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quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico.

PARA QUEM ODEIA TARJAS PRETAS E PIIIS

Palavrão é mesmo coisa de gente imoral e é coisa de gente. Ignoramos a genealogia das palavras, desprezamos seus muitos sentidos, nos calamos e somos castrados por instituições, governos e manuais que ditam os bons modos. Odeio reconhecer os méritos de Foucault. “Mas o que eu não gosto é do bom gosto, eu não gosto de bom senso, eu não gosto dos bons modos”.


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Dionísio Azevedo deixou escapar um "Vá a merda!" durante o teleteatro “A Fabulosa História de Neca Pato” (1960), da Tupi. De lá pra cá com tantos caralhos, putas que pariu e vá a merda da Dercy, achei mesmo que o palavrão tinha conquistado o seu lugar, pois nem mesmo a brutal ditadura freou nossa abençoada língua chula e a expressão vulgar.

Em 2013 a propaganda do Punto Black, onde se dizia carro “do piru”, censurava o termo puta carro, por intermédio sigla P. O que seria isso? Uma puta reprimida? Comedimento pedante. Todos pensam na puta nessa hora, mas lhe negamos a devida homenagem. Quase ouso dizer que se trata de uma nódoa falocrática que libera o piru, mas oprime a puta. Não seria nada ofensivo. Existe uma diferença clara entre dizer puta carro ou dizer que é um carro de puta. Quem teve o prazer de ouvir Gabriela Leite ficaria feliz com qualquer aplicação para o termo.

Mas vivemos a era em que os discursos se tornam vazios para ninguém ofender e nada dizer. Outrossim, os assolados na existência eclodem na bestialidade da esfera virtual. Aquilo que vi a autora Caroline Barrueco docemente chamar de ‘“anel de Giges” da nossa época. Giges se tornava invisível quando escondia o engaste do anel, esconder a beleza é, de fato, uma exigência da invisibilidade. A suposta permissividade da web, a aparente ausência de controle é na verdade o mais próximo que chegamos da implantação do Panóptico de Jeremy Bentham.

As pessoas não se dão conta de que a ironia podre e velada do “nossa como você está linda”, tantas cortesias e “bons dias” acompanhados pelo armado sorriso de canto de boca é ainda mais agressivo. Tudo ganhou um viés insosso, nem mesmo se trata de um politicamente correto, mas de uma apolítica sem qualquer substância. Vivemos com medo da punição, do controle e do julgamento alheio.

O que nos silenciou, não foi nenhuma evolução dos padrões educacionais, mas o medo de assumir a responsabilidade pelo que se fala. Mesmo o esporte das massas mingua nas palavras. Saudades das falas do Vampeta, do Edilson e do Romário. Os palavrões, o deboche, a ironia. Hoje tudo se resume em ir para o campo, ganhar 3 pontos e fazer o que disse o “professor”.

A bestialidade é tanta que esses castrados sequer buscam a genealogia das palavras para saber que termos como cacete ou casa do caralho não possuem, primordialmente, conotação sexual. Falta prática hermenêutica. Chego mesmo a crer que quanto mais uma pessoa se escandaliza com palavrões, mais inibições e frustrações ela comporta.

Nosso maior estandarte moral vem sendo o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), que chegou a colocar o pônei maldito sobre julgamento, vetou a Devassa da Paris Hilton, retirou o Trident que encolhia o pênis do fortão na praia de nudismo e acabou com o tesão de comer um Whopper, com tantos cortes e “piiis” não restou mais nada do hambúrguer.

Tudo começou muito sorrateiramente, o fim da pornochanchada, dos programas adultos como "Cocktail" e “Básico Instinto”, culminando com o manual do “Politicamente Correto & Direitos Humanos” lançado em 2004 pelo governo Lula. É jocoso o fato de um político dotado de máximas tão caricatas contribuir para a nossa moralização. Por si só toda moral é burra, pois pune e não educa, cabelo grande para homens e até orgasmo feminino já estiveram na pauta do moralmente inaceitável.

Aceite minha súplica fetichista: se queres gozar me deixa xingar. Imaginar que em 1987 com a letra SEXO o Ultraje a Rigor alertava sobre o “verdadeiro perigo na mente dos boçais.”, naqueles idos a censura era as claras, sem a covardia ardilosa da julgada inexistência. Hoje ela permeia uma moralidade pseudo-religiosa, castradora e asséptica que há tempos não se via. As tarjas pretas deveriam se limitar aos remédios controlados, consolo preferido dos abafados em si mesmos.

Nunca imaginei sentir saudade do tempo em que éramos o país da bunda, até a nudez do carnaval foi proibida, “bota uma folha”, “passa uma tinta”, “cobre com fita”. Hoje uma cena de tevê com nudez é um escândalo, uma cena de tapa vira tema do supremo tribunal de justiça, espera um pouco. Então a tevê virou o nosso último estandarte da liberdade? Que despautério.

Com muita consternação o palavrão encontra sua reclusão na comédia, basta falar “foda-se” ou mandar alguém “tomar no cu” num espetáculo para fazer graça, já foi mais difícil fazer os outros rirem, e riem justamente por ser um deleite poder ver alguém xingando tão livremente. O mais belo palavrão é aquele que escapa, que surge como uma necessidade irrefreável; ao topar na pedra com o dedão, considero muito mais profícuo o alivio da sonoridade libertadora do “caralho” do que o introspectivo “no meio do caminho tinha uma pedra”. De fato, “em certas circunstâncias, um palavrão provoca um alívio inatingível até pela oração” (Mark Twain).


Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico..
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