encontros

quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico.

A BANALIZAÇÃO DO PEJORATIVO É O PRINCÍPIO DA DESUMANIZAÇÃO

Falar mal do outro é desumanidade sorrateira. A negatividade que despejamos ao depreciar uns aos outros apenas atesta nossa insegurança, nossa ignorância à sensibilidade e nossa falência enquanto gente.


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“Nenhuma palavra perniciosa deve sair dos vossos lábios, mas, se necessário, alguma palavra boa, capaz de edificar e proporcionar uma graça aos que ouvem”. Efésios 4, 29.

Futebol? Cinema? Música? Sexo? Qual a maior diversão humana? Tornou-se tão comum, tão corriqueiro desqualificar os outros, com base unicamente na individualidade das concepções, que cruelmente os submetemos a um constante estado de humilhação e depreciação.

Por certo, esse é o maior dos entretenimentos sociais. Não é o oculto da noite, o isolamento do quarto ou o anonimato das ações, mas sim, o menor sinal da coletividade que desperta o pior do humano. Vil contradição dessa sociedade que desumaniza.

Como um mecanismo de defesa, garantia de autopreservação, como se um embate fosse travado a cada olhar, desviamos a atenção de nós mesmos escolhendo o ser de alguém para ser sacrificado num ritual coletivo de achincalhamento. Punimos o diferente de nós mesmos e também os iguais.

Não carece de falhas de conduta criminosas, de imoralidades insuportáveis, tampouco de grandes feitos. A vulgarização do pejorativo é bem menos exigente, basta a cor da pele, a sexualidade, as preferências; basta, na verdade, o mórbido sadismo de cercear o outro.

Tal conduta anda tão imbricada que raramente nos damos conta ou consciência do quão predatórios e carniceiros nos tornamos, é a constatação do lobo de Hobbes. Pessoas aparentemente generosas, amigas e próximas, munidas da blindagem do humor, são impiedosos carrascos do humano.

Na fila do banco, nos encontros de família, entre as seções do supermercado, no cafezinho do congresso, nas reuniões da empresa, nos grupos virtuais, em quaisquer momentos corriqueiros presenciamos o lazer mórbido dos comentários debochados e jocosos. Jogamos “roleta russa” de humilhações, enquanto falamos mal uns dos outros.

Em sua gênese o termo “pejorativo” não se trata de expor o pior de outrem, mas antes, de tornar alguém pior pela incidência de nossa palavra encarnada em nossas maculadas apreciações.

A inabilidade para a empatia e a incapacidade de preservar a alteridade são proeminentes logradouros para a desumanização. Desta feita, abrimos o caminho para a crueldade, em pensamentos e palavras e, não obstante, prejudicamos uns aos outros com ações concretas.

O desafio é combater o malogro ainda na raiz, educando a mente para o exercício da compreensão, da justiça e da ética. Cuidar do humano, da preservação da própria concepção de humano, não é uma bondade desinteressada, mas uma urgência existencial.


Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico..
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