele momento a perceber de forma diferente, aquelas representações de corpos humanos que me cercava por todos os lados. E foi curioso, pois fui levado a pensar o quanto somos povoados por imagens, e como construímos estas relações com esse mundo das imagens, muitas vezes, de forma passiva e verticalizada. Como se delas, não tivéssemos que apreender nada além do que é dado, do que é visto. 

O que é dado/visto por um manequim nos nossos percursos cotidianos pela cidade? Foi através dessa pergunta, que fui levado a um processo de reflexão sobre os manequins. Como já disse, é comum em nossa rotina do visível, a presença desses objetos-corpos. Nós os vemos pela via do consumo. Que é de fato, sua utilidade moderna: um expositor, de roupas, acessórios, sapatos e etc. Mas, para além do discurso ideológico da moda, que se dá a olhos nus, pela via da cultura do consumo, me parece que existe algo mais obscuro por detrás dessas figuras humanas, seriadas, que entopem o palco do grande espetáculo – as vitrines –, promovido e financiado pelo deus capital. 

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A imagem inanimada, plástica, padronizada, fria e estática do manequim, que ao se tornar este signo de representação do humano, denuncia um simulacro, e aponta para uma problematização estética e política de questões sob corpo. Discursos e saberes sobre o corpo que hoje são (re)apropriados pela cultura têm suas origens em grandes embates, tanto na história da filosofia, como na história da arte, e até da ciência médica. Onde resumidamente, ora o corpo foi negado, morto em uma subordinação da alma/mente, ora exaltado em esculturas, pinturas, numa linguagem artística que o elevava como ícone de um pensamento humanista. Algo que vemos também na dança contemporânea, onde as experimentações com o corpo superam a disciplina meramente tecnicista, onde este não tendo apenas como modo de conhecimento do mundo a visão, mas todos os sentidos, se joga em uma dança espontânea, livre, – um devir – que baila livremente em um espaço cênico de ficções. Já nas ciências médicas, pelo uso da razão instrumental, e a evolução da nanotecnologia, busca-se cada vez mais um conhecimento reducionista e (super)especializado das menores estruturas biológicas, com um fim de controle. A razão retomando o domínio do corpo. 

O discurso do corpo atualmente se dá nesta petrificação, e confusão de saberes. Que são verdadeiros ordenamentos em busca de agenciamentos, – quase sempre perversos – do desejo. Que resulta  na morte em vida, de nossos corpos. E o que são os manequins? O símbolo, dessa estética morta, infrutífera e petrificada por um biopoder – em termos de análise foucaultianos, - onde uma regulação Outra nos molda e disciplina, controlando nossas possibilidades de existência e de exercício da vida. Tornamo-nos uma população homogênea, com movimentos previsíveis, aparências plásticas, virando ainda um suporte de roupas de marcas, que ao invés de dizer em nós de algum prestígio e sofisticação, se torna uma ostentação vazia e oca, que nos empurra de vez ao exército de manequins. Exército da repetição, da falta de individualidade, e da inteira experiência das massas. 

O que nos resta então como ponto de fuga? Fazer da vida um devir arte, nos diria Nietzsche. E talvez seja esse o verdadeiro caminho. Não meramente como um exercício artístico formal, mas no sentido de uma postura ética, estética e política realizada na invenção do si-mesmo. Postura vivenciada em um campo de resistência, que abre caminhos para a (re)criação constante. Da imanência do corpo que não vive mais um discurso de um exército da similaridade, mas da singularidade.


Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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