Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

O gozo da procrastinação

A preguiça toma conta, e a consciência do dever ou da obrigação, diante de um prazo a se cumprir, pouco importa nesse momento. Um misto de ansiedade, angústia e sonolência: eis a sintomatologia do quadro. Ansiedade do que se espera que chegue, angústia do que não se faz para que se realize, e o sono da inércia. Trivalente, e acredite se quiser: prazeroso.

20110905-155415.jpg

Cena da série "The Simpsons"

Outra descrição possível: Você sente a temporalidade na pele – e isso é evidente, pois não consegue ficar parado. Os micro-gestos compulsivamente repetidos acompanham o tic-tac do relógio. Se o ruído temporal dos segundos que passam marcados por ponteiros, só se fazem presente na fantasia – já que normalmente os relógios modernos são silenciosos –, o ritmo é cadenciado pelo olhar que seguidamente se dispõe ao visor do celular, num desejo de ver o que já se sabia que seria visto: o minuto que passou.   

Simpson-1.jpg

Estas são duas breves descrições do que intitulei como o gozo da procrastinação. Na espera de se entender um pouco mais sobre esse quadro neurótico, que creio eu, acometem outros além de mim, fui à pesquisa das etimologias dos respectivos verbos, que são as ações que põem em ato todo o processo. Ou seria melhor dizer, inação?  

Minha primeira descoberta foi no mínimo interessante, as palavras postergar e procrastinar que as vezes são usadas como sinônimas, escondem em seus radicais, uma diferença crucial. Procrastinar vem do latim, onde pro-, seria “à frente” e cras, “amanhã”. Trocando em miúdos, é o famoso “Vou deixar para o dia seguinte”. Já o postergar,  também do latim, onde o post-, refere-se à “depois”, e tergo, a “costas”.  O que trás a ideia de algo que é “deixado para trás”, que aponta para um sujeito que “empurra com a barriga”, desconsiderando uma importância concedida a algo. Distinguindo os termos, penso que o que cabe melhor na experiência que relato, é o procrastinar, já que esse sujeito – o procrastinado – vive a angústia do amanhã que chega e da tarefa que ele ainda não cumpriu. Um pouco paradoxal em relação ao personagem que escolhi para ilustrar nas imagens. Homer Simpsons, seria um postegador de prato-cheio; mas, sigamos na análise. 

Parece-me interessante pontuar ainda a questão do “amanhã” no procrastinador, que diferente do que posterga – deixando para trás num suspenso passado –, o que deixa para o amanhã, – o que procrastina –, coloca em aberto a possibilidade da realização num eminente futuro. O que colocado a ansiedade na ordem do dia. O amanhã virá, e com ele o dia que não se pode a-diar. E independente do compromisso ser no dia seguinte ou não, a contagem é sempre feita numa categoria decrescente dos dias, onde todo o dia que avança, passa a ser, menos um dia. Desenha-se aí o ciclo agudo da neurose.

E onde fica o gozo disso tudo? Pois bem, a palavra gozar é comumente conhecida numa conotação sexual, mas em sua etimologia podemos dimensioná-la em um sentido prazeroso no geral,  de ter satisfação, de desfrutar. Entretanto, o que quero trazer da palavra gozo no contexto da procrastinação, retira o termo do senso-comum, para uma leve aproximação – devida a complexidade e também dispensável necessidade –, ao “gozo” tomado como conceito psicanalítico.

Resumidamente e simploriamente, o gozo na psicanálise não é apenas o que é da ordem do prazer e da satisfação do dia. O gozo – no neurótico –, esbarra no limite dado por um Outro com o maiúsculo, não sendo o outro da proximidade física, mas o Outro que aponta para a alteridade, a cultura, a civilização e a lei, e tudo aquilo que precede a existência do ser-no-mundo. Portando o gozo é sempre algo interrompido, barrado, sempre o gozo do Outro. E isto não é ruim, por mais que pareça, pois em psicanálise o gozo em seu estado primitivo animalesco e incivilizado, é mortífero, e não aceita objetos de satisfação parcial, é portando o gozo de Tânatos – o gozo da pulsão de morte. Inclusive a palavra orgasmo em Francês, significa “la petite mort”, “a pequena morte”.

Entendendo o gozo para além da realização do desejo gozoso, podemos conjecturar que o gozo da procrastinação estaria presente justamente no ato de realizar o que se precisa fazer em uma experiência limítrofe do gozo. Em outras palavras, faltando 5 minutos para o final do segundo tempo. É como se na fantasia inconsciente, ao  ludibriar as interdições de um prazo entrega, numa ordem de um deves fazer agora, algo que demandaria um roteiro planejado num tempo livre e disponível para se realizar o que tem a se fazer, se lançasse na experiência primitiva de um gozo todo. Ou seja, procrastino e não me submeto à ordem do Outro, no caso, o Outro que me dita o prazo, no contexto da responsabilidade da entrega dentro deste prazo.

O fato é que no final das contas, mesmo correndo o risco da morte, que nesse caso é a imagem do tempo avançando vorazmente – sinalizado sempre a condição de menos um dia –, na direção dos procrastinadores, o prazer de gozar com a tarefa cumprida nos últimos segundos possíveis de sua realização é in-com-fun-dí-vel. É isso o que me faz estar aqui redigindo este artigo, enquanto deveria estar executando outra tarefa, e que me falta apenas dois dias para a entrega. E ao contrário de postergado, como no caso do Homer que dorme, estou ansioso, angustiado e com insônia (e talvez sejam estas as razões desse artigo). Que o gozo final compense!


Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/Crônica// @destaque, @obvious //Victor Silveira