Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

Reflexão, Fotografia e Influências

Por seu estatuto de imagem, a fotografia carrega em si um alto potencial de influência. E esta mesma influência pode acontecer negativamente, quando a imagem me aliena nela mesma, me tornando inativo frente a ela, e positivamente, quando esta mesma imagem me afeta, me movendo para a produção de novos significados, dados em uma instância de reflexão e valor de experiência sensível.

Lorena Armond 03.jpg© Lorena Armond.

À medida que começamos a nos envolver com fotografia, em certo momento, somos tocados em nossa sensibilidade particular. Passamos então a construir uma forma pessoal de apreender o mundo. O sentido da visão passa a ser exercido com certas peculiaridades de aguçamento em nossa rotina. Começamos a olhar mais devagar para o mundo, e a ver o que antes não passava de uma mera sensação, não capturada por nossa atenção. Tornamo-nos uma antena móvel de percepção de instantes. Instantes estes, que sempre aconteciam ao nosso redor, eram inclusive olhados por nós, mas nem sempre eram vistos.

Instantes que passamos também a criar imaginariamente, e que movimentam nossa subjetividade e aglomerado de imagem internas, sobre o externo que nos cerca, ou que imaginamos que deveria nos cercar. Iniciamos aí um processo imaginário de ficcionalização de um suposto real. E passamos a criar fantasias, não com palavras e narrações verbais, mas com imagens em um campo lúdico além do real – como uma segunda realidade.

Há certo equívoco em dizer dessa forma, pois toda fotografia materializada, seja ela qual for, já é uma segunda realidade desprendida de um primeiro real donde jazem os elementos a serem recortados, enquadrados, e como comumente dizem “eternizados” em memória. Poderíamos chamar então essa fotografia que digo ser para além do real, tendo ela características de uma fotografia altamente produzida ficcionalmente e previamente,  de “terceira-realidade”.

E dentre essas teias de ficções, sejam elas construídas intencionalmente (com um ficcional imaginário posto em prática) ou intuitivamente (no instante espontâneo do visto), a fotografia após ser feita, torna-se um estímulo de inúmeros novos olhares, de inúmeras (re)interpretações, e uma multiplicidade de novas ficções passam a se tornarem possíveis pelos olhos de quem às contempla. Uso a palavra contemplação, por se encaixar novamente como um ato de instante, ou seja, um movimento de voltar-se em sintonia interior para ver. E este é um processo apenas possível quando penso sobre o que vejo.

Podemos deduzir, que por seu estatuto de imagem (imagem tomada aqui em sua etimologia, que do grego diz de uma representação visual, ligado a ideia que faço de algo) a fotografia carrega em si, um alto potencial de influência. E esta mesma influência pode acontecer negativamente, quando a imagem me aliena nela mesma, me tornando inativo frente a ela, e positivamente, quando esta mesma imagem me afeta, me movendo para a produção de novos significados, dados em uma instância de reflexão e valor de experiência sensível. E eu sou uma prova viva disso, pois todo o meu “envolvimento maior” com o mundo do visível, fotograficamente falando, tanto prático quanto teórico, se deu no nível de influências que certas fotografias exerceram sobre mim. Que certos fotógrafos melhor dizendo, ou ainda melhor, que certos projetos intuitivos de amizade.

Uma dessas influências e projetos de amizade deu-se com a querida Lorena Armond. A bela e talentosa fotógrafa de Rio das Ostras, (região do lagos do Rio de Janeiro) entrou em minha vida pelo Flickr (na verdade o flickr foi o meu lugar de maternagem fotográfica). Após algumas figurinhas trocadas por certas afinidades territoriais, e posteriormente alguns encontros, a Lorena se tornou uma amiga de grande influência sobre mim. 

A primeira coisa que destaco em seu trabalho é uma certa coerência alcançada através da fotografia como forma de trabalho. Algo que fica nítido em quem se aproxima um pouco mais de suas vivências. Sim, ela faz com a alma. E isso não é nada abstrato. Para mim que tive oportunidade de fotografar com ela algumas vezes, posso dizer que o primeiro traço objetivo de sua alma em seu trabalho, é o sorriso no rosto, sempre presente, sempre intenso e verdadeiro, no sentido de: estou feliz com o que faço. E nessa busca da fotografia com a alma, ela encontra o instante espontâneo do visto.

Os resultados são belas fotografias, não só em qualidade, mas em uma marca pessoal, um jeito muito especial de ver as pessoas que fotografa e de todo o entorno disso. Sou super grato a esta guria pelas parcerias fotográficas; e por ela ter-se permitido ser acessível a mim. A gente cresce por que tem pessoas assim ao lado. Pessoas que olham por cima de qualquer Ego e vêem no outro uma extensão sempre inevitável de si. E esse ponto inclusive renderia um artigo, o que tem de ego “ferido” nesse mundo da fotografia. Mas isso não vem ao caso agora. Falemos de coisas boas, e que valem à pena.

Lorena Armond.jpg© Lorena Armond.

Lorena Armond 02.jpg© Lorena Armond.

Ainda pensando em minhas influências diretas, é inevitável não pensar nos paulistanos, Fabio Stachi e Patrícia Costa. Necessariamente nessa ordem por que só conheci a Patrícia fotógrafa, depois de tê-la conhecida pelas lentes do Fábio (que é seu namorado). Encontrar o Fábio no Flickr foi talvez um acaso. Mas minha experiência com sua arte não. Sempre gostei muito da palavra inconsciente, e isso quando nem sonhava em estudar psicanálise. E quando a fotografia explodiu interiormente em minha vida, foi justamente meses antes de começar a faculdade, e de ter caído na galeria do Fabio. Resumindo, eu juntei isso tudo, psicanálise e fotografia – e isto tem sido um dos meus grandes interesses acadêmicos, o estudo e pesquisa sobre este inconsciente óptico, que segundo Walter Benjamin, só a fotografia revela.

Fabio.jpg© Fabio Stachi.

O trabalho do Fábio com sua fotografia fantasmagórica de pessoas altamente teatralizadas, que rendem sempre fotografias dramáticas e ficcionais (o que chamei de ficcional imaginário na introdução do texto) foi meu campo de mergulho visual.  Por isso é inegável sua grande influência em minha forma de pensar conceitualmente a fotografia. Lembro-me de mim, viajando nas fotos e tentando traduzir estas minhas viagens em comentários, em sua galeria no Flickr. Tenho esses momentos em mim como conteúdos ricos de minha experiência.

Fabio02.jpg© Fabio Stachi.

Fabio03.jpg© Fabio Stachi.

A Patrícia modelo, sempre me impressionou por sua entrega, via um corpo carregado de linguagem. Depois conheci a Patrícia fotógrafa, e mais uma vez fui influenciado grandemente por seu jeito de construir visualmente mundos ficcionais em seus auto-retratos. Haja fôlego para a imaginação de quem se dispõe a mergulhar. E após um tempo de admiração distanciada, tive a grande satisfação de conhecer o casal em São Paulo. E apesar do projeto de fotografar juntos ter acabado por não se concretizar, pude encontrar as pessoas, Fabio e Patrícia, por detrás dos "personagens" artistas. E foi sen-sa-ci-o-nal. Dizer minimamente assim é resumir o i-resumível. Tarefa complicada. 

Patricia.jpg© Patrícia Costa.

Patrícia 02.jpg© Patrícia Costa.

patricia03.jpg© Patrícia Costa.


Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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