Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

As traumáticas aventuras do filho de Freud

“Como deve ter sido difícil ser filho do Freud? Aí bateu aquele estalo e fiz a tirinha na hora, sacaneando o primogênito do velho Freud. Batizei a tirinha de “As Fantásticas Aventuras do Filho do Freud”, no que corrigi depois, riscando por cima e escrevendo “TRAUMÁTICAS”, o que acabou sendo uma piada também.”

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O psicanálise alcançou em nosso século uma gigantesca "audiência" no senso-comum. A teoria e a prática clínica do inconsciente, postuladas e investigadas por Sigmund Freud a mais de 100 anos atrás, influenciaram a clínica médica, trouxeram novas visões filosóficas de sujeito, e revolucionaram ao lançar luz sobre um ponto até então obscurecido pelo dogmatismo religioso (e também médico, já que em certo tempo na história as duas coisas eram quase indissociáveis): a sexualidade infantil.

É interessante observar que para além de todas as influências teóricas, filosóficas, e clínicas, vivemos hoje esse tempo, em que a psicanálise caiu na boca do povo. Isso pode ser constatado na  já tradicional expressão usada maciçamente: “Freud explica”!

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Sendo a desmistificação da sexualidade infantil um ponto de virada importante em toda revolução freudiana, apresento um divertido projeto que coincide e ilustra esse tema, ao hipotetizar sobre possíveis traumáticas aventuras do filho do mestre Sigmund, em sua condição de Pai. 

Pela via do humor, em certo sentido negro, o projeto constata empiricamente duas coisas: A primeira é que a psicanálise caiu além da boca, também no riso do povo, e passa ser consumida numa escala de piadas, um certo "pós-Freud explica", mais irônico e desacreditado da tal suposta explicação que poderia ser dada pelo velho Freud. 

Em segundo, como extensão do primeiro, é que precisamos do humor para viver. Afinal  não é esta a questão principal do chiste? Conceito investigado por Freud, como sendo um mecanismo necessário em nossa vida psíquica para a eliminação de uma certa energia sombria que compõe nossa própria verdade - que é em todo caso desconhecida de nós mesmos - inconsciente, e que precisa em alguns momentos se tornar risível para vir a tona. Como civilização fabricamos meios para o riso em nossas relações pois precisamos dele. Esse projeto é uma resposta a isso, dada a genialidade e sensibilidade lúdica de seu autor.

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“As Traumáticas aventuras do filho de Freud”  foi idealiza por Pacha Urbano, que é ilustrador e roteirista, e segundo ele mesmo, gosta de se aventurar em terras desconhecidas. Em entrevista, Pacha diz que a ideia das tirinhas nasceu em uma aula de Psicanálise e Educação, numa aula do curso de pedagogia, enquanto assistia a clássica cinebiografia para iniciantes ao freudismo, "Freud além da alma". Como bom habilidoso do lápis, ele rabiscava enquanto os outros alunos discutiam, e daí surge insight: 

“Como deve ter sido difícil ser filho do Freud? Aí bateu aquele estalo e fiz a tirinha na hora, sacaneando o primogênito do velho Freud. Imagina ter que disputar a atenção de um pai como ele, tão empenhado em seu trabalho e pacientes, com o ego do tamanho de uma montanha, cheio de encrencas com a sociedade médica e científica da Europa… Batizei a tirinha de “As Fantásticas Aventuras do Filho do Freud”, no que corrigi depois, riscando por cima e escrevendo “TRAUMÁTICAS”, o que acabou sendo uma piada também.” 

O projeto deu super certo, e as risadas, tanto para leigos, quanto para técnicos e/ou estudiosos (em psicanálise) é garantida. Gosto do tom crítico do texto das tiras e até mesmo da tipografia um tanto mistificada, corroborando com a crítica (nas expressões faciais, por exemplo). 

 Aqueles ortodóxicos do pensamento psicanalítico podem se incomodar e até se ofender, resistindo à legitimidade do projeto de Pancha, que tem atingido proporções significativas tanto de conteúdo quanto de público. Todavia essa virulência e malícia, se chocando com uma resistência, é própria da própria história inaugural do movimento psicanalítico, e não deveria ser diferente em qualquer movimento que levante sua bandeira, mesmo numa autocrítica do próprio movimento. 

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Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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