encontros

quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico.

QUESTIONAR É COISA DE SATANÁS

Não recomendado para ateus cientificistas e religiosos fundamentalistas.


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Primeiramente, isento Deus ou Satã de qualquer responsabilidade, inspiração, possessão ou apoio bibliográfico na composição do presente artigo. Segue uma produção livre, com algum embasamento histórico-teológico, relativa imaginação e absurda heresia que fatalmente me conduzirá, no melhor dos cenários e por desagrado mútuo, a vagar pelo limbo eterno.

Tenho uma fé indissolúvel de que um ou muitos deuses criaram o ser humano. Yahweh, Oxalá, Odin, Alienígenas e todos os outros tantos deuses são projeções emanadas das nossas diferentes culturas, da nossa sensibilidade transcendente. Contudo, em diversas culturas, os primeiros esboços da criação forjaram um pseudo humano de feições meramente figurativas, simplórias e animalescas.

O homem só atinge sua plenitude, a consciência de si e a singularidade sob modo adverso ou pelas mãos de um adversário. Não é o deus criador que nos presenteia com o senso crítico, mais comumente, em diversas cosmogonias, tal habilidade racional é intermediada pelo conflito entre os deuses.

Na mitologia Ioruba, a singularidade humana só é alcançada por uma peculiar enlevação. A ordem criacionista de Olodumare para Oxalá, consistia na fabricação padronizada do homem, mas o travesso Exu, senhor do movimento, coloca vinho na água de Oxalá, embriagado ele moldou a argila das mais diferentes formas, fabricando distintos homens, tantos quanto podemos perceber.

Entre os gregos, em uma das versões apontada por Hesíodo, o oficio da criação do homem é atribuído por Zeus aos irmãos Epimeteu e Prometeu, ao primeiro coube moldar os seres e dar-lhes diferentes atributos, moldando o homem do barro, mas sem mais contar com atributos disponíveis recorre ao irmão, que rouba o exclusivo fogo dos deuses e concede aos homens, dando-lhes superioridade face as demais criaturas.

Na Enuma Elish, dos antigos babilônicos, mais uma vez nos deparamos com a alusão ao barro, posteriormente difundida pela mitologia judaico-cristã como matéria de nossa criação. Também notamos novamente o ato de um deus superior conceder a uma divindade secundária o fabrico do homem; oficio pormenorizado pelos grandes deuses.

Segundo as tábuas acádias, o ser humano é produto de uma fenomenal e sangrenta batalha entre os deuses. Marduk idealiza o homem para o serviço fiel, mas cabe ao seu pai Enki a empreitada de moldar o homem e ao adversário Kingu, como pena pela sua atuação ao lado de Tiamat nas guerras primordiais, dar o próprio sangue, o sangue do derrotado, para avivar o homem.

Mesmo na mitologia nórdica, onde a criação do ser humano parece ser dotada de um incrível caráter conciliatório entre os irmãos Odin, Hoenir, e Lodur, a presença do opositor é garantida por Ymir, mais uma vez a vida e a inteligência não são concessões do nosso idealizador e nossa existência se encontra atrelada a derrota.

Os primeiros humanos, criados por Odin, são originários do olmeiro e do salgueiro, árvores que foram criadas, bem como todos as outras, dos cabelos do gigante primordial Ymir, outrora assassinado por Odin e seus irmãos. Hoenir nos concede o pensamento e as emoções, enquanto Lodur nos presenteia com o sangue, a vida e a fala.

Em contraposição, seria fácil concluir que no monoteísmo a oposição divina e a obra do adversário não teriam tal ressonância. Contudo, nenhuma outra religião destinou tanto tempo de suas querelas ao adversário quanto o cristianismo.

A cristandade motivada mais por interesses doutrinários e decorrências históricas do que por fundamentos teológicos, concebeu a mais engenhosa das dinâmicas do adversário, flertando com o politeísmo, ela tece o medo do opositor, personificado e transformado em astucioso inimigo.

Entre os Hebreus, satan, termo que pode ser literalmente traduzido como adversário, aparece, com grande relevância teológica, apenas em três momentos nas Sagradas Escrituras, em Jó 1-2; Zc 3,1 e em 1Cr 21,1.

Nas duas primeiras aparições satan é substantivo que designa a atribuição de um acusador na corte divina, ele é “o satan”, além da restrita especificidade de um ser celestial, antes de Cristo, quiçá na própria condição do Cristo, ele se sentava a direita de Deus com a função de ser o elemento questionador em um julgamento (Zc 3,1).

Daí resulta a conclusão de Jesus Cristo como um satan. Como afirma o Credo Apostólico e Mc 16,19, ele se senta “à direita de Deus Pai Todo-Poderoso, de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos”. Antes da função que lhe atribui a feição divina, é a marginalidade da sua condição humana, a ousadia de sua boa nova e o questionamento da tradição judaica que lhe valeram a crucificação.

Apenas na última aparição ele assume uma feição com nome próprio “Satan”, apenas para induzir David a fazer o recenseamento de Israel. Apesar da utilidade sócio militar de uma contagem dos cidadãos e das tropas, a tradição considerava tal ato uma usurpação da prerrogativa de Deus, único que poderia conhecer a exatidão do seu povo.

Nem mesmo outros deuses, como Baal são satanizados nas escrituras, antes, eles são apenas combatidos como engodos. Como ocorre com Lúcifer, vulgarmente associado a Satanás e as expressões “Filho da Aurora” (Is 14,12) e Querubim Cintilante (Ez 28, 14).

Tais ocorrências são empregadas, não para personificar o maligno, mas para satirizar deuses e reis estrangeiros, para tanto, recorre-se a própria tradição dos povos sob julgo, suscitando exemplos de seres celestiais caídos, como Attar e Faeton.

Nas demais aparições, “o adversário” reforça seu papel transitório de quem ocupa uma função atribuída por intermédio de Deus (1Rs 11,14), ou seja, qualquer um que tenha a disposição de questionar, de transcender e se opor a visão simples e primária assume a qualidade de satan.

Esse caráter transitório do adversário possui similitude com a própria língua hebraica, onde o verbo “ser” não é conjugado no presente, ele pertence exclusivamente a Deus (YHWH) o único que possui existência por si mesmo, eterna e imutável.

A criação do homem na cosmogonia judaico-cristã é, por razões obvias, uma construção de uma única divindade, apesar da forma plural encontrada: “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança”. O que denuncia a raiz politeísta hebraica, especialmente ao culto de Asherah, a esposa de Yahweh.

Outro caso de delação linguística, acerca da anterioridade e da inspiração encontrada em outras tradições criacionistas, como a sumeriana, é que diferente das interpretações onde a criação é uma composição inédita, no hebraico a tradução literal mais acertada seria: “Num início em que Deus criou o céu e a terra...”, desfazendo a exclusividade factual que a expressão vulgarmente usada “No início...” possa cooptar.

Sobre a confecção do homem e da mulher, a tradução funde dois textos em um, no primeiro (Gn 1, 1-27) o homem é a última etapa da criação e ambos os sexos são feitos da mesma matéria, o barro.

No segundo documento (Gn 2, 4b-23) o humano é a primeira obra da criação, sendo o masculino moldado do barro e o feminino da costela do homem. Era preciso garantir com Eva a submissão que Lilith, nossa primeira feminista, conseguiu traspor.

Concluída a obra, Deus nos lança comodamente no jardim do Éden, nus, com tudo que precisássemos à disposição e sem o conhecimento do bem e do mau. Não éramos mais que crianças, dóceis criaturas confinadas em uma ampla zona de conforto.

É pelo questionamento, não pela pressão, tentação ou força da serpente que a mulher subtrai o fruto da árvore proibida, aquilo que mais tarde os cristãos perversamente associaram ao sexo. A cobra foi o menor e o mais improvável dos opositores, pelo visto Deus ansiava pela hora de nos expulsar de casa.

Não há base teológica alguma para associar a serpente à satan, muito menos a um demônio. O texto deixa claro que o animal, até aquela ocasião, era mais astuto do que o ser humano, não com o intuito de enaltecer o animal, mas para reforçar a nossa condição simplória.

O conforto do Éden seria nossa eterna bestialidade, apenas ganhar a inteligência seria insalubre imposição divina, Deus nos abre a porta de casa e nos impõe à liberdade que conquistamos desafiando a própria morte.

Como disse Zeca Baleiro em Pircing “eu perdi o paraíso mas ganhei inteligência”. Se fosse mera punição Deus teria privado apenas a mulher do paraíso, mas ele aspirava pela nossa libertação. Não há amadurecimento no eterno conforto da casa dos pais, nem seria Ele uma criança mimada, dependente de adorações.

Afirmar que o homem está condenado a ser livre por intermédio divino chega a soar como sacrilégio filosófico, uma tentativa de cristianizar Sartre e o Existencialismo: "Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre, porque uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer" (em O existencialismo é um humanismo, 1978, p. 9).

Quando lemos em Gn 3, 14: “Por teres feito isso, serás maldita (...)”. O que comumente é interpretado como uma maldição para a serpente e para a mulher, assemelhar-se mais a um testamento da intencionalidade de Deus e uma imperativa advertência.

Afinal, a Mulher e a Serpente foram duramente malditas ao longo da história, perseguidas, chegaram a se fundir em algumas culturas. O Feminino é execrado, Asherah, a esposa de Javé; Lilith, a primeira mulher de Adão e tantas outras.

Muitos homens lastimaram e ainda lastimam o custo da liberdade, as cordas rompidas da marionete, o esforço para sobreviver, preferindo o eterno conforto ao livre-arbítrio. Relutância vã, é tarde demais, nosso primeiro pecado foi nossa maior redenção.


Carlos Feitosa Tesch

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