Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

Full Beauty Project, o polêmico ensaio do fotógrafo Yossi Loloi

Um post diferente: Em conversa, Henrique Resende e Victor Silveira debateram sobre projeto fotográfico que está dando o que falar na internet!

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Henrique: Vamos escrever um artigo em forma de conversa sobre essa série? A gente conversa e posta a própria conversa como texto. O quê você acha?

Victor: Vamos!

Henrique: Posso começar levantando um ponto?

Victor: Pode sim.

Henrique: Eu acho essa crítica aos padrões de beleza bem chata, pra ser sincero. Na moda, por exemplo, não existe um padrão específico de beleza. Existem modelos plus size, que provam que tamanho do corpo não é o passaporte para esse universo. O único problema é que a mídia quase não divulga isso, justamente porque a sociedade, que é o público, acredita cegamente na existência desses padrões. No caso desse ensaio, a obesidade é um problema. De certa forma, interpreto como se o fotógrafo me dissesse que está "tudo bem em ser obeso". Isso envolve muitas questões sobre saúde, também. Talvez seja por isso que a mídia não divulga tanto o trabalho de plus sizes, por medo de que a sociedade veja e exagere tudo, comece a pensar em “vamos todos ser obesos”. Essa tendência ao exagero já acontece por causa das modelos magras as magras. De que outra forma você explicaria alguns casos de anorexia, se não pela crença nesse padrão que não existe?

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Victor: Você levanta o conceito de crítica. Penso que precisamos definir o sentido da crítica em si. Existe uma crítica banalizada que é vendida pela própria mídia. E, como você bem pontua, essa crítica, devemos descartar, já que a mídia favorece apenas seus próprios interesses. O que me interessa de crítico no ensaio é aquilo que desafia o tal fielmente aceito, esse fantasma do padrão embutido nas mentes.

Henrique: Justamente. "Bonito", no conceito físico de beleza, não acho. Mas ali tem um trabalho de direção que tornou os corpos muito interessantes. É mais ou menos como se elas vestissem o próprio corpo.

full_beauty_4.jpgVictor: Eu achei as imagens agressivas, apesar de pensar que todas as imagens carregam em sua representação um nível de agressividade, já que tomam nossa percepção e nos levam para uma "realidade paralela" de um tempo-espaço que não é real. Gosto quando você diz delas vestindo o próprio corpo. Penso que aí superamos a dicotomia do “belo e feio” e passamos a experimentar as imagens como arte.

Henrique: Você já fotografou alguém assim? Eu fotografei uma modelo plus size uma vez e te digo: a direção é muito mais difícil e específica. Eu já fotografei moda com modelos magras, então talvez fosse questão de costume. O corpo se projeta de outra forma, o enquadramento precisa ser mais cauteloso.

Victor: No trabalho de moda deve ser ainda mais difícil. E isso que você diz de o corpo se projetar de outra forma é bem verdade. Não estamos acostumados com essa estética da obesidade. Se bem que caminhamos para um momento em que teremos que engolir tudo isso, já que a condição da "obesidade" se propaga cada vez mais.

Henrique: Mas, sabe? Pessoas acima do peso não são, necessariamente, doentes. Mas, honestamente, não acho que seja o caso dessas moças. De qualquer forma, é preciso muita coragem pra se expor assim.

Victor: É evidente a obesidade mórbida das modelos nas fotografias. E é de se pensar que viver, para elas, é algo complicado. Também achei um gesto de coragem delas e também do fotógrafo que assina a autoria do ensaio, o Yossi Loloi.

full_beauty_3.jpg Henrique: Será que com homens o ensaio teria o mesmo impacto? Provavelmente não, né? A figura feminina, que é mentalmente visualizada como sensível e frágil mostrada assim, tão crua e bruta...

Victor: É verdade, também imagino que com homens não seria da mesma forma. Acho que esteticamente não seria menos impactante, mas talvez as reflexões e as críticas caminhassem em sentido um pouco inverso.

Henrique: Victor, pense na palavra mórbido. Obeso mórbido. Isso carrega uma energia muito desagradável, né?

Victor: Parece um decreto de morte. O peso das palavras também me assusta. Lançar um diagnóstico desses, mesmo que seja em condições favoráveis de empatia, e até mesmo em busca de reverter a situação, é fatal. Eu queria só voltar em algo que você disse que não sai da minha cabeça: a questão do corpo vestindo o próprio corpo. Fala mais sobre isso?

Henrique: Elas parecem vestir uma carcaça, repare só. E elas são obrigadas a isso, não existe alternativa. O corpo delas é o peso, e o peso físico é o kitsch. [Referências de A Insustentável Leveza do Ser, livro de Milan Kundera.] E é mais ou menos a interpretação do julgar pela aparência. E, no caso delas, isso é mais radical ainda.

Victor: Sabe o que me veio em mente? Um cabide. Um cabide vazio.

Henrique: Um cabide obrigatoriamente vazio, porque é impossível despir-se do próprio corpo. Certo?

Victor: Exatamente, o corpo é o destino. Seja em qual for à forma que estiver no mundo.

Publicação original do artigo no blog do FUI

+Fotografias:Yossi Loloi• Site: fullbeautyproject.com


Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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