encontros

quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico.

ALICE ENCONTRA O PEQUENO PRÍNCIPE

Sempre se trata de encontrar o “pomme de terre” como disse o Lagarto ao Coelho Branco. Gardner uma vez me confidenciou que Alice, como toda menina do seu tempo, teve uma educação com viés francês, mas o apetite de Alice, não era simples curiosidade de menina vitoriana, havia muito mais em sua inquietude.


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Quando Beatriz me procurou para falar de afeições, da gratidão e do carinho em tons de falta, quando aquele corpo jovem se apresentou tão cansado dos desencontros e dos vazios dos encontros, eu tive que convidá-la para recompor aquilo que de tão leve o ar deixou partir, um encontro que inadvertidamente nos faz dizer aleluia.

Apenas apertando os dedos dos pés contra as areias de Marselha, sentado e suspirando sem fazer alarde, sem nada que realmente preenchesse seu coração. Mesmo o mar parecia um velho e cansado companheiro, e atente para o fato de que os pescadores são os últimos a se desiludirem com o mar. Contudo, o mar tem essa mania, nem sempre divertida, de levar e trazer. Suave, um convite reluzente encontra Dominique. A pulseira trazia a lívida inscrição “JOUER AVEC LE PETIT PRINCE”.

Não tardou para que aquele fulgor se espalhasse por entre os pássaros, pássaro por pássaro, sem nenhum papo de migalha das indagações de Swift, brilho por brilho, a notícia chegou como um coro desordenado: “Le Pilote! Le Français! Le Premier Petit Ami!” Grandes viajantes não coordenam o coração e a trajetória ao mesmo tempo.

Do lado de cá, Dominique se descuidava dos peixes, que aos montes já tripudiavam dele, a vida passou a ter um novo curso, comer já não alimentava mais. Ele finalmente entende o recado final de Antoine:

“Se vier um menino ter convosco, um menino que se está sempre a rir, com cabelos cor de ouro e que nunca responde quando se lhe faz uma pergunta, já sabem quem ele é. E então, por favor, sejam simpáticos! Não me deixem assim triste: escrevam-me depressa a dizer que ele voltou...”.

Como encontrar o Pequeno e contar sobre coisas que permanecem vivas diante de tudo aquilo que morre? Como contar ao aviador que o menino ainda não tinha chegado? Não tenha pressa minha menina. Apenas deite no meu braço e deixe que os suspiros sejam maiores que as angustias. De perto, quase tudo é aquarela e os camundongos não se confundem com morsas, nem hipopótamos. O único que poderia devolver a pulseira, ou que poderia contar do seu achado, era o próprio mar.

Como então poderia o Príncipe viajar para um lugar que já não existe? Não seja rápida em conceber tal tarefa como impossível, minha Beatriz. Comumente é para lá que todas as pessoas partem e tantas outras não conseguem mais sair, o passado. Mais ainda quando somos tolhidos por aqueles que mais amamos. Como um dia também se deu conta o Pequeno.

Aquela Rosa vivia a ilusão de que o mundo era ela, era dela; tanto amor lhe deu uma segurança egoísta. Ele era para ela a decisão segura, planejada, cômoda, mas não apaixonante, ele era o poema, mas não o improviso, nunca a dança. Ele era a calmaria, não a revolução, era o silêncio, nunca o caos. Ele era a inteligência, mas nunca a surpresa, o cuidado sem fazer falta. Ele era o medido, o computado, o ponderado e o escolhido, era a certa presença e o compromisso. Mas quanto ao amor? Amor? Ele também era não.

Eis o dia em que, frente o reflexo na redoma, ele tomou consciência da própria palidez, da vida vaga que levava, da fraqueza de pequenos gestos em que outrora ele depositara grandes expectativas, primeiro o brilho do passado, o aspecto de novo, as nuances. Em breve as cores se confundiriam, como a pétala esquecida entre páginas, é o esforço vão de preservar o tempo.

Quantos quases, vazios, ais, ponderações de possibilidades e incertezas em uma mente que oprime e rivaliza com todo o consciente, ele tateava os Baobás, um pouco mais crescidos, fitava as estrelas, um pouco mais distantes. Recobrava rostos e emoções, em busca do que não era cenográfico, tudo jazia pálido, sorriso entreaberto, pausado entre o triste e o insosso. O desgosto da ausência absoluta de paladar, lúgubre e atordoado, ele se pôs a vagar, exausto, não das voltas no B612, mas daquelas que dava dentro de si mesmo.

Somente o novo, o impossível, o eterno e o inimaginável o salvariam do comum e do apagado estado que aquela emoção/prisão o lançara. Mas as coisas belas são cada vez mais raras e aquele pequeno mundo já não comportava tamanha infinidade.

Tudo ficou estranho, sem rumo, tudo em tom de despedida, solitário e triste. Nunca sabemos quando dizer adeus e nem se dissemos quando realmente deveríamos. Aquele antigo menino olha para o conchego da casa e descobre que já não há onde se esconder, nada restou e apenas o passado não vai curar o presente. Mas ele olha para o céu e lembra de um outro céu, onde as nuvens ainda se pareciam com a Groenlândia. Aquele brilho ecoado por entre os pássaros era uma nova aventura, era a paz da viajem.

O único caminho para rever aquele mundo e reencontrar o amigo, era descendo a Toca do Coelho, não sem antes responder a esfinge sem mistério, aquele Grifo medonho, que apenas ficava um pouco engraçado pelas penas molhadas de chuva: “Até onde você quer descer na toca do coelho?” Você sabe a resposta Beatriz? Eu não sei? Até onde queremos descer nas lembranças? Nem mesmo se seremos capazes de voltar?

O Pequeno respondeu da forma mais franca e pura que ele sabia, igualmente sem mistérios: “Apenas quero meu amigo”. Não há como saber se somos procurados por alguém no resgate na saída da Toca. Pode ser que seja apenas um caminho só. Reciprocidade é coisa que não se pede, nem se espera.

Seres do silêncio, Alice somente conversava quando era solicitada e aquele pequeno nunca foi bom em responder perguntas. Um dos maiores desafios é descobrir até quando o outro quer que respeitemos o seu silêncio. E não te esqueças, minha pequena, de que eu não possuo o compromisso perigoso e extenuante de cativar.

Tendo descido a Toca, a primeira pessoa com quem o Pequeno se propôs a conversar, foi com o Rato, atraído pelo ligeiro sotaque francês do Príncipe, e pela urgência em secá-lo, ainda que apenas de um breve sereno. __ “Enfin chats chasseurs” __ Não! Eu não procuro gatos. __ Achei que você responderia a pergunta da menina. __ Que menina? Que pergunta? __ Alice. “Où est ma chatte?” Eu disse a ela que não gostava de gatos. __ Não vi gato algum. Apenas procuro um amigo. __ Então não trazes um gato? Fico feliz! É natural que eu não goste deles.

A cada nova pessoa aquele nome não saía das conversas, uma menina que enfrentava monstros, a ira de rainhas, e que apaziguou aquela terra. Quando o Pequeno Príncipe encontrou o nome de Alice, pela boca alarmada do Gato de Cheshire, sua Rosa, que o seguira a uma distância nada segura, preferiu ficar no antigo campo da rainha de copas, ela já não era a rosa solitária, mas era a única realmente vermelha. E essa era uma solidão que ela podia administrar. Respire fundo Beatriz, e permaneça contente quando a vida se apresentar assim, uma administrável solidão. O Pequeno Príncipe se foi, a redoma partiu e somente os novos dias revelarão uma rosa desabrochada ou uma promessa desfalecida.

Caindo desapercebido no Chá de Loucos, vendo a Rosa ficar de longe, mas sem que ela percebesse, sem poder afetar a inadiável partida, a melancolia tomou conta do nosso pequeno amigo que sussurrava para ela não ouvir: “É um equilíbrio exaustivo e confesso que fracassei em perceber o que sou, comumente exagero ou desdenho do efeito das qualidades que tenho e dos defeitos que demostro, do quanto me aprofundo ou me preservo, ficando na superfície. Foi aí que te deixei”. Alguém na mesa, creio que o chapeleiro, interpretou aquele sussurro como sendo um pedido de chá, com muitos torrões de açúcar.

Aquela prisão temporal, o relógio que não saía das 6 horas, também lhe aprisionava e lhe trazia a maior das prisões que era ele: “Sou a causa desse momento, desse desconforto com o meu pequeno mundo, com todos os outros mundos que visito e com essa constante solidão de quem não parte, mas que carrego para todo lado. Além do percebido, essas roupas de príncipe devem me fazer parecer arrogante. Se eu parecer feliz em ser sozinho, nunca terei que colher lágrimas nos olhos alheios. Por isso sempre vou embora”. Isso fez Humpty Dumpty perceber que o chapeleiro não tinha colocado torrões suficientes.

Após ser expulso, pela deselegância de ser o único são em um chá de loucos. O Pequeno vagou até encontrar um curioso aposento de porta pequena e entreaberta. Lá dentro, um bolo de aniversário, sim Beatriz, os bolos de aniversário são os culpados que nos fazem crescer ano após ano. Mas esse bolo com promessas súbitas encheu o Pequeno da vaidade dos que acreditam vencer o tempo. Ele comeu o bolo e esperou pular muitos aniversários de uma só vez, achando ser isso o que lhe faltava por dentro. Que criança faria uma tolice dessa? O principezinho devia estar mesmo crescendo.

Ele ficou muito frustrado, realmente irado, pelos relógios daquele país nunca andarem para frente. “Esforço inútil e árido! Parece que voltei ao deserto em que tudo começou. Devo ter muito mais daquela rosa do que eu pensava. Mas não se compadeçam de mim tão precipitadamente, não vejam em meus olhos um lamento. Eu serei sempre inoportuno e indomável. Qualquer sentimento que ignore este alerta será cruelmente recompensado. Fujam! Se escondam! E não se despeçam! Porque na feliz chegada, eu já havia lhes dito um triste adeus”. “Inoportuno e Indomável!!!” Ele gritava com toda força.

Mas a raiva foi passando, ele se deu conta de que crescer ainda demoraria muito mais tempo, lembrou que era melhor ser um “ignorante” do que um burocrático rei, como aquele que ele encontrou no passado, lá no Mundo das Fronteiras. Só então ele foi capaz de ouvir: "Ande logo seu menino bobo! Não há razão para chorar assim. Eu sei!". Aquele conselho ecoou pelas paredes, mas não vinha das paredes.

Assim como Alice, ele sabia que não adiantava tentar ser duas pessoas, ser apenas nós mesmos já exige muito esforço. Ele não iria crescer, por mais tamanho que tivesse, por mais bolos que comesse, chorar sem fim seria “afogante”, como alertou o Coelho. Antes que o Rato chegasse para secar as poucas lágrimas no rosto do Príncipe, seus olhos já secos o fizeram correr para um oásis fora dali.

É assim mesmo Beatriz. O mundo sempre se divide entre as maravilhas e os desertos. Cabe saber passar, sem pressa e sem desespero, por essa única e perigosa fronteira.

Pela entrada da Toca, depois de longas curvas e túneis, em um tempo incalculável pelos relógios, pelos astrônomos, por máquinas ou por deuses, nosso Pequeno encontra o que sabia estar buscando. É assim que nos preparamos para encontrar aquelas coisas realmente importantes, aquelas que tanto precisamos e nem mesmo sabemos.

Antes que os ponteiros do sempre atrasado coelho fossem ou voltassem, eis o amigo tão aguardado. __Voltastes ao deserto meu Pequeno? __ Não Saint! Voltei ao teu deserto. __ Veio voar comigo na insegurança desses tempos de guerra? Não se arrisque tanto. __ Somos desertos e guerras tantas vezes por dia. Agora quero um oásis. Vim por tuas palavras Saint. E fiquei sabendo que perdeu minha pulseira em um dos teus voos rasantes de cabeça pra baixo. __ Foi um contratempo meu Pequeno, mas o que amamos, de um modo ou de outro, sempre nos reencontra. __ Por isso vim buscar as tuas palavras. __ Onde andou meu Pequeno? Tuas aventuras e inquietudes não lhe ensinaram que as pessoas já não acreditam mais em palavras? Hoje só se crê em ações. __ Quanta tolice nesses novos tempos. As pessoas mentem tanto por palavras quanto por ações. Beijos e abraços podem ser falsos, conversas e discursos podem ser falsos. Mas raramente os instantes improvisados permitem mentiras. São estas as palavras que quero. __ Então se acomode ao meu lado, desamasse velhos papeis comigo e escute sobre os instantes em que esse piloto foi silenciado. Somente a paixão retira de nós o personagem, apresenta a verdade e nos abandona ao improviso.

E o que teria ocorrido com o B612? Sem o Pequeno Príncipe, os Baobás, apenas dois na verdade, cresceram livremente e cobriram todo o pequeno planeta, o solo ficou sob um belo tapete verde com algumas flores amarelas. As ervas daninhas já não existiam, não se esqueça de que uma erva daninha é só uma planta que cresceu no lugar errado e já não havia quem pudesse censurá-las. Isso reduziu as viagens estelares, pois os gansos selvagens finalmente encontraram um lugar pequeno e verde, verde porque é próprio dos pássaros gostarem dessa cor, e pequeno porque deveria mantê-los todos juntos, não é saudável ficar só ou distante.

Alice é uma promessa. Uma promessa raposamente aguardada.

Aquarela de Beatriz Salvador.


Carlos Feitosa Tesch

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