Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

Sobre angústia, tédio e escrita

Então concluo, que toda escrita esconde em si sua própria irracionalidade, num mecanismo simples: angústia> criação> tédio> angústia...

Caravaggio_-_St_Jerome_1600c.jpg"São Jerônimo que escreve" - Caravaggio

Não sei quanto a vocês, mas às vezes sou acometido pela angústia de sempre ter o que dizer. Um desejo obcecado de se colocar diante de uma superfície branca, e se abrir às possibilidades do dizível. São verbos, nomes, frases, parágrafos, e algumas vezes períodos intensos e quase intermináveis. 

Abre-se para a imprecisão do nomear, do descrever, do analisar o que se disse, do redizer – fazendo-se letra. E rompendo o silêncio da página em branco algo sempre se compõe, ora mais suave e introspectivo, – onde palavras como, “entardecer”, “brisa”, “solidão”, “oceano”, dão o tom embevecido de luz amarelada, da paisagem textual que nasce, – ora de maneira mais tempestuosa, em que um grito se comprime apertado no que tem de que caber em uma única frase curta, como: “Eu te amo”, ou “Ele está morto”. 

Seja quais forem às paisagens que se crie ao se escrever, após ter-se escrito, o que é isso que se coloca diante de nós? Agora não mais a angústia, que fomentou o impulso do ato de escrever, mas o tédio. Não o tédio da palavra empobrecida pelo sentido a ela comumente atribuído hoje, como uma ociosidade indesejada. Mas o tédio arcaico, profundo, do afeto sem causas nem fins, o tédio do vazio em –si, da eminente morte, enquanto símbolo de nadificação da vida, do que deixa de ser palavra e retorna ao silêncio do branco da folha – a ser nada. 

Talvez seja está à função criadora da fala, ao se comunicar pela escrita: Um modo de projetar e elaborar, por meio do estatuto dos signos linguísticos o que em nós nos escapa, o que em nós não nos cabe. Que está além de nós ao mesmo tempo que nos constitui: a falta. E  a angústia seja a dobra sempre presente por entre cada linha que se faz dita, escrita. Sinalizando ali o subterrâneo que nos aguarda, quando chegado o ponto final: tediosamente, o branco do vazio do nada. O silêncio mortal do fim. Então concluo, que toda escrita esconde em si sua própria irracionalidade, num mecanismo simples: angústia> criação> tédio> angústia...

E pensar assim, não é renegar a angústia e o tédio, e nem o nada, – como sendo o lugar da negatividade –  mas afirmá-los como a negação que se nega em se negar, então cria, então escreve, então in-venta. E nesses ares, não à como não se lembrar do menino Manoel de Barros que em sua experiência poética reafirma o nada indo para além das conclusões, fazendo do mecanismo irracional da escrita seu campo de invenção. "Perde o nada é um empobrecimento"


Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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