encontros

quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico.

Amores, balões e casas que voam

O amor nasceu em 1956. Bastaram apenas 34 minutos para que eu soubesse que nada mais cultivaria, sob modo tão simples, os meus sentidos e a minha consciência amorosa.


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Amar em concordância com as requisições gregas é impossível na condição humana, a excelência passional é destinada apenas aos heróis, aos mortais caberia tão somente contemplar a tragédia e, pela catarse, alcançar a purgação da alma.

Ajuda dizer que considero o amor, menos por capricho conceitual – essa coisa de tudo nomear – e mais por afeição exegética, uma paixão. Flertando com Leibniz, ela é uma modificação da tendência e em sua etimologia (paschein/pathos) a paixão nos conforta/confronta com a certeza da dependência do Outro.

Eros é esse extraordinário teatralizado, filho da pobreza e da riqueza, alusão aos extremos do ter e do não ter, fortuna dos amantes e miséria dos desfechos. Como fica claro em Shakespeare, amores exasperados são para o palco, para a vida, prefira amores-sonetos.

Eros, o amor, "é pobre, e muito longe está de ser delicado e belo, como todos vulgarmente pensam. Eros, na realidade, é rude, é sujo, anda descalço, não tem lar, dorme no chão duro, junto aos umbrais das portas, ou nas ruas, sem leito nem conforto" (Platão, Simpósio).

O amor miserável é melhor denunciado em “os três mal-amados”: “O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. (...) O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte”.

Proteja o amor do classicismo. Longe da miopia grega, se porventura Vinicius me permitir escolher, já “que todo grande amor só é bem grande se for triste”, eu prefiro a “Ternura”, onde o grande afeto “é um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias”.

O curta-metragem “Le Ballon Rouge” de 1956 é dotado de um desvelo que suplanta as ruas cinzentas, as cicatrizes de uma Paris pós-guerra; mais do que o contraste das cores dos balões, a relação entre o menino Pascal e o Balão Vermelho inebria pelo mais belo que uma relação pode conter, o cuidado.

Apesar de ter rendido a Lamorisse a alcunha de "o poeta da infância", o roteiro é muito maior do que uma mera temporalidade. A inveja que avizinha o amor, bem como nos olhos de Ofélia, a personagem de Clarice Lispector em “A legião estrangeira”, a astúcia dos demais garotos adensavam ainda mais o escuro das ruas.

Primeiro o Balão é cativado para depois acompanhar Pascal, na rotina do percurso nasce um profundo companheirismo, capaz de traspor a incompreensão de alguns, como a mãe do menino, e de encantar outros, como aqueles que ajudam Pascal a proteger o Balão da chuva.

Cada momento é tão expressivo, a autonomia revelada no interesse pelo balão azul da menina Sabine, a arte na praça e a brevidade dos diálogos são dotados de exímia sensibilidade. Por fim, sendo somente a afinidade entre uma criança e um balão, a história ainda nos presenteia com a dor, o desapego e a resiliência.

Mais de meio século depois do sobrevoo com balões de Pascal Lamorisse pelas ruas de Ménilmontant, o fotógrafo francês Laurent Chéhère fez as casas do bairro parisiense finalmente experimentarem a mesma sensação.

Laurent afirmou que o “interesse é mostrar a vida dessas pessoas e suas moradias. Essa parte da cidade é muito pobre e em cada metro quadrado é possível explorar uma rica diversidade cultural”. Apesar da beleza do seu trabalho, as casas ainda aparecem ancoradas pelos cabos.

Etimologicamente, o amor está mais próximo do menino Pascal, e até mesmo do renomado matemático, do que de Platão e seu Eros.

A raiz latina da palavra amor remete ao ato de cultivar, ao cuidado em preparar e semear a terra; não obstante, é uma alusão ao sexo. Por outro lado, se abancarmos no termo indo-europeu “am”, teremos uma derivação associada a formação de palavras latinas ligadas ao cuidado com as crianças.

Em ambos, somos herdeiros do amor vulgar e não do amor mítico. Não dei a esse amor vulgar, ao qual me referi, nenhuma nuance moral, falo meramente do sentido primeiro que a palavra evoca.

Não há mérito algum em cingir o amor, em sacralizá-lo. Ele não caminha solitário, não espera aplausos, não se finda ao fechar das cortinas, não se abriga nas epopeias, ele é a delicadeza dos bons gestos, o zelo por quem se quer bem, o sossego dos suspiros, ele é o aconchego da paz que propagamos e sentimos. O amor é a mais vulgar das feições humanas.


Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico..
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