Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

Criatividade é exclusividade?

O que poderia estar anunciando um estado de sono na fotografia enquanto atividade criativa ao ponto de ser necessário que pensemos em níveis de um despertar do criativo? Minha hipótese é de que muito desta desmotivação e deste sono, anti-criativo, seja em função da saturação da imagem técnica, e do empobrecimento da experiência.

Gosto de começar pelos limites do conceito, que nesse caso, nos é nomeado por criativo. O que é o criativo? O adjetivo nos remete a um criador que detém a aptidão da criatividade. Criação e atividade: eis os processos que definem o termo. Podemos pensar então, que, imprescindivelmente, a criatividade devém um ser que crie. 

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E para pensar a criatividade em seu possível despertar, trabalharei com uma tese proposta no livro “Criatividade e Processos de Criação”, de Fayga Ostrower, uma artística plástica, professora e teórica de Arte. Segundo a tese de Fayga, o potencial criativo é intrínseco do ser humano – o homem cria e sempre estabelece relações de criação em sua existência. Com isso chegamos a pergunta a pergunta: Existe alguma atividade do homem que não seja criativa? E que em nosso caso poderia ser contextualizada: Existe alguma fotografia que não seja criativa? Pois bem, sigamos e pensemos a respeito.

É notável a nossa tendência de rotular e criar preconceitos – veja bem, já estamos exercendo o julgamento da criação, mesmo que num contexto negativo. Faz-se necessário, portanto, que nos aprofundemos para sair da superfície preconceituosa e nebulosa da simples sentença, que nos torna juiz ao dizer que “isto é criativo e isto não é criativo”.

O homem, em sua condição de ser humano, inevitavelmente cria e carrega em si a latência do criativo. Esse potencial justifica toda a nossa gama de objetos, artefatos, conhecimentos, modos de ser pensar e agir. Através de processos de ordenação, configuração e significação, sua faculdade da criativa é sempre colocada em atividade. Pensando em fotografia: O homem criou o aparelho (a câmara obscura, que deu origem às câmeras que conhecemos hoje) no desejo de decifrar uma superfície do visível, que permite, hoje, após evoluções desse mesmo aparelho, imagens tão facilmente capturáveis, ao alcance de um simples clique. Mas o que leva o homem a criar? Quais meios, a dizer, psicológicos e sociais, que permitem que ele exerça o criativo? Eis o diagrama para visualizarmos melhor tais meios: diagrama_criativo.jpgComo ser sensível, o homem é corpo. E, através do corpo, pela via dos sentidos, ele recebe informações e estímulos variados exteriores e interiores a este corpo. O corpo é um organismo vivo. É também campo onde sensações são acionadas e sintetizadas em percepções. A percepção delimita o que somos capazes de sentir e compreender. A visão é a grande metáfora dessa síntese que é feita pelos sentidos: vemos em um determinado raio, mas olhamos apenas em um único foco. Faça um teste: Tente focar duas palavras ao mesmo tempo enquanto lê. Apesar de a leitura ser um processo dinâmico, corrido, se nos atentarmos à percepção presente, notaremos que apenas uma palavra é focada à medida que lemos. E se fizermos esse teste mais atentamente veremos, ao reduzirmos a percepção para a palavra, que apenas uma letra é focada por vez. 

Sendo ser consciente, o homem é um sujeito portador de uma subjetividade singular e de uma consciência de si; ele existe enquanto indivíduo numa jornada existencial. A consciência é o palco onde ele se vê representado e vê também o outro, estabelecendo alguma relação. Dessa forma, o homem cria e interpreta no coletivo, por mais que seja um corpo fechado em si mesmo; biologicamente, comunga de uma cultura ampla e aberta. 

No nível cultural integra-se o saber-fazer. Todo conhecimento adquirido e a experiência vivenciada no coletivo presente-passado. A cultura é o lugar onda o criativo se mostra e ganha notoriedade para o outro. Objetos, artefatos e fotografias se tornam símbolos e ganham significado e memória. A pratica da criação é sempre direcionada para uma cultura, mesmo quando numa contra-cultura. Todo ser humano se inclui nesse movimento do ser sensível-consciente-cultural. Portando, esse é o beabá do processo criativo, de onde, por movimentos de ordenação, significação e configuração, o ato criativo acontece. 

Desloquemos agora, para o saber fotográfico. O fotógrafo é corpo e consciência que, ao experimentar o mundo estando inserido em uma cultura particular, produz uma síntese bidimensional do que o cerca, a imagem em altura e largura. Mas pensemos em sua prática: o que poderia anunciar um estado de sono na fotografia enquanto atividade criativa ao ponto de ser necessário que pensemos em níveis de um despertar do criativo? Minha hipótese é de que muito da desmotivação e desse sono, anti-criativo seja em função da saturação da imagem técnica, e do empobrecimento da experiência. 

Shot004_thumb[2].jpgNo final século XIX, todo processo de materialização da imagem era laborioso, mesmo na fotografia analógica; antes dela ainda mais, no caso da pintura. Se pensarmos no pintor como o agente capaz de representar imageticamente o mundo num tempo pré-fotográfico, todas as suas condições de criação no ato da pintura logravam um grande empenho físico e psicológico. Isso é algo que foi extinto com o avanço proporcionado pela fotografia enquanto aparelho-ativo de produção de imagens. Com o advento da digitalização e da reprodutibilidade técnica dessa nova maneira de representar, quase todo o esforço anterior foi extinto, e, consequentemente, a experiência foi empobrecida. Toda experiência se dá com o esforço do corpo, e a fotografia moderna deixou de demandar algo do corpo. Os sentidos foram cobertos pela facilidade do equipamento. A rapidez do clique, a qualquer momento que se deseje, e isso trouxe um excesso de meras imagens, repetitivas e não experimentadas qualitativamente. É tudo muito rápido, instantâneo. 

É preciso que o olhar seja reeducado em favor da experiência consciente e da cultura. E como primeiro trabalho dessa reeducação, é necessário que descolonizemos nosso olhar. Esse é o pequeno segredo que cabe a nós, nesse tempo, para que alcancemos o despertar criativo.

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Vende-se uma ideologia de que uma imagem vale mais que mil palavras, e isso é mentira. A língua e a palavra articulada num idioma é a mais complexa estrutura simbólica compartilhada universalmente pelo homem. Muito antes da criação da máquina fotográfica, existia o texto; antes do texto, já existia a comunicação verbal; com ela, culturas milenares se construíram e se fizeram ouvir por suas criações às gerações futuras. Isso, sem a câmera fotográfica. Não nos cabe dizer e achar que nossa fotografia dirá aquilo que não pode ser dito, colocando-a no lugar de suficiência sob as palavras. A imagem fotográfica não é auto-suficiente porque toda memória visual está incluída em sistema linguístico amplo; decerto, a palavra aponta para suas origens.

Para a construção de uma identidade visual singular e criativa, a fotografia precisa fazer as pazes com a ficção e a palavra. Só então será possível uma busca poética do olhar nas imagens, e assim, será possível um despertar criativo. Antes mesmo da câmera em mãos, é preciso saber ler mentalmente a experiência que se passa. “Buscar no detalhe o ínfimo”, como já disse o poeta. Muito mais que um clique mecânico, o corpo deve estar em sintonia com a consciência – e isso vai além da própria fotografia; é um estudo constante de leitura das vivências do visível e da (re)criação do mesmo. A fotografia precisa ser tomada como linguagem, aberta sempre à interpretação. Não nos acabe assimilar a fotografia como realidade em si mesma. Como bem diz o historiador Andre Rouillé, “a imagem fotográfica não é um corte, nem uma captura, nem o registro direto, automático e analógico de um real preexistente. Ao contrário, ela é a produção de um novo real (fotográfico), no decorrer de um processo conjunto de registro e de transformação, de alguma coisa do real dado; mas de modo algum assimilável ao real. A fotografia nunca registra sem transformar, sem construir, sem criar”.

Termino essa exposição com a sensibilidade do meu poeta maior, Manoel de Barros, que é também fotógrafo da imagem poética pela palavra. e em seu livro “Ensaios Fotográficos” confidencia:

De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que se perdia nos longes da Bolívia E veio uma iluminura em mim. Foi a primeira iluminura. Daí botei meu primeiro verso: Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem. Mostrei a obra pra minha mãe. A mãe falou: Agora você vai ter que assumir as suas irresponsabilidades. Eu assumi: entrei no mundo das imagens.


Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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