Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

Em defesa do amadorismo na fotografia

No seu significado etimológico a palavra amador deriva do Latim AMARE, “amar, gostar de”, pois um amador, por definição, escolhe determinada atividade porque gosta dela. O amadorismo na fotografia pode ser uma escolha inteligente, e consciente.

3959777339_b9190c883b_b.jpg A intenção de pensar essa defesa partiu de algumas questões levantadas mediante uma conversa com um amigo, (que tem suas fotografias expostas nesse artigo) e devido a algumas reflexões pessoais, da falsa simetria que se propaga entre as condições do amadorismo e do profissionalismo na fotografia.

Durante algum tempo nutri certo desejo de aliar fotografia e profissão. Quando se é cativado pela prática fotográfica é quase certo que se pense assim: seria magnífico se eu conseguisse viver disso. Mas a partir do primeiro lampejo de fantasia, à medida que se caminha e se mantém na prática da fotografia, três fases são esperadas. Procurarei descreva-las, a fim de levantar ao final minha defesa do amadorismo. Vale lembrar que uma única pessoa pode passar por todas elas, ou se manter em uma, ou oscilar, aleatoriamente entre uma e outra. 

A primeira fase é aquele em que a fantasia permanece rígida. Quase sempre se inicia após se adquirir uma câmera profissional ou semi-profissional – algo que para alguns é feito com esforço e para ouros nem tanto –, mas o que importa nesse momento é que ele é quase sempre vivido num clima recheado de novidade e entusiasmo. Passa-se a fotografar tudo e todos. Facilmente o auto-título de fotógrafo entre em cena nas redes sociais, – incluem-se aí as virtuais e não virtuais. E de fato você se sente um fotógrafo; ou era pra ser diferente? 

O que autorizaria alguém a se nomear como fotógrafo? Eu acredito que a experiência que se vive no coletivo é definidora na constituição de como me vejo. Afinal meu olhar é sempre atravessado pelo olhar do outro. No intervalo em que vejo, sou visto. Então de alguma forma só me vejo assim, por que suponho que um outro também me veja. Daí a necessidade quase frenética da divulgação das fotografias que são feitas e a busca quase angustiante por curtidas e visualizações. Dessa primeira fase experimentada, resta uma pré-maturação importante tanto do olhar quanto das relações que se constrói com alguns “outros significativos”, que acabam marcando a história pessoal. Escrevi um pouco sobre isso no artigo: Reflexão, fotografia e influências.

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É normal que a fantasia seja superior nesse momento, afinal ela surge do que ainda não foi vivido, do novo que se vive e nasce no processo. E a fotografia é uma prática dinâmica, de movimento e estimulação tanto do olhar para o “real” quanto do olhar para a imaginação. Entretanto, penso que alguns se fixam nessa primeira fase; ai talvez esteja o perigo do desacerto, imaturidade visual e da falta de maturidade e ética naquilo que se propõe a fazer na fotografia. Sim, existe uma ética da fotografia, assim como em todas as ações que envolvem um outro. 

A segunda fase que gostaria de pontuar se dá no desejo de profissionalização. Ela inicia-se quando, para além do prazer particular no registro e documentação de imagens, percebe-se que existe um tentador mercado de consumo e especialização da imagem técnica. Inclui-se aí desde a venda dos milhares equipamentos, de pequeno e grande porte, que vão se tornando cada vez mais importantes nas prioridades, aos cursos e livros, e toda venda de conhecimento técnico. E evidentemente, a venda da fotografia como produto. 

Alguns iniciam na busca do estudo e do aparato técnico justamente na esperança dos futuros lucros que se espera obter num investimento futuramente lucrável. Outros, com melhores condições financeiras para tal investimento, estudam e consomem, sem muito se preocupar. Mas o que vejo de crucial nesse ponto é que: o mercado da fotografia quando olhado de fora ilude. Principalmente pela disposição fantasiosa de quem se dispõe a nele entrar. E talvez seja este o motivo que leva a muitos se decidirem por se tornar fotógrafos profissionais. Tomo aqui o termo profissional, aludindo restritamente aos que tiram o sustento financeiro, ou a maior parte dele, da produção fotográfica em grande escala. Que vivem da fotografia como produto de venda.  

Há um grande equívoco no senso comum em torno de algumas palavras. A palavra “amador” que normalmente denota uma simetria com a palavra “profissional”, é assimilada por muitos como sendo seu antônimo, mas se pesquisada em seu original, nos mostra que a simetria de sentido é falsa. No seu significado etimológico ela deriva do Latim AMARE, “amar, gostar de”, pois um amador, por definição, escolhe determinada atividade porque gosta dela. Aí entra minha defesa que é também uma terceira e possível fase na experiência fotográfica: a escolha livre pelo amadorismo. 

5291202059_c73800c797_z.jpgA atividade fotográfica não necessita ser restrita ao profissionalismo como pensam alguns. Apesar de em certos contextos, e devido em grande parte a confusão de sentido das palavras, o amadorismo seja mostrado em detrimento do profissionalismo. Um em nenhum momento é a extensão do outro. Nem o amadorismo é a parte potencial de desenvolvimento para o profissionalismo na fotografia. 

O amadorismo pode ser uma escolha inteligente, e consciente. Penso que ao escolher esse caminho, já se viveu as ilusões de todo percurso e talvez se tenha integrado nessa fase, o lugar da fotografia na vida. E aí ela – a fotografia –, se torna um trabalho de criação voluntária e que trás satisfação e fomenta o pensamento. Você deixa de simplesmente querer produzir em longa escala, para também pensar sobre sua ação de produzir as imagens. E aí entram as particularidades de cada olhar.

Nessa experiência de amadorismo seja em qual for o viés em questão da temática fotografada, ela se torna uma descoberta de si no outro. Um método de pesquisa. De conhecimento e construção do olhar, dos momentos e dos instantes. Seja este outro, uma pessoa ao lado, o outro da natureza, e até mesmo o outro da fantasia, que agora, deixa de dominar a imaginação e passa a ser uma ferramenta para criação em conjuntos. 

Cabe lembrar que ao defender o amadorismo, não pretendo colocá-lo no lugar da imposição, como muitas vezes é feito pela categoria que sustenta o profissionalismo. E nem mesmo indicar que essa experiência da paixão alegre com como traço íntimo na prática amadora (como foi visto no significado etimológico da palavra), não pode ser vivida por aquele que retira o seu sustento da fotografia – o profissional. Isso seria cair no erro novamente da falsa simetria. Onde um negaria a positividade do outro. E nem mesmo dizer que não se deve estudar e adquirir equipamentos, mas que estes recursos no caso do amadorismo, passam a ter um caráter de instrumentos. De meios, e não exclusivamente de fins.

Reflito também, no sentido de que existe um imperativo na busca do profissionalismo, algo que é até comum, já que vivemos no século do conhecimento técnico em todos os âmbitos. Mas reconhecer como comum, não deve nos tornar inativos. Defendo que o amadorismo pode ser uma opção e que o profissionalismo na fotografia como busca desenfreada deve ser desconstruído. Ambas as condições devem ser avaliadas e experimentadas, e a escolha e investimento seja para um lado ou outro, deve partir da arbitrariedade da escolha singular e pessoal. E não da imposição de um: tu deves, como tem sido para alguns. Eu já me decidi. Estou um amador convicto. Prefiro o verbo estar. Não gosto de fixar identidades.

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Nota: Escolhi as fotografias do Vitor Mateus para acompanhar esse artigo, pois são para mim de um caráter amador nato. E isso é um baita elogio em tempos de profissionalismo forçado. Nelas são construídas narrativas visuais do cotidiano da cidade, do céu, da cultura local, da geografia, tudo de forma despretensiosa e leve. Gosto do jeito solto e livre de suas fotografias. Do olhar de menino, que deseja mais do que ver e mostrar, mas viver o instante em que clica. Às vezes ao ver suas fotografias, tenho a impressão de que me torno ele no ato do registro. E como se estivesse por trás de suas retinas e encontrasse com o que ele já viu por mim. E quem disse que não me encontro? A fotografia tem um pequeno ponto de magia particular. Ela redesenha o imprevisto e abre as portas da percepção do imaginário. Vendo suas fotos eu sou pura imagem-ação.


Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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