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quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico.

PENSE NEGATIVO

O trabalho de um IRONWORKER é a metáfora perfeita do equilíbrio necessário para viver bem, ou melhor, talvez não se trate do exaspero de viver bem ou mal, mas tão somente de poder evoluir enquanto vivemos, construímos algo, corremos riscos e brincamos de ser de ferro para manter a lucidez.


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Calma, não me tomem apressadamente por um pessimista ou fatalista. A positividade é um esforço louvável, porém, não obstante, ela é apenas uma feição da realidade. O equilíbrio consiste na temperança entre os polos da consciência.

Muito já foi dito e vendido sobre o pensamento positivo. Desde a invasão comercial de uma subcultura pseudo oriental. Raramente os contatos interculturais são algo mais do que desastrosos.

Ainda sob o efeito dos alucinógenos de Marco Polo, construímos uma imanência do positivo que perpetua a dicotomia maniqueísta ocidental. Ou seja, continuamos a reproduzir um discurso avesso a mentalidade filosófica oriental, uma compreensão da realidade por opostos, o feminino oposto ao masculino, o bem oposto ao mal, o positivo oposto ao negativo.

Uma avalanche de sectários alienados são consumidores vorazes de uma positividade unilateral e dissociativa da realidade. Eles vestem, bebem, comem, cultuam e ignoram. Já não há muita diferença entre Shiva, Sushi e Saquê.

Quando muito basta ler a etiqueta do produto, dotadas de informações tão vastas e confiáveis quanto se pode esperar de uma etiqueta. Mas ainda assim, há aqui uma janela de possibilidades, um convite ao diferente.

O que seria pensar negativamente? Existiria propósito em tal contramão? Recusar a negatividade é mentir pra si mesmo. Nos momentos de solidão, já não cabe apenas mentir e negar o vazio que nos invade, se tornou necessário anunciar a ideia de inabalável estado de espírito.

Ainda é concebido como fraqueza qualquer emoção que exponha o insucesso de uma relação com outrem. A própria ideia de insucesso, fracasso ou fragilidade, são concepções carregadas de uma lógica que nos permite amar, mas não nos permite sofrer. Nódoa racionalista incongruente.

O princípio da passividade das paixões, em sua etimologia e em toda a hermenêutica acerca do pathos, se revela no instante em que nasce a paixão, somos passageiros, somos o vislumbre da espera, o despreparo e a surpresa.

É indispensável reconhecer o estado em que nos encontramos, mentir um estado de bem estar é adiar e alimentar na surdina um doloroso inimigo, é esse invadir a dor em toda sua carência de nós mesmos que nos torna aptos ao estar bem, verdadeiramente bem, respeitando a dor, sua intensidade e seus prazos.

Pensar negativo aprimora nosso sentir, nos faz evitar ciclos emocionais destrutivos, pessoas daninhas, sofrimentos repetidos. Não raramente é necessário fazer um profundo e doloroso esforço para revisitar o choro e rememorar dores, mágoas, abandonos e frustrações.

Tais recordações nos advertem sobre as consequências de retornar amores frustrados, amizades ruins, trabalhos sufocantes. Não se trata apenas de viver bem, mas de morrer bem; não se trata apenas de ser feliz, mas de saber sofrer.

As emoções não são estados estáticos e, independente da nossa vontade, todos sofreremos e nos sentiremos incapazes. A crise é nossa companheira inseparável e o desespero um perigoso vizinho. Pensar negativo é o ponto de equilíbrio do julgamento positivo, em prol da harmonia que nos possibilita evoluir enquanto vivemos.


Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico..
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