Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

A morte e o desencontro do significado

Conteúdos sombrios e renegados costumam trazer preconceitos e ideias prontas – no caso em questão, ideias mortas sobre a morte. Todavia, a morte anda viva. Afinal o que a faz existir, vem de nossa capacidade de ficcionalizar sobre ela. Somos o homo sapiens, – o homem que sabe que vai morrer

imagem.JPG                                    © andré paiva - vaso de flores no cemitério 

Por que pensar a morte? Alguns poderiam julgar como uma reflexão pessimista ou desnecessária. E de fato, a falta de necessidade vista no senso-comum, de lidar reflexivamente com o tema da morte, talvez aponte justamente para a necessidade de pensá-la.

A morte é um sentido do corpo É natural ouvirmos que começamos a morrer assim que nascemos. Mas quando se é um recém-nascido, e se morre, a morte é inconsciente para o pequeno morto. Ali pulsava, nada mais que vida e o desejo desmedido de satisfação por ela – um nada mais de mero tudo –, e a morte neste caso, é uma não satisfação permanente. E o seu significado só adquire significado para aqueles que ao redor na pequena criatura, se deleitavam com a sua promissora existência – por via de um sentimento que chamamos amor.

Mas à medida que se pode crescer – sem a experiência concreta da morte –, a criança passa por uma fase especialmente importante para sua constituição: o estádio do espelho. Seja em quais forem às culturas e os modos de vida, em certo tempo da linda de vida, a criança é arrebatada por sua própria imagem refletida. E é notável o encantamento de se reconhecer ali, como um outro, que surge miraculosamente a sua frente. Logo esse outro se torna o seu eu. E na mesma proporção que ela se maravilha e se encanta ao se ver, e possível perceber o horror de abandonar esse encanto. Que é nítido pelo choro insano quando a mãe retira a criança da frente de uma superfície que a reflete. 

Tomo essa questão como importante, pois me parece ser essa a primeira experiência real com um suposto significado da morte. A sua sensibilização em ápice. A maravilha que é a vida, – de ser vista e admirada –, em um dado momento falta. E essa falta é sentida pelo corpo que não pode mais se ver preso a uma imagem, passando assim a simbolizar-se através da ficção, do imaginário e da linguagem.

Quando se é adulto a experiência com a morte, costuma ocupar o lugar do outro que morre, agora não mais o outro que sou eu – no espelho –, mas o outro que serve de apoio/reflexo perante o horror da própria e eminente morte de si mesmo. Essa experiência costuma ser empobrecida, pois se detém nos julgamentos alheios, e na melancolia quando não se supera o luto de uma perda e se estaciona em uma tristeza cronificada. 

A morte moralizada e estetizada 

A moral capturou a morte. Um dever sobre a morte se inscreveu em nossas sociedades como um tabu, e passou a ser regido por códigos transcendentes. A morte passa a ser o cálculo de um Outro, que a enquadra, rotula e define em um dever-morrer. Deixando assim de ser uma experiência singular, como no caso do espelho, e da criança encantada e aterrorizada: com isso que chamamos vida. 

Podendo pensar e se perguntar sobre a morte, falar sobre ela – enquanto consciência viva – tem-se a chave de uma existência livre, embora presa – daí reside o perigo. A morte acorrenta a vida, e por mais que negar isso nos de instantes de ilusões vividas externamente, – o que podemos claramente ver na estética capturada pela indústria, – internamente, na subjetividade de quem vive, a morte grita – e isso é sempre uma visão sombria. E deixar se ouvir neste grito, por uma existência plastificada das massas estetizadas, ou pela moral que nega a morte na certeza de uma além-vida, são ambos, negar a própria vida – e a própria morte. Assumir a morte de frente, e suas respectivas perguntas, dado a não aceitação das respostas prontas, talvez seja viver. Reside aí o perigo do segredo: sua chave.

E através das não repostas, ou das mesmas, temporárias e fluidas, não fugindo das perguntas que se erguem, tenhamos a oportunidade de criar sim uma existência estética – mas agora como uma experiência de arte – fundamentada na maravilha do desconhecido, da vida como obra de arte. Que deixa se escrever em poesia, se ouvir em música, se formar em escultura, ou simplesmente se deixar viver, ou morrer, enquanto potência de algo à se dizer –  se expressar. 


Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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