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quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico, tutor de produção e online academic writing. Apenas um inquieto que no suposto silêncio da escrita expira palavras.

esqueça aquela estória de se amar primeiro

“São demais os perigos desta vida pra quem tem paixão”. São tantos os perdidos na equação amor-próprio/amor-impróprio, tantos suspiros à espera de reciprocidade, tanto medo e desconfiança. É um mundo onde o adeus antecipa a chegada.


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Esquece logo de entrada essa ideia, até bem-intencionada, de se amar primeiro. Não existe amor próprio. Há o cuidado por si mesmo, o zelo, a autopreservação, mas amar é algo que nos coloca na eterna dependência do Outro.

A simples indagação acerca de um antônimo para a palavra próprio, associada ao termo amor, traria consigo a negativação desse sentimento. Se o amor que supostamente sinto por mim mesmo é chamado de ‘próprio’, todas as demais formas de amar seriam consequentemente impróprias.

A única propriedade essencial do amor é ser para alguém. Não existe uma posse, mas um ser possuído, não existem tutoriais, não há condição pré-determinada ou ordem numérica sobre o que se deve amar primeiro. Não é preciso amar em ordem, comumente, o amor é uma completa desordem.

O amor desorganiza a trajetória que tínhamos, os planos de outrora, as certezas, desorganiza a cabeça, as coisas na gaveta e a ilusão de controle. O amor nos consome, nos expande ou nos esconde, na medida do respeito que temos por nós mesmos.

Não se ama exclusiva e primeiramente a si como condição primeira para amar um outro. Qual poderia ser a exata medida e o instante preciso em que já nos amamos o suficiente para amarmos um outro alguém?

É claro que cuidar de si é indispensável, almejar amores que nos elevam, que nos fazem ser melhores, que nos acrescentam. Contudo, há quem ame o desamor e se dedique a dolorosas relações que trarão ainda mais sofrimento no porvir.

Por outro lado, há aqueles que entregam e dedicam toda uma vida ao fora-de-si-mesmo, seja em nome de uma causa, seja para salvar a pessoa amada. Não há uma medida para o sacrifício, nem para a outo-preservação, além do quanto intimamente meçamos valer à pena.

O melhor de nós é vivenciado por dois, “o que eu sou, eu sou em par”. Não falo apenas do amor-paixão, das relações de namoro ou casamento. O amor é a reação ao que nos move em alguém e para alguém.

Quando amamos o outro, e essa é a única razão de amar, exercitamos o que temos de melhor, potencializamos nossas qualidades, nossa humanidade e nos desconstruímos para um novo recompor.

Em contrapartida, continuamos comprando emoções pré-fabricadas, pois ainda nos envergonha a passividade das paixões. O “amor-próprio” é sempre o clamor dos magoados, é o avesso da dedicação sem par, é parar para voltar a ser.

Temos tanto medo da solidão que nos escondemos sós, mentimos pela ditadura da felicidade, estampamos uma fachada indestrutível. A imutabilidade das emoções ainda goza de profundo respeito social.

Nem sempre tudo está ou estará bem, quem sofreu sabe – o único lugar seguro ainda é o da crise – a sabedoria está em saber o que fazer da dor e o que permitir que ela faça conosco.

A dor nos engrandece e nos torna mais belos, enquanto não nos perdermos nela. Se houve aprendizagem e o bem para recordar, valeu cada lagrima, cada aperto no peito, cada suspiro que cortou o ar e todos os nós na garganta que ainda hão de vir.


Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico, tutor de produção e online academic writing. Apenas um inquieto que no suposto silêncio da escrita expira palavras..
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