encontros

quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor e editor.

APELO AO EXTREMAMENTE HUMANO

Não há virtude maior do que a temperança? Sim. Mas ela só é experimentada pela paixão, pela prática do sentir, não por um “mais ou menos”, um “estar não estar” insosso. Todo destempero e excesso de emoção, ou mesmo a falta dela em um momento específico, são a mais pura demonstração de humanidade.


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Um dos traços da evolução humana é a capacidade de aprender, de perceber os erros, refazer-se e tentar novamente, sempre deixamos marcas nas pessoas com tais experiências. Não podemos acreditar na possibilidade de controlar a percepção de cada um sobre o que somos, podemos apenas fazer o melhor possível e talvez sejamos lembrados segundo as nossas intenções.

Entenda! Você não é um espectro! Não passa pela vida de outras pessoas sem deixar substância alguma, ainda que tente passar despercebido, você é humano demais para isso. Mesmo os mortos esquecidos em seus apartamentos clamam na putrefação contra o esquecimento e a solidão. Não há quem passe pelas nossas vidas sob modo inodoro, insípido e incolor. Mesmo a apatia é uma presença, mesmo a aparente inércia do outro nos move e o desconhecido repousa em nosso subconsciente até que se revele.

De tempos em tempos, quando as pessoas, outrora comuns, nos parecem estranhas, desconhecido o que ainda há pouco foi tão íntimo, quando enfim nos sentimos um ‘Rocinante’, é então chegada a hora de rever a si mesmo. A disritmia é uma ressonância comum entre os seres, mas geralmente preferimos ignorar pequenos gestos, pequenas mudanças, sinais claros de que sopram novos ventos, o medo de mudar confina a alma, nos faz ser cruéis e injustos com os outros, nos conduz a mentira e a um vazio, tão grande, tão voraz.

Nossa humanidade ocasionalmente falha em perceber o infinito de possibilidades dos que nos circundam e das muitas feridas que ocasionalmente provocamos. Nesse processo vigora a urgência da ética, de ser justo antes de ser bom. Volta e meia essa conduta toma ares nietzschianos “não sou um homem, sou uma dinamite” e, sem doçura alguma, vomitamos um monte de coisas para explodir o que nos empareda. Feito o Rico, aquele pinguim maníaco de ‘Madagascar’.

Não raramente presenciamos sabias muralhas vagando como almas no limbo, por entre as seções de autoajuda ou na penumbra do aluguel de sofás ouvintes e superfaturados. Mudamos de religião, mudamos de amores, mudamos de casa, de endereço, de amigos, de trabalho, de dieta, mudamos os nossos nomes e ainda assim continuamos sempre no mesmo lugar, não percebemos a urgência intrínseca. São nesses instantes, de frustração e auto piedade, que muitos de nós aderem a um amargor tácito, uma frigidez mórbida, onde o sorriso do outro nos magoa, nesse instante somos comidos pela miséria da inveja.

Em outros casos, almas mais nobres entregam seus esforços aos outros, doam tempo, suor e sangue. Uma bondade proveniente de um vazio incomensurável que só encontra paz na felicidade do outro. Outros, menos nobres e afortunados, não padecem da inveja, mas não doam nada a ninguém, apenas mitigam sua dor e inadequação com o mundo, às vezes suspiram sem motivo, se entregam a emoções lenitivas e até sorriem quando solicitados.

São tempos dolorosos de isolamento, solidão e medo do outro. Humanos padecem em vida, como nunca antes, potencialmente belos, mas derramam frustrações por onde passam, podiam facilmente despejar sensualidade, inteligência e paixão, mas não, eles são o fruto precoce das desesperanças, da futilidade, da tola vaidade, das escolhas inconscientes e ainda mais dos lamentos.

O mal odor dos potes vazios e bem fechados ao serem rompidos. Amargos, por tão pouco, eles gotejavam um azedume espiritual, uma nódoa pessimista, descrente e lastimável. Doença moderna dos que permaneceram na ‘caverna’, eles nunca foram valorizados, acalentados, amados em plenitude, nunca se permitiram. Eles disseminam veneno sem verter antídoto.

Que nosso senso de justiça sobreviva e nos impeça de ferir alguém e não pedir perdão, de viver como amargurados cheios de si e certezas, como medrosos cordeiros nascidos no cárcere ou como tolos repletos de nada a dizer. Melhor é correr o risco, antes tentar ser verdadeiro do que perecer pela parcimônia da falsidade.

Mas que não se torne essa empreitada uma desculpa para julgar, ter e ser a verdade. Não recaia na pretensão de fazer das suas convicções as verdades alheias. Atenha-se para um pouco de Kant: “AJA COMO SE SUAS AÇÕES FOSSEM ADOTADAS E IMITADAS POR TODO MUNDO”. Apenas tome cuidado para não acreditar que suas ações devam ser tomadas por todos, pense antes na sequela que elas teriam se fossem tomadas na sua própria direção.

Maior aventura do que caçar moinhos e fazê-lo em um Rocinante.


Carlos Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor e editor..
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