encha a xícara

Um gole de café e uma história pra contar

Dani Fechine

Graduanda em Jornalismo, leitora incessante e escritora do blog Escrever Para Não Implodir. Amante da literatura machadiana e admiradora da poética de Leminski. Paraibana que acredita num futuro regado a muitas histórias.
Escrever é uma necessidade que ultrapassa poesia, e eu ultrapasso a mim mesmo.

entre a mente e o papel em branco

O papel em branco te encara sem parar. É uma síndrome difícil de controlar. Ele te pressiona para que escreva uma frase sequer. Você se põe a escrever e absolutamente nada passa pela sua cabeça. A imaginação se esvaiu. Nada te ajuda. Mas calma... Isso acontece com todo mundo.


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Minha máquina de escrever já não me olha mais como antes. Os papeis parecem estar todos rabiscados, sem nenhuma pontinha em branco pra que eu possa ao menos assinar. O computador parece que descarregou para sempre. E a minha cabeça também. A folha em branco fala comigo em voz alta. É gritante a sua vontade de receber o carinho afagado pela caneta. Ela parece querer voar, procurando uma maneira de ganhar vida.

O papel em branco me olha sem mais me fitar. Tem um desprezo em sua retina que nunca havia reparado. Parece que realmente estamos discutindo nossa relação. Eu peço um tempo. Ele não aceita. Não é um moço de dar tempos. Ou encho-lhe por completo ou o amasso e jogo na lixeira ao lado da escrivaninha. Ele não pisca. Sua feição está a todo instante com serenidade. Fala sério. Se eu não for agora contar-lhe uma história, tudo estará acabado entre nós.

Hesito. Utilizo um grafite muito claro pra não machucá-lo na hora de apagar. Parece-me que ele ficará com alguns arranhões. Mas cuidarei disso depois. Ele há de me perdoar se ao menos um parágrafo sair das minhas mãos. Não ouso jamais pegar a máquina. Aquela folha é única. Insubstituível. Não posso correr o risco de jogar fora esse amor tão íntimo. Mas parece que cada vez mais a gente se afasta.

Eu não o desejo mais como antes. Tenho meus momentos de insight e ele não suporta esse egoísmo. Passa dias embaixo dos livros esperando um momento de respirar e ganhar vida. Mas parece que esse dia nunca chega. A gente não se abraça mais tão forte como da última vez. Engraçado... Semana passada tivemos um momento tão intenso que cheguei a acreditar que casaríamos um dia e que faria dele um belo livro. Não cheguei a enchê-lo de esperanças, mas estive a ponto juntá-lo com outros colegas e dar a notícia final.

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E voilà, estamos quase nos separando. Dá pra entender esse casal? Mas dizem que é assim mesmo. Depois de muitos anos juntos, a situação começa a ficar um pouco monótona. A questão é que se ele entendesse que me olhar com desejo de nada adianta, se ele soubesse que sentar e bodejar sem parar requer vontade incessante, se ele soubesse que um simples guardanapo pode substituí-lo facilmente se o momento for oportuno... Ah se ele entendesse tudo isso nossa relação seria tão mais fácil. Um relacionamento aberto, de fato, mas com uma confiança inabalável.

Ele me diz que eu preciso ler um pouco. Não liga de ficar um pouco sozinho se o motivo for me afundar em novas histórias e emoções. Ele acha que isso irá nos ajudar a ficarmos mais próximos. Eu o respondo com olhos cerrados. O papel sabe muito bem que não é assim que as coisas se resolvem. Não dá pra remediar um mau que já está feito.

– Mas vem cá, moça, toma um café, esfria essa cabeça. Já sei! Toma um banho bem gelado, é bom pra refrescar as ideias. Não hesita em me puxar pelo braço se na hora de dormir a inspiração chegar forte. Eu estarei ao seu lado, te esperando.

E eu o largo novamente com a caneta deslizando sobre ele. Não tem vinho que dê jeito. Cerveja nenhuma que me cubra de ideias. Não há café que me deixe alerta ou pensativa. Não dá pra me colocar a escrever forçadamente. Bukowski disse isso e eu estou aqui para não contrariá-lo. “Respeite o bêbado, meu caro”. Digo sem pretensão. Levanto-me. O telefone toca.

– Tá lembrada da nossa reunião em meia hora?

Dez, nove, oito... Quatro, três, dois... Insight. Inspiração. Um livro de ideias sobrevoou a minha cabeça. Tenho dez minutos pra escrever meu próximo livro.


Dani Fechine

Graduanda em Jornalismo, leitora incessante e escritora do blog Escrever Para Não Implodir. Amante da literatura machadiana e admiradora da poética de Leminski. Paraibana que acredita num futuro regado a muitas histórias. Escrever é uma necessidade que ultrapassa poesia, e eu ultrapasso a mim mesmo..
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