Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo.

O retrato como ficção

Digo isso tudo para fazer um elogio aos que se lançam ao gênero que denomino “fotografia ficcional”. Despidos de toda necessidade de buscar a realização de uma verdade do que é dado a ser visto e registrado, que é em si mesma, inalcançável no campo da representação, jogam com as vicissitudes da ficção.

fineartlencol (1).jpgNormalmente o método do retrato é concebido como a busca de uma verdade. Por esse caminho, planos são arquitetadas para o alcance de tal objetivo: da verdade. Alguns dizem da verdade extraída do retratado, protagonista da cena, outros da verdade do retratista, condutor do processo, e que se mostra inevitavelmente no retrato que cria. Tomo aqui o termo retrato pra além de supostos fins mercadológicos que possam estar em questão, mas simplesmente como uma representação artística, via imagem, de outrem.

Mas como já anuncia o título do artigo, quero tomar em tese o retrato como mera Ficção. Ao dizer isso, trago uma proposição do psicanalista Francês Jacques Lacan que diz: Toda verdade tem estrutura de Ficção. Dizendo de outra forma, a verdade só permite mostrar-se como ficção (por mais que seja convencionado coletivamente que tal estrutura de ficção será uma verdade para todos). Aproximando essa afirmativa da linguagem visual como campo de produção de imagens, que visam se comunicar com alguém, esta proposição fica ainda mais evidente. 

1_2.jpg Ao lidarmos com a existência do visível, pelo que aparece a nossa visão, não temos nada mais que aparências. Mas poderíamos pensar, mas o visto é um fato em si: vejo, logo existo. Entretanto, quando nos dispomos cotidianamente ao ato de ver, não temos nada mais do que interpretações – sempre individuais – do que vemos. Como já anunciou no séc. XIX o filósofo alemão Nietzsche, “não há fatos, apenas interpretações”. Nesse momento isso nos auxilia na desconstrução da realidade/verdade do retrato. 

No pé em que estamos da reflexão, toda a ilusão da verdade se descortina, ou melhor, se desmorona, (deixemos a metáfora da cortina para uma estória mais a frente) e com ela qualquer possibilidade de uma fotografia-retrato do real. Vale lembrar que uma fotografia como meio de captura de um concreto do real, existe, não livre das tendenciosidades que a tornam dispositivos de poder e de manipulação de massa: temos aí a publicidade com suas verdades enlatadas prontas a serem vendidas, que não nos deixa enganar. Mas pensemos aqui nas teias de ficção que perpassam o retrato – deixemos os fins ideológicos para outro momento. 

7.jpgPrimeiro se tem a interpretação do observador, que munido do aparelho fotográfico, interpreta a sua maneira seu foco em cena. Nesse momento se fotografa quase sempre com uma pretensa de verdade: uma intenção íntima do retratista, consciente e nítida. Só que já aí ficção se instaura. Recordemos: a verdade se mostra por vias ficcionais. Que nesse caso é o mesmo que dizer que, enquanto o eu-retratador mantém-se na ilusão do controle e da busca da verdade da “coisa” a ser retratada, este mesmo eu torna-se vítima de sua própria ilusão ou não-verdade. Mas ao saltar esta fase de pretensa verdade, dispondo-se de razões de verossimilhança, lançando-se a liberdade de sua interpretação, ele constrói, – dá a luz – a uma verdade transfigurada sempre em uma imagem de sua própria ficção de verdade, uma verdade não-toda. 

3_4.jpg3_2.jpgSe nos atentarmos ainda para o alcance do retrato, depois de feito e exposto a um público, jamais se terá uma verdade sobre ele nos olhares que por ele passarem. Novamente, novas interpretações, e ficções sobre o visto: sempre num perspectivismo constante. Quem vê? De onde vê? E jamais uma afirmativa sobre o que é visto como verdade absoluta. 

Lembro-me de uma estória que li em um livro, e que aqui conto com minhas palavras. Dizia de dois pintores que passaram a se questionar sobre a veracidade do mimetismo de suas respectivas obras. “Mimesis” é um conceito grego que significa imitação. O drama posto era: qual dos dois conseguiria imitar melhor a natureza em suas pinturas? Qual quadro declararia a maior verdade? Ambos deram-se um tempo para o trabalho. Um deles resolveu retratar uma natureza morta: um prato com uvas suculentas. Dizendo que até os pássaros se enganariam com sua representação, e ao ver sua tela, viriam ao seu encontro pensando ser de fato real o prato de uvas. O outro preferiu o silêncio quanto ao seu objetivo. 

Tendo terminado o tempo que se deu para a produção dos quadros, eles os colocaram lado a lado. O pintor das uvas retira então um tecido que velava sua tela, e orgulhoso de sua criação mimética, mostra sua obra prima. E os pássaros ao avistarem o quadro se aproximam dado ao grau de realidade visual de sua obra, confirmando a genialidade do pintor. O outro se mantém calado, e ao lado de seu quadro. Irritado com a atitude pacífica e contrita de seu adversário, o pintor das uvas grita ferozmente que ele retire a cortina que encobre o seu quadro. Nesse momento se surpreende ao ouvir que isso seria impossível, já que ele havia pintado justamente uma cortina fechada. 

Digo isso tudo para fazer um elogio aqueles que se lançam ao gênero que denomino “fotografia ficcional”. Despidos de toda necessidade de buscar a realização de uma verdade do que é dado a ser visto e registrado, que é em si mesma, inalcançável no campo da representação, jogam com as vicissitudes da ficção. 

DSC_4911 (1).JPG O fotógrafo goiano, Tallyton Alves que acompanho a algum e que tem suas fotografias expostas nesse artigo, consegue essa faceta de maneira criativa e inovadora. Arriscando sempre em iluminações diferenciadas nos seus retratos, juntamente com o conjunto de produção visual, conceito de imagem, e de seu olhar atento, ele cria narrativas vivas, que fomentam a percepção de quem se dispõe a mais do que olhar: ver. E o ver aqui, nada mais é do que estar aberto à interpretação, a comunicação potencial de um retrato.

Tomo seus retratos como micro-narrativas, prontas para serem lidas. Gosto da temática da mulher em suas produções, e a maneira com que o corpo deixa se mostra e se esconder, se velar e se desvelar, e que me remete a fotografia como texto, devendo além de vista, ser lida pelas entrelinhas. Por aquilo que conserva o seu mistério. DSC_3240 copym.jpg 1.jpg


Victor Silveira

Estudante de psicologia, que aspira Filosofia e Artes Visuais. Gosta de palavras assim como de silêncios. Costuma ser o intangível do que mostra ao vê-lo. .
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