encontros

quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico, tutor de produção e online academic writing. Apenas um inquieto que no suposto silêncio da escrita expira palavras.

A HOMOSSEXUALIDADE NO MUNDO CLÁSSICO

Tentar precisar a origem da homossexualidade seria um esforço inútil e muito provavelmente a encontraríamos na gênese do próprio gênero homo. Todavia, é na Grécia Antiga que o homossexualismo alcança um status único em toda a sua história, um profundo grau de institucionalização, simbolismo e virtualidade. Não só figurava como uma prática aceita, mas como rito de passagem, um privilégio social que harmoniza a educação dos melhores homens e perpetra o Pedagogo como Pederasta.


Achilles_Patroclus_(500-490BC)_Berlin-Mus.jpg

Os gregos consideravam-na por isso um elemento essencial de sua cultura já desde os tempos de Homero. A pederastia grega, idealizada desde a época arcaica, era uma relação entre um jovem adolescente (o amado) e um homem adulto que geralmente não pertencia a sua família próxima, (o amante). Surgiu como uma tradição aristocrática educativa e de formação moral. A origem da pederastia é bem anterior ao período clássico, abrangendo quase toda a Grécia e sua história, salve as especificidades na forma de viver essa relação.

Etimologicamente o termo significa “amante de meninos”. Em sentido mais amplo, a palavra refere-se ao processo de educação dos jovens, parte integrante da Paidéia. Inicialmente, a palavra significava simplesmente “criação de meninos”, mais do que o componente de amor erótico entre adolescentes e homens adultos. Segundo Werner Jaeger, era o “processo de educação em sua forma verdadeira, a forma natural e genuinamente humana”, envolvendo uma complexidade de ritos e formação que compunham a plena concepção do ser homem grego.

O auge dessa prática homoerótica encontra-se no rito do RAPTO. A relação pederasta requeria o consentimento do pai do garoto. Em Creta levava-se a cabo um rapto ritual e consentido, para a realização deste o pai do jovem tinha que a aprovar o pretendente tendo como critério a importância da reputação do nome do outro em comparação com o seu próprio.

Muito além dos laços afetivos, estabelecia-se entre os jovens, por mediação dos amantes, a manutenção de uma linhagem e a responsabilidade de perpetuar a tradição e o status quo de uma família.

Apolo_e_Jacinto.jpg

Em Atenas, como afirma Sócrates no simpósio de Xenofonte: “O amante honrado nada oculta ao pai” isto concorda com o importante papel do patriarcado grego que tinha direito de vida ou morte sobre os filhos, em acordo com a importância que um filho julgava para um pai. Almejando resguardar seus filhos de impróprias relações atribuíam-lhes um servo, chamado pedagogo, para vigiá-los e educa-los quanto à formação intelectual e sexual.

Com o passar do tempo e de acordo com a importância daquele que é educado é auferido ao pedagogo a qualificação de preceptor, termo de origem latina: praecipio, “mandar com império aos que lhe são inferiores (em conhecimento)”. Como foi Aristóteles para Alexandre e Sêneca para Nero.

Os pais atenienses almejavam que seus filhos fossem vistos como belos e atraentes, sabendo que isto aproximaria a atenção dos homens e “brigar-se-iam por ser o objeto de sua paixão”. O rapaz para ser objeto de desejo devia reunir os requisitos para uma relação pederasta: tinha que ser kalós (belo), e agathós (honrado e recatado), não se deixando conquistar facilmente.

A relação homoerótica era fundamental para o sistema social e educativo da Grécia clássica, sendo a combinação do processo preparatório do futuro cidadão ateniense, com o amor metafísico só conhecido entre os homens. Continha ampla regulamentação cerimonial tanto em nível social como sexual e se considerava uma instituição entre as classes superiores. O amante adquiria a qualidade de um familiar masculino ou mentor do amado. Sua tutoria estava ratificada pelo Estado, como confirmam as leis que geriam tal relação.

A Pederastia era parte do ritual de passagem à maturidade masculina. A função principal da relação parece ser que era a introdução do jovem na sociedade adulta e as responsabilidades adultas. Em acréscimo estavam consagradas pela regulamentação religiosa, como se pode notar pelos diversos mitos que descrevem tais relações entre um deus e um herói: Apolo e Jacinto, Zeus e Ganímedes, Héracles e Hélas; entre dois heróis: Aquiles e Pátroclo, Orestes e Pílades; e entre um governante e seu igual: Alexandre e Heféstion.

Esperava-se do mentor que ensinasse ao jovem ou que descuidasse da sua educação, e que desse as ofertas cerimoniais oportunas. Em Beócia, o jovem recebia um equipamento militar completo, em Creta eram um boi, uma armadura e um cálice. Em geral os agrados estavam atrelados à função educativa como instrumentos musicais ou de caça. O laço entre os dois participantes parece que estava baseado em parte pelo desejo e amor, comumente expressado sexualmente, e em parte pelos interesses políticos de ambas as famílias.

Um aspecto importante era a amizade entre ambos, expressado pelo provérbio da época: “Um amante é o melhor amigo que um garoto poderá ter”. Estas relações eram manifestas, desveladas e honradas, sendo motivo de orgulho e componente essencial da virtude grega.

A promiscuidade era tolerada, mas concebida quando não havia entre os amantes a transcendência do caráter educativo, limitando-se ao desejo carnal. Como escalona Platão ao afirmar que a mais bela forma de amor era o intelectual entre os homens, onde um jovem deseja seguir o seu mestre por toda vida, a partir daí o amor inferiorizava-se pela exclusividade do desejo carnal entre homens e entre homem e mulher (na sua forma mais inferior).

Platão atribuía à alma humana uma hierarquia de três virtudes: o instinto, a coragem e a razão. No instinto (abrigado no abdome), manifestam-se os desejos carnais, considerados inferiores, mas essenciais para a sobrevivência e a reprodução do homem. Ele constitui a base da hierarquia da alma.

A coragem (residente no peito) é a expressão dos desejos superiores, elevados, do homem, dá testemunho da existência de uma vontade livre e autônoma; ela ocupa o patamar intermediário da organização da alma. Finalmente, a razão, sediada no topo da organização da alma (a cabeça), é a expressão da capacidade de contemplação, sabedoria e temperança do homem. Por meio da razão o homem consegue governar sua vontade e seus instintos, estabelecendo um equilíbrio entre as três virtudes.

Para o rapaz, e sua família, representava uma grande vantagem ter um mentor maior e influente que ampliasse sua rede social. Assim, alguns consideravam apreciáveis, nos anos de juventude, terem tido importantes mentores-amantes, demonstrando seu atrativo físico e galgando importante posição social.

Com frequência, após ter terminado sua relação sexual e quando o jovem já se tinha casado ainda se mantinham fortes laços de amizade com seu erastes por toda vida. Os gregos enalteciam estes amantes que continuavam seu amor após a maturidade de seus amados, dizendo: “Podes levantar um touro se o levaste desde bezerro”.

Na Grécia Antiga, o erastes era um homem aristocrata envolvido em um relacionamento com um adolescente do sexo masculino denominado eromenos. O relacionamento entre o eromenos e o erastes era muito mais amplo que meramente sexual, como atesta a variação de nomes nas diversas Polis. Em Esparta era o eispnelas, (inspirador). Em Creta, philetor (amigo).

ganimedes.jpg

Tais laços afetivos incidiam na política. A relação de amizade funcionava como uma limitação dos impulsos da juventude, já que se o jovem cometia um delito não era ele o castigado senão seu amante. No exército, os amantes lutavam lado a lado e competiam por brilhar um acima do outro. Assim, se dizia que um exército composto por amantes seria invencível, como o foi até a Batalha de Queronéia, a tropa sagrada de Tebas, um batalhão de cento cinquenta casais de guerreiros que lutavam junto a seus amados.

“Se houvesse maneira de conseguir que um Estado ou um exército fosse constituído apenas por amantes e seus amados, estes seriam os melhores governantes da sua cidade, abstendo-se de toda e qualquer desonra. Pois que amante não preferiria ser visto por toda a humanidade a ser visto pelo amado no momento em que abandonasse o seu posto ou pousasse as suas armas. Ou quem abandonaria ou trairia o seu amado no momento de perigo?” (Platão, O Banquete)

De acordo com o sentimento popular, expressado no discurso de Pausânias no Simpósio de Platão, os casais pederastas eram também fundamentais para a democracia e assustavam aos tiranos porque os laços entre eles eram mais fortes que a obediência às regras despóticas. Ateneu afirma que “o aristotélico Jerónimo diz que o amor com os rapazes está de moda porque muitas tiranias têm sido recusadas por homens jovens na flor da vida, unidos como camaradas em mútuo entendimento”.

Aristóteles sustentava que alguns Estados apoiavam a pederastia como um método de controle da natalidade, dirigindo o amor e o desejo sexual por outro igual (que não procriaria). Há constância de que muitos líderes políticos tiveram públicas relações homossexuais como: Sólon, Pisístrato, Hípias, Hiparco, Temístocles, Aristides, Demóstenes; Pausânias, Lisandro, Epaminondas e Alexandre, o Grande.

“Com o que mais se relaciona às cidades é com os desportos” é a frase que Platão usa para descrever os Estados onde aos gregos gostavam de prosperar. A prosperidade política liga-se assim ao preparo físico dos homens e ao erotismo envolvido nas atividades desportivas executadas pelos gregos. Nas práticas esportivas os homens treinavam e competiam nus, sendo vedada a participação ou mesmo a presença de mulheres, tal prática era fundamental para o culto ao corpo e ao erotismo que impregnava as sociedades pederastas.

A beleza e o poder erótico do corpo nu eram ressaltados com o uso de azeites untados sobre ele. No entanto, a princípio considerava-se uma falta de modéstia os rapazes ungirem com azeite por baixo da cintura para chamar a atenção sobre sua sexualidade. O abastecimento de azeite para tal prática era muito dispendiosa para os ginásios (a origem da palavra ginásio se refere à disciplina atlética e a nudez). Sendo bancada pelo governo da cidade e por doações privadas.

A origem da heterossexualidade e da homossexualidade é explicada por Platão no discurso de Aristófanes, que afirma existir num início, três tipos de seres humanos, dos quais, um correspondia aos homens; outro, às mulheres, e um terceiro, a uma criatura mista, masculina e feminina, denominada de andrógino. Os humanos apresentavam-se como duplos, até Júpiter desmembrá-los, transformando-os em criaturas singulares: a partir de então, cada metade procura a outra, que lhe corresponde; ao se encontrarem, copulam entre si.

“Os homens procedentes da separação dos homens primitivos, buscam, de igual maneira, o sexo masculino. Enquanto são jovens amam aos homens, desfrutam dormindo com eles, com estar em seus braços e são os mais destacados dentre os adolescentes e os adultos, como se possuíssem uma natureza muito mais viril.

Sem razão alguma, acusasse-os de não terem pudor, e não é por falta de pudor que procedem assim; é porque possuem uma alma corajosa e valor e caráter viris, que buscam aos seus semelhantes, e a prova disto é que, com a idade, mostram-se mais aptos para o serviço do Estado do que os outros. Quando chegam à idade viril, amam, por sua vez, aos adolescentes e jovens, e se se casam e têm filhos, não é por seguir os impulsos da sua natureza, senão porque a lei constrange-os a tal. O que eles querem, é passar a vida em celibato, juntos uns dos outros” (Platão, O Banquete).

Platão através de Pausânias, em Fedro, distingue dois tipos de amor, o popular e o celestial, dos quais o primeiro inspira servilismos, “reina entre os maus, que amam sem seleção tanto às mulheres quanto aos jovens, o corpo mais que a alma”, que aspiram unicamente “ao gozo sensual”, basta que obtenham o seu propósito.

Por sua vez, o amor celestial inspira exclusivamente o amor aos homens, especificamente aos jovens, cuja inteligência principia a desenvolver-se, ou seja, os adolescentes. “O seu objeto não é o de aproveitar-se da imprudência de um jovem amigo e seduzi-lo para deixá-lo depois, e, rindo-se da sua vitória, correr em busca de outro qualquer; unem-se com o pensamento de não separarem-se mais e de passarem toda a vida com o que amam”.

Voltando ao “O Banquete” de Platão. Concluída a fala de Aristófanes, reúne-se Alcebíades ao grupo de convivas, para alarme de Sócrates, que bradou ao anfitrião: “Socorro, Agatão! O amor deste homem é para mim um verdadeiro apuro. Desde que passei a amá-lo, não posso observar nem falar a nenhum outro jovem, sem que, por despeito ou zelos, se entregue a excessos incríveis”. Após enaltecer as qualidades de Sócrates, observa Alcebíades: “Vede o ardente interesse que Sócrates demonstra pelos belos jovens e adolescentes e com que paixão busca por eles, e até que ponto eles o cativam”.

Supondo Alcebíades que Sócrates interessava-se pela sua beleza, tentou seduzi-lo em diversas circunstâncias, fracassando repetidas vezes, optou por uma abordagem mais direta, expor-lhe os seus intentos: “Penso que tu és o único amante digno de mim e parece-me que não te atreves a revelar-me os teus sentimentos.

Da minha parte, posso assegurar-te que seria bem pouco razoável se não buscasse comprazê-lo nesta ocasião, como em qualquer outra em que pudesse ficar-lhe agradecido, por mim próprio, como por meus amigos. Não tenho maior empenho do que aperfeiçoar-me o quanto me seja possível e não vejo ninguém cujo auxílio para isto possa ser-me mais proveitoso do que o teu”.

Sócrates, responde, ponderando-lhe que trocariam valores desiguais, o da beleza física pela aquisição da sabedoria, após o que, Alcebíades apressou-se a abraçá-lo e passaram a noite juntos. A seguir, Sócrates, insultando-o desdenhou-lhe da beleza. O perfeito amante viria em Fedro, que lhe afirma: “Entre amigos tudo é comum”. Coube a Sócrates atestar a mais bela forma de amor platônico em um doce convite dirigido a Fedro: “Caminhemos!”.


Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico, tutor de produção e online academic writing. Apenas um inquieto que no suposto silêncio da escrita expira palavras..
Saiba como escrever na obvious.
version 4/s/literatura// @destaque, @hp, @obvious, @obvious_escolha_editor //Carlos Feitosa Tesch