embriaguez artística

A existência como manequim

em Filosofia por em 07 de set de 2012 às 20:33 | 1 comentário
Mas, para além do discurso ideológico da moda, que se dá a olhos nus pela via da cultura do consumo, me parece que existe algo mais obscuro por detrás dessas figuras humanas seriadas, que entopem o palco do grande espetáculo – as vitrines –, promovido e financiado pelo deus capital.

340px-Figuren.jpgSomos cercadores por superfícies do visível. Pela faculdade do ver, carregamos também, outra superfície, – servindo esta de leitura do mundo visual por sua capacidade nervosa fotorreceptora – os olhos, que nos permite a construção de relações com o visto. E foi numa dessas experiências de visibilidade, enquanto andava pela cidade numa noite, numa rua de várias vitrines expostas, com suas iluminações tendenciosas, que me atentei para uma figura curiosa, que é o chamativo principal, a imagem em evidência, o protagonista das lojas de roupas: os manequins.

Passei adiante daquele momento a perceber de forma diferente, aquelas representações de corpos humanos que me cercava por todos os lados. E foi curioso, pois fui levado a pensar o quanto somos povoados por imagens, e como construímos estas relações com esse mundo das imagens, muitas vezes, de forma passiva e verticalizada. Como se delas, não tivéssemos que apreender nada além do que é dado, do que é visto. 

O que é dado/visto por um manequim nos nossos percursos cotidianos pela cidade? Foi através dessa pergunta, que fui levado a um processo de reflexão sobre os manequins. Como já disse, é comum em nossa rotina do visível, a presença desses objetos-corpos. Nós os vemos pela via do consumo. Que é de fato, sua utilidade moderna: um expositor, de roupas, acessórios, sapatos e etc. Mas, para além do discurso ideológico da moda, que se dá a olhos nus, pela via da cultura do consumo, me parece que existe algo mais obscuro por detrás dessas figuras humanas, seriadas, que entopem o palco do grande espetáculo – as vitrines –, promovido e financiado pelo deus capital. 

manequins.jpg

A imagem inanimada, plástica, padronizada, fria e estática do manequim, que ao se tornar este signo de representação do humano, denuncia um simulacro, e aponta para uma problematização estética e política de questões sob corpo. Discursos e saberes sobre o corpo que hoje são (re)apropriados pela cultura têm suas origens em grandes embates, tanto na história da filosofia, como na história da arte, e até da ciência médica. Onde resumidamente, ora o corpo foi negado, morto em uma subordinação da alma/mente, ora exaltado em esculturas, pinturas, numa linguagem artística que o elevava como ícone de um pensamento humanista. Algo que vemos também na dança contemporânea, onde as experimentações com o corpo superam a disciplina meramente tecnicista, onde este não tendo apenas como modo de conhecimento do mundo a visão, mas todos os sentidos, se joga em uma dança espontânea, livre, – um devir – que baila livremente em um espaço cênico de ficções. Já nas ciências médicas, pelo uso da razão instrumental, e a evolução da nanotecnologia, busca-se cada vez mais um conhecimento reducionista e (super)especializado das menores estruturas biológicas, com um fim de controle. A razão retomando o domínio do corpo. 

O discurso do corpo atualmente se dá nesta petrificação, e confusão de saberes. Que são verdadeiros ordenamentos em busca de agenciamentos, – quase sempre perversos – do desejo. Que resulta  na morte em vida, de nossos corpos. E o que são os manequins? O símbolo, dessa estética morta, infrutífera e petrificada por um biopoder – em termos de análise foucaultianos, - onde uma regulação Outra nos molda e disciplina, controlando nossas possibilidades de existência e de exercício da vida. Tornamo-nos uma população homogênea, com movimentos previsíveis, aparências plásticas, virando ainda um suporte de roupas de marcas, que ao invés de dizer em nós de algum prestígio e sofisticação, se torna uma ostentação vazia e oca, que nos empurra de vez ao exército de manequins. Exército da repetição, da falta de individualidade, e da inteira experiência das massas. 

O que nos resta então como ponto de fuga? Fazer da vida um devir arte, nos diria Nietzsche. E talvez seja esse o verdadeiro caminho. Não meramente como um exercício artístico formal, mas no sentido de uma postura ética, estética e política realizada na invenção do si-mesmo. Postura vivenciada em um campo de resistência, que abre caminhos para a (re)criação constante. Da imanência do corpo que não vive mais um discurso de um exército da similaridade, mas da singularidade.

 

Artigo da autoria de Victor Silveira.
Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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