encha a xícara

Um gole de café e uma história pra contar

Dani Fechine

Graduanda em Jornalismo, leitora incessante e escritora do blog Escrever Para Não Implodir. Amante da literatura machadiana e admiradora da poética de Leminski. Paraibana que acredita num futuro regado a muitas histórias.
Escrever é uma necessidade que ultrapassa poesia, e eu ultrapasso a mim mesmo.

Novos tempos de paixão

Encha a xícara de café para perceber que em tempos onde se apaixonar se tornou démodé, estar vazio pode ser ainda mais assustador e refletir sobre isso poderá te trazer de volta à vida. Em um monólogo escrito em forma de carta, por Dani Fechine, alguns traços da sua vida se assemelharão com a ficção do conto.


obvious1.jpg

De repente me encontrei sentada naquela poltrona gasta que coloquei no meu quarto para me refugiar. Com as pernas envolvidas pelo braço, uma camisa enorme e um short jeans folgado, pensei em tudo. Desde a morte da bezerra até o meu futuro tão incerto. Puxei a escrivaninha mais pra perto, peguei aquele caderninho bastante rabiscado pelos devaneios de uma terça-feira à noite, e fiz das últimas páginas os lamentos de uma sexta sem samba, sem vinho e sem café.

"Querido diário que não é diário, como você consegue aguentar tantos problemas e ainda assim não se despedaçar? Me pergunto isso sempre que te largo novamente na prateleira junto com meus livros. Rabisco minha caneta em suas folhas constantemente e sequer um suspiro eu recebo. Como consegue ouvir tanto e não dizer nada? Me ensine esse feito, por favor, pois preciso ouvir a mim mesma, porém não paro de falar introspectivamente. Estou consumida pela solidão de uma sexta-feira sem um cavaquinho tirando nota ao meu lado, sem um copo gelado de cerveja ou uma taça cheia de vinho suave. Tentei me embriagar de um café muito forte, mas nem isso encontrei na minha cozinha.

Agora estou aqui. Sentada mais uma vez nessa poltrona repaginada pela décima vez, olhando pra você. Logo você que nunca me responde nada. Meu telefone não tocou. Nenhum rapaz de bem (nem do mal) me ligou para alguns drinks no bar da esquina. Torpedo via SMS eu nem espero mais (ainda existe?). Não que eu espere uma companhia legal para me divertir quando preciso, urgentemente, levantar daqui. Não que eu precise de alguém pra te largar de vez. Mas preciso, sim, de uma fagulha sequer de sentimento.

Quando fujo dessa lástima solitária de aspirante à escritora, escuto bodejarem por aí que se apaixonar é uma roubada. Mas uma experiência que meus escritos por aqui me trouxeram foi a de que estar vazia é ainda pior. Vazio não traz inspiração nem pra encher a cara, quiçá escrever um livro, tirar um samba qualquer e levar uma taça de vinho até a boca com uma degustação de desejo. Vazio não te empresta a asa de uma borboleta pra passear no teu estômago, porque até borboleta necessita de companhia pra trazer um pouco de embrulho.

Estar desapaixonado é um precipício que faz a gente sentar na sua beira e não sentir nenhuma ansiedade por estar alí, nem medo, nem angústia. Estar sentado basta. E a vontade de pular sem saber se algo vai te segurar, simplesmente não existe. Sumiu. Porque, realmente, não há nada que te segure lá embaixo. Essa é a certeza que você tem. E é assim que você dorme todos os dias: deita-se, vira-se e balbucia alguns resmungos típicos de quem não tem um beijo sincero de boa noite.

Portanto, caderno velho de folhas amarelas, me perdoe por mais uma noite de lamentos. E obrigada. Acho que dessa vez você me respondeu. Eu me respondi. Estou levantando. Ainda cambaleando um pouco, porque ver o mundo um pouco mais do alto não é tão simples. Mas já vesti minha melhor roupa, já liguei para a melhor amiga, e estou indo ser feliz. Estou indo sorrir em algum lugar, qualquer que seja, mas que me traga alguma alegria ao deitar novamente a cabeça ao travesseiro. Estou virando a página, fechando a capa e guardando a caneta. Espero não precisar voltar tão cedo. E obrigada, mais uma vez, a mim. Afinal, eu falo pra mim mesmo. Que loucura."


Dani Fechine

Graduanda em Jornalismo, leitora incessante e escritora do blog Escrever Para Não Implodir. Amante da literatura machadiana e admiradora da poética de Leminski. Paraibana que acredita num futuro regado a muitas histórias. Escrever é uma necessidade que ultrapassa poesia, e eu ultrapasso a mim mesmo..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/artes e ideias// //Dani Fechine