encontros

quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico.

A SEXUALIDADE FAWCEWTT

Os caminhos para o exercício da sexualidade são vastos, constantemente opomos nossa enraizada e ignóbil moralidade aos humanos desejos e impulsos. Entre “Cocktail” e “Básico Instinto”, este é um agradecimento aos meus estimados mestres Fausto Fawcett, Luís Carlos Miele e Roger Moreira.


“Não venha mais com jogos de azar. Bobagens de quem não quer gozar”.

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Os três primeiros anos de 1990, foram de uma refinada inspiração masculina; última reminiscência da doce falta de pudor que contrariava as restrições violentas de uma sociedade amplamente castrada de sua liberdade e de uma póstuma moralização imbecilizada que esterilizou os anos subsequentes. Eu estava pouco me importando para os falsos heróis fabricados pela nossa história, cabíveis apenas em livros didáticos tão violentos quanto os cabrestos, viseiras e chicotes. Eu aprendi muito mais com Fausto Fawcett e Luís Carlos Miele.

A garota de Ipanema era lírica, mas as loiras de Copacabana do ‘Básico Instinto’ eram mulheres não mitificadas. Rogai por nós, santa clara poltergeist! Claro que eram objetos de desejo, mas sem quaisquer negatividades que esse termo possa conter, quiçá o prazer possa ser sempre compartilhado.

Recuso-me a chamar de submundo, como muitos o fizerem, submundo são as essências emudecidas, desejos humanos reprimidos, a existência assexuada. A sexualidade é a transcendência que todo saudável gosta, dimensão que pulsa tão efetiva quanto a fé ou a razão, não precisa ser homem, heterossexual ou isso e aquilo, basta ser humano.

Aos 11 anos, às escondidas, eu contemplava esse mundo, ligando a tevê à noite, quando minha mãe por um milagre dormia cedo, em surdina, quase sem volume algum, colado naquela caixa de madeira, aquecido pelo calor do tubo de imagem e ainda mais pelas mulheres, eu assistia o programa Cocktail do Miele, aquelas sim eram as verdadeiras mulheres frutas, quanto sabor havia naquele striper suave.

Mas quando ela resolvia assistir o programa eu driblava a cama e num ângulo de gol olímpico, entre a escada da copa e a sala eu me esgueirava em contemplação. Minha mãe ainda deve se lembrar do filho que subia as escadas com a desculpa de ver as constelações à noite, ela se pergunta por que eu não virei astrônomo ou quem sabe se divertia com minhas peripécias.

Além de fazer latente a sexualidade, a intervenção divina dessas mulheres me fizeram tomar gosto pela arte e pela história, no esforço para entender as referências de Miele e as letras de Fausto. Como, por exemplo, para entender quem foi Lady Godiva, John Collier e a história da única mulher com registro de terras no Livro de Domesday de Guilherme, o Conquistador. Por essas mulheres cheguei aos poemas de Tennyson, a Don´t Stop me Now, ao Queen, ao rock clássico e desenvolvi essa capacidade intelectual apurada para justificar e florear minha simples imoralidade.

Ainda que pareça herege da minha parte, em êxtase eu agradecia a Deus todas as noites por ser homem, por desejar aquelas mulheres, por entender e compartilhar o olhar imoral do Miele, inevitavelmente eu dizia amém, “amém Regininha”, assim eu dormia em paz. Convertido pelos corpos de Katia, Marinara, Regininha e as muitas mulheres do Miele. Belas meninas, cá lindas balzaquianas, no melhor sentido do termo, no que o tempo só agrega, ainda povoam minhas fantasias. Farrah Fawcett também se foi nesses mesmos anos 90, mas ficou esse eterno e “básico instinto”.

Era simples, uma época em que homens gostavam de mulheres apenas por serem mulheres, além de barriguinhas, estrias ou celulites que atualmente suplantam, e digo isso com imensa consternação, o próprio Feminino. Como diria Roger, outro dos meus poetas e educadores favoritos, “Mulher de qualquer jeito. Você sabe que eu adoro um peito. Peito, pra dar de mamar e peito só pra enfeitar”. Afinal, “Por baixo da etiqueta é sempre tudo igual, o curioso e a xereta. Que gostoso, sem frescura, sem disfarce, sem fantasia”.

Rogo aos deuses da libido pela propagação do prazer, sem a culpa difundida pela cristandade que manipulou a ideia de pecado original; rogo pelo prazer sem sentido ou fim determinado, que ele nunca seja inábil, que nutra respeito pela carne e pelo ser do outro, pela contemplação e pelo desejo. Sem a alcova de santa ou puta, sem os privilégios de garanhão, apenas anseio que os sexos se encontrem e gozem.


Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico..
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