encha a xícara

Um gole de café e uma história pra contar

Dani Fechine

Graduanda em Jornalismo, leitora incessante e escritora do blog Escrever Para Não Implodir. Amante da literatura machadiana e admiradora da poética de Leminski. Paraibana que acredita num futuro regado a muitas histórias.
Escrever é uma necessidade que ultrapassa poesia, e eu ultrapasso a mim mesmo.

o amor líquido por trás do filme Her

O filme Her narra o amor de um homem por um sistema operacional. Será que essa é, atualmente, a maneira mais eficaz de se relacionar? Bauman e o seu conceito de amor líquido provam que a efemeridade também permeia a Era tecnológica.


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O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, inteligentemente, criou o termo “modernidade líquida”, que nada mais é do que uma associação a sociedade atual. Tudo é efêmero. Na modernidade líquida, as transformações são cada vez mais velozes, as verdades nunca absolutas e uma sociedade em constante movimento, sempre mutável, se reinventando.

Permeado nesta ideia, surge, a partir do medo do comprometimento, o “amor líquido”, uma Era onde a troca é atitude fácil e constante. O amor líquido é caracterizado pelo descartável, pela substituição frenética e impensável. O amor vira produto de troca e, também, de fácil acesso, sempre existindo um novo que precisa ser "comprado". "Vivemos tempos líquidos, nada é pra durar", diz Bauman.

Nessa perspectiva mergulhada entre os conceitos “baumanianos” e os laços afetivos que construímos no decorrer das nossas vidas, o filme Her chega para quebrar o paradigma de que são apenas as relações carnais que estão perdendo a força. Ao se apaixonar por um sistema operacional, Theodore parece suprir todas as suas necessidades dentro de um relacionamento. A forma virtual de se relacionar é a maneira que o protagonista tem de encontrar aquilo que realmente procura e idealiza, pois o sistema operacional se adapta cada vez mais às suas satisfações, tornando-se uma complementação do usuário.

Essa característica é uma premissa da sociedade atual, pois com as novas tecnologias, novos softwares e equipamentos, a quebra de expectativas pouco acontece. Tudo é programado de acordo com os nossos desejos e limitações e nada além do que se possa praticar é realizado. Entretanto, a tecnologia não consegue [ainda] suprir ou substituir todas as sensações e sentimentos humanos. O que se percebe no filme Her é a rápida capacidade que um próprio equipamento tem de se tornar obsoleto, assim como as relações humanas na modernidade líquida de Bauman. A Era do virtual também é descartável. Isso é inquestionável.

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A questão é que não importa se a relação é virtual, se é entre dois humanos ou entre um sistema e um humano, o amor líquido vai existir de alguma forma. O início do filme tenta nos mostrar que essa relação é uma fuga da efemeridade que se observa nos relacionamentos de verdade e que não há como sofrer nesse novo tipo de compromisso. Porém, toda essa imagem é desconstruída com as descobertas no decorrer das cenas e conclui-se que a partir dessa relação invisível entre o homem e a máquina, as coisas e as pessoas também são facilmente trocadas, ficam obsoletas em questão de dias. O filme nos mostra que não só as tecnologias são substituídas – afirmação essa observada quando o sistema operacional sai do ar – mas que também as pessoas imersas nesse meio estão sujeitas a substituição.

Logo, a era da internet não é a mais confiável das relações. Amanhã o computador em que escrevo pode estar ultrapassado, o celular que utilizo pode não suprir mais as minhas necessidades profissionais e pessoais, a minha TV talvez já não seja a das melhores. Amanhã todos esses objetos podem ser trocados facilmente. Assim como você também pode ser substituído como uma tecnologia. É a Era do amor líquido. E não sou eu que afirmo, é a natureza tecnológica e sociológica que diz.

Mas, eu prefiro ficar com a Era em que o continuar perpassa o começar; em que a construção permeia boa parte dos relacionamentos e a efemeridade é uma armadilha em que se tenta fugir constantemente. Fico com a Era da progressão e dos laços, em que o meio tecnológico é um avanço nas relações e não um retrocesso.


Dani Fechine

Graduanda em Jornalismo, leitora incessante e escritora do blog Escrever Para Não Implodir. Amante da literatura machadiana e admiradora da poética de Leminski. Paraibana que acredita num futuro regado a muitas histórias. Escrever é uma necessidade que ultrapassa poesia, e eu ultrapasso a mim mesmo..
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