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quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico.

a glória enquanto paixão política

Resenha de “A Glória”, publicação de Renato Janine Ribeiro em “Os Sentidos da Paixão” (FUNARTE/CIA das Letras). O escopo promove uma breve análise histórica da decadência da Honra e de sua interferência sócio-política.


justa.jpg Cavaleiros em Justas, Árvore Carlos Magno Século XV, (1443). Fonte: BNF, MS. 13467 FL. 29, Paris, França.

Renato Janine Ribeiro em “A Glória” remete-se aos séculos 17 e 18, onde ao contrário do sentido de enamoramento dado pela modernidade, experimenta a Honra enquanto paixão. Enquanto componente de seu tempo e de suas relações sociais a glória abriga a esfera da história e uma nítida relevância.

A Honra, enquanto sentido que se concebe pelas experiências sociais, pode ser definida em sua manifestação como a imagem de si que escapa para os outros, para o público, independe do íntimo e do que o ser é verdadeiramente.

Essa paixão não opera regida pela ética ou pela moral, mas pela fama, pela reputação exortada, que move um ser para o julgamento dos outros; julgamento que se faz da ação visível do ser, não da intimidade, da sua intenção ou da sua dignidade, estas não compreendiam importância para a vida do nobre da corte do século 17 e 18.

Em contrapartida, quais foram as causas para a derrocada dessa paixão? O que promoveu o seu redimensionamento e sua furtividade na psique contemporânea? Renato aponta, primeiramente, o fim da sociedade do Antigo Regime, a partir da Revolução Francesa, onde os reis fortalecem os seus poderes e nutrem sua pompa com imensa teatralidade.

Nesse contexto, os duques de Borgonha deram início à etiqueta moderna, comportamento que se difunde pela Europa, em grande parte, graças à mulher, contendo os sobejos masculinos e empreendendo o ofício de agradar.

Todavia, esse componente cênico da sociedade de corte não deve ser relegado a uma potencial condição de falsificação da existência; era na instituição da vida de aparência que se instaurava a própria condição humana. Contra tal realidade se confere o nascimento da psicologia do homem passional, dominado pelas suas paixões, aquém do governo da razão, da moral e da fé.

A corte se apresentava como o microcosmo da sociedade, um laboratório de psicologia, onde as condições dominantes da vida social melhor se desenvolveram. A sociedade do Antigo Regime é a aspiração, a representação e o teatro. A vida de corte se constitui como experiência plenamente ciente e determinada da teatralização.

A sociedade da Fama, da Glória e da Etiqueta residiu na transição do Feudalismo para o Capitalismo, inserindo-se no momento em que a aristocracia feudal perdeu a primazia e a burguesia ainda não tivera atingido o ápice de seu poderio, onde o rei empreendia uma luta contra a nobreza guerreira para reafirmar o seu poder e equilibrar as forças divergentes.

Contudo, seria reducionismo conceber a motivação da teatralidade social pela contenta entre as classes e a aspiração ao lucro. Para ilustrar tal profundidade o autor resgata a fala de Athos em os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas, o jovem mosqueteiro concorda que se pode jogar com qualquer um, pois está em questão apenas o dinheiro, riqueza ou miséria, mas duelar só se pode com um igual, pois estão em risco a honra e/ou a vida.

A segunda causa para a decadência da Honra, enquanto claramente visível na conduta humana, consiste no fato de ter servido de fundamento para uma psicologia que persistia na ideia de como os homens viviam de fachada em seus disfarces sociais.

Destaca-se a psicanálise que desenvolvia uma meticulosa obra sobre como lidar com o malogro, habilitando-nos a um conjunto de técnicas que possibilitariam a confecção usual dos nossos prazeres.

Essa nova ação terapêutica questionava a conduta libidinosa, elucidava suas falhas psíquicas e objetivava curá-las. Aquele que se realiza na volúpia, por sua vez, nada teria que mudar, já que sua vida o contenta.

A sociedade do Antigo Regime condicionava sua vida, ou grande parte dela, a Fortuna, apesar de Maquiavel já ter atribuído, no início do século 16, apenas a metade das ações humanas a Virtù (capacidade humana de ser artífice de seu destino).

O advento da responsabilidade humana, em detrimento da Fortuna, só encontrou maior receptividade na trajetória pela hegemonia político-econômica exercida pela sociedade burguesa. A nova classe, de posse de uma razão questionadora das desigualdades, necessitou valorizar a ação humana frente ao determinismo.

Isto posto, a propagação de tal responsabilidade possui paridade com outro importante componente da nossa modernidade, a importância que se dá à intimidade, a real intenção do ser, ao contrário do Antigo Regime que possibilitava o viver entre máscaras.

A partir da Revolução Francesa, a vida cênica se distância perceptivelmente da vida pública, o social e o político engendravam-se mediante a representações concebidas por seus atores, com mais ou menos falsidade.

Da vida pública avizinhava-se à ficção. Somente com o fim do Antigo Regime e com a inauguração de um novo pensamento moral é que a futilidade será condenada, malvista e considerada mentira.

Destarte, tornou-se impossível à existência da sociedade da Honra e a própria compreensão da mesma, toda sua composição pública e política foi considerada falsa e carente de correção, a nova moral atribuiu ao íntimo a condição de verdade única, a correção da organização social deficiente e a felicidade.

Algo se esvazia nessa transição, a sociedade do Antigo Regime residia seus anseios mais na busca pelos prazeres do que na busca pela felicidade, a felicidade nos moldes burgueses, desde a sua gênese, nega os prazeres e as técnicas de outrora para alcança-los.

A Etiqueta e as demais regras do passado declinam de sentido, pois a felicidade pós Antigo Regime promove uma frincha com o âmbito externo, com as regras sociais, exortando a intimidade.

Sobremaneira, desperdiça-se a compreensão de toda uma época e se torna nebulosa a própria compreensão do nosso tempo, tendo em vista que o sentimento da Honra não se ausenta da nossa existência passional.

A honra, a fama e a glória se abrigam possivelmente, segundo Janine Ribeiro, nas profissões que abarcam parte dos sonhos da sociedade, onde a compensação financeira ou de poder são menores do que a fama atingida.

Será significativo que no momento onde se brada ou se realiza o êxito das racionalidades “fique a fantasia a cargo dos que trabalham, justamente, com fantasias? ”. Tal questionamento entreabre as muitas nuances da relação entre o social e a ficção.

CARDOSO, Sérgio. et al. Os Sentidos Da Paixão. 8. ed. São Paulo: Companhia Das Letras, 1993. p. 107-116. (RIBEIRO, Renato Janine. A Glória).


Carlos Feitosa Tesch

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