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quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico, tutor de produção e online academic writing. Apenas um inquieto que no suposto silêncio da escrita expira palavras.

A HONRA NA CONSTRUÇÃO DO REICH

Resenha analítica de “Não Iremos Mais à Floresta” de Gilbert Ziebura. Uma análise da ligação entre a Honra e os retrocessos antidemocráticos que culminaram no Terceiro Reich.


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Outrora bradada em todos os símbolos pátrios, evocada como síntese da resistência e do orgulho nacional, a “Ehre” (Honra) encontra-se em estado de torpor na Alemanha.

Segundo Gilbert Ziebura em “Não iremos mais à floresta”, a concepção de Honra se manifestou de forma funesta na história alemã e a sua evocação, a partir da segunda metade do século 20, só encontrou ruído na extrema-direita fascista.

Todavia, a ligação entre a ideologia de direita e o fascismo não é um elo de caráter embrionário, na verdade o fascismo, em sua gênese, esteve ligado a múltiplos conceitos do próprio socialismo.

Uma análise do fascismo não deve se ater a essa visão simplista e preguiçosa do dualismo ideológico-político esquerda versus direita. Na verdade, o fascismo se moldou no aglutinamento de elementos das duas perspectivas.

A honra foi fundamental na contenção do avanço democrático do Estado e da sociedade alemã, sobretudo no final do século 19, por meio de aristocráticos componentes ideológicos, ressuscitados do período feudal.

É ainda na consolidação do Sacro Império Germânia, pelas mãos de Otto I, que se firmam os primeiros esboços político-centralizadores da honra, contra a independência eclesiástica e a fragmentação da nobreza.

A burguesia alemã, sob modo peculiar, se absteve da elaboração de um processo democrático e manteve sua existência optando por enclausurar-se em um exacerbado sentimento de autovalor e pelo controle do seu próprio recrutamento.

Desta feita, observou-se o detrimento da “honra interior”, o apreço de si, o componente moral do indivíduo, pela a “honra exterior” o reconhecimento de seu valor pelos outros, a fama e a Glória.

Nasce daí, segundo Ziebura, a austeridade e dualidade de uma elite que se considerou o suporte do Estado, mas que transgredia as suas próprias regras para a preservação da sua imagem.

Exclusivamente nesse âmbito, o indivíduo possui a condição de colocar-se sobre o Estado. Tal condição era percebida no valor conferido aos critérios para pertencer a uma classe e servir ao país, bem como pela infâmia atrelada aos malsins do duelo.

No Reich de Wilhelm II, tal sentimento restringia-se a esfera individual de sua manutenção. Paralelamente, o indivíduo deveria corresponder a um dever de classe para sua inserção; a Honra fundamentava as diferenças e as divisões da sociedade.

As camadas inferiores da sociedade alemã, no entendimento do século 19, desprovidas ou desniveladas quanto aos elementos que distinguiam as classes entre si, como a educação e a cultura, não poderiam ser desafiadas para um duelo.

O embate pela imagem é um privilégio de classe e uma forma de alongar as virtudes. A elitização da sociedade se dava também por um código de honra marcado pelo componente masculino e o ritualismo.

Deste modo, como em outras sociedades arcaicas, desenvolveu-se um sistema rígido de regras relativas tanto à vida privada quanto à profissional. Não obstante, a ideia estabelecida de honra forjou elites em outras sociedades, mas não com a exacerbada intensidade que se deu na Alemanha.

Para a compreensão de como se deu tal particularidade, torna-se necessário recorrer à análise de uma instituição exclusivamente alemã, as corporações estudantis. Os companheiros-estudantes, na primeira metade do século 19, empreenderam-se na tentativa de conciliar o código de honra medieval aos ideais nacionais e liberais.

A mudança acelerou com a fundação do Império em 1871. No apogeu burguês das corporações estudantis surgiram, sobretudo a partir de 1880, os “Corpos” aristocráticos (Freikorps) e o reduto para honrar as cicatrizes, as Schlagende Verbindungen (Sociedade de Duelos de Esgrima).

Os Corpos, construtores da elite no Reich de Wilhelm II, eram formas extremas de associações indissolúveis entre homens, onde os membros mais antigos se empenhavam no benefício dos iguais que saíam das universidades,

As Schlagende se atribuíam a qualidade de escolas de virtudes civis do Estado, sob a divisa de “honra, liberdade, pátria”. Essas instituições preparavam os jovens para moverem-se no interior de uma realidade social extremamente hierarquizada, determinante de sua profissão e posição na estrutura do Estado.

Gradativamente, os interesses educacionais dos Corpos se entrelaçaram convenientemente à especificidade da política de força de uma Alemanha imperial, onde a honra da nação e do Estado reproduzia e duplicava a do indivíduo, transpondo-a para uma unidade profundamente sólida.

Paralelamente se destacava a prestigiada função social do Oficial de Reserva (Reserveoffizier) que, estando no eixo entre o corpo de oficiais da ativa e a vida civil, encarnava os componentes de uma cultura altamente elitizada.

O Oficial da Reserva incorporava essa honra que já não era apenas individual, mas a própria honra do Estado. Os Reserveoffizier foram responsáveis pela militarização da sociedade e pela preservação de uma elite marcada pela arrogância para com as classes inferiores e pela submissão as estruturas superiores.

A primeira guerra mundial e a revolução de 1918-1919 serviram para intensificar, nas elites provenientes do II Reich, esse sentimento de honra, agravado pela crescente repulsa à República de Weimar.

Serviram a este propósito aguerrido algumas corporações, sobretudo os Corpos, aquém das percepções das causas da derrota, o discurso dos Freikorps fomentava o nacionalismo e as hostilidades. Recrutados entre um grupo profundamente antidemocrático que lutava, em nome da honra ferida, contra o Tratado de Versalhes.

No II Reich, se introduz um novo componente na formação das elites, o prolongamento de sua base social, uma parte desta antiga elite reacionária e conservadora não aderiu ao fascismo, mas não abdicou da radicalização militarista.

A nova elite, a Schutz Staffel ("tropa de proteção") ou SS era de fato uma ordem masculina tradicional com código de honra e jurisdição própria. Essa associação combatente, além de seguir as ordens do Fünrer, aplicava a ideologia fascista, representada na divisa da fivela dos cintos pela inscrição “nossa honra é a fidelidade”.

Por fim, enquanto no II Reich a Honra se confundia em suas esferas individual e coletiva, no III Reich a dimensão do coletivo suplantou a possibilidade de honra do indivíduo, para externa-la na concepção do coletivo, acarretando o fim da lógica do duelo.

A honra enquanto organismo do Estado, elitista e excludente, finda-se paralelamente a queda do III Reich. A democracia, que historicamente se segue, abstém-se da concepção de honra exterior para garantir a própria existência.

A Honra, segundo Gilbert Ziebura, foi melhor protegida pela aplicação dos direitos do homem e do cidadão, rompendo com uma concepção que somente poderia retroceder a sociedade ao desprezo e a corrupção da dignidade humana.

GAUTHERON, Marie. (Org.). A Honra. Tradução de Claudia Cavalcanti. São Paulo: L&PM, 1992. p. 63-68. “Série Éticas”. (ZIEBURA, Gilbert. Não Iremos Mais à Floresta).


Carlos Feitosa Tesch

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