encontros

quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor e editor.

INDAGAÇÕES CINZAS

Quais elementos antecedem o sucesso de "50 Tons de Cinza"? O que teria tocado o feminino?


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Depois da afirmação “reprimidas e pouco criativas” que usei para me referir as entusiasmadas leitoras de "50 Tons de Cinza", fui forçado a conversar com algumas amigas, colegas de trabalho, desconhecidas e algumas tediosas pessoas que simplesmente sou obrigado a conviver. Percebi que fui deveras apressado no julgamento; se as mulheres sonham e deliram com essa obra é por certo por algo que elas não possuem.

Em uma de suas variáveis Nelson Rodrigues afirmou que “toda mulher gosta de apanhar, os homens é que não têm coragem de bater”, me dei conta de que a afirmativa “reprimidas e pouco criativas” não externavam os fatos devidamente. O dolo é sobretudo dos homens, da sociedade machista, da culpa cristã.

Historicamente negamos a mulher o prazer, a liderança e os impulsos sexuais, sempre restritos aos homens, uma mulher deveria ser casta antes e depois do casamento e essa máxima não está longe do comportamento que se espera delas atualmente. A desclitorização vai além dos rituais de mutilação, ela é cultural, ainda impera uma cultura de submissão, de negação de prazer e de castração para as mulheres. Infligimos a elas uma exaustão pela conquista do mínimo. Mesmo a medicina só se preocupou com o orgasmo feminino, não por iniciativa do homem, nas últimas duas décadas. Impetramos a violência sobre a doçura feminina.

O ser masculino se encontra profundamente inadequado a urgência que o feminino impulsiona, ainda permeia o óbvio e o trivial, não mudam o cenário do sexo, não atentam para o prazer das mulheres, como bufões apenas gozam e dormem ou se despedem, ignoram o olhar, as caricias. Encontro muita informação nas mídias sobre as preliminares, mas muito raramente sobre o depois, o compartilhar da exaustão, as outras caricias, uma coisinha leve para comer e beber, a conversa apimentada sobre as marcas na pele, os gritos e gemidos ou apenas o olhar.

Espero que tenhamos muito mais zelo pelo feminino, que nos empenhemos ao oficio de satisfazer e que a ditadura do dinheiro não mingue, nem assassine as relações.


Carlos Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor e editor..
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