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quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico.

A RESPONSABILIDADE É MAQUIAVÉLICA

A responsabilidade encontra ampla prosperidade em Maquiavel. O seu advento formula uma nova concepção de homem, não mais um resignado coadjuvante da Roda da Fortuna, mas como um ser que atua imprimindo sua marca no rodopiar de tal acaso.


BernardinoDiBetto(Pintoricchio)-vatican-StCatherine_sDisputation.JPG Bernardino Di Betto (Pintoricchio) VATICANO - Disputa de Santa Catarina

O totalmente imprevisto pode ser planejado, o inesperado pode ser pressentido, o homem atua sobre a sua própria sorte, é parcialmente senhor do seu destino, mas a fortuna ainda detém metade do controle das nossas vidas.

Um dos elementos mais expressivos da história ocidental, desde a renascença, consiste no advento da responsabilidade sobre a Fortuna, Maquiavel inaugura tal pensamento ao valorizar no Príncipe a virtude da potência realizadora.

Do latim, a “virtus” é a capacidade de fazer o homem atuar sobre o mundo como senhor de suas próprias ações, essa virtù faz do homem um sujeito com relação ao mundo e do mundo, um objeto para a ação.

A virtù em Maquiavel, assim como para muitos humanistas, é a única força capaz de vencer os ditames da Fortuna, deusa pagã romana do acaso, por vezes vestida de sorte, por outras de infortúnio, é o simulacro preferido para exemplificar a imprevisibilidade da existência.

Diante da inconstância da Fortuna, Maquiavel alerta sobre a importância de um reino possuir um exército próprio e a necessidade do treinamento militar para os cidadãos, que devem armar-se pela dependência e não por descrédito pelo Estado. Todo Estado carece de leis e armas, oportunas e eficientes.

Em consonância, é indispensável, principalmente para o governante, moldar a sua própria virtù, único valor evidenciado por Maquiavel em toda sua obra. A diferença de outros espelhos de aconselhamento aos príncipes consiste na nítida separação entre a virtù e as virtudes platônicas e cristãs.

Em Maquiavel, a virtù é concebida em par com o sentido latino de “viril”, os indivíduos virtuosos são definidos pela sua potência de impor à sua vontade em situações adversas; fazem isso numa combinação de caráter, força e cálculo. Eis o verdadeiro significado de ser maquiavélico.

Para Nicolau, deve-se lidar com a fortuna como se lida com uma mulher volúvel que se deixa seduzir pelos homens mais audaciosos. Essa é a maneira mais apropriada para responder a volatilidade do mundo.

Comparada a uma mulher, “la fortuna è donna”. Maquiavel refere-se à tradição do amor cortesão, onde a mulher que constitui o objeto do desejo é abordada, cortejada e implorada.

O príncipe ideal para Maquiavel não corteja nem implora pela Fortuna, ele a aborda, virilmente a possui e faz dela o que bem desejar. Essa nova abordagem, já escandalosa para a época, representa uma tradução clara da ideia renascentista do potencial humano aplicado à política.

De acordo com Pico della Mirandola, o poder da autotransformação de um indivíduo, afirma a possibilidade de que um ser de caráter consolidado instaure a ordem no caos da vida política.

Maquiavel não substitui a Fortuna pela responsabilidade, mas atribui ao caráter humano uma possibilidade, ainda que parcial, de agir sobre si próprio, já que a outra parte da sua vida permanece gerida eternamente pela Fortuna.

A Fortuna possui provável origem em de duas deusas oriundas da cultura greco-romana, a Fors, a deusa etrusca da boa sorte ou o princípio masculino do Acaso: “aquela que traz”, aqui se firma o conceito de providência e a Fortuna: “fertilidade, fértil”, associa-se à agricultura e às mulheres.

A Fortuna se equipara a Tyche, deusa grega do acaso e da sorte. O mundo romano fundiu as deusas em uma, a Fors – Fortuna, congregando em si o destino e o acaso. A deusa Fortuna era invocada sob muitos nomes distintos: Redux, sentimento público para pedir o regresso de uma viagem e a Huiusce Diei, fortuna particular do dia seguinte.

Tyche ou Fortuna distribuía favores e desgraças arbitrariamente. Os problemas relacionados ao destino e seus temas afins, foram motivos de reflexão desde cedo no desenvolvimento do pensamento humano.

O acaso foi um dos temas da reflexão dos filósofos antigos como Aristóteles, Platão e muitos outros ao longo do tempo, tentar dominar a imprevisibilidade da vida, ser agente de seu próprio destino ou sucumbir a sua inevitabilidade, tomou muito tempo e esforço da mente dos homens.

O medieval Ancius Boethius, enquanto esperava a própria morte, aprisionado na fortaleza de Paiva por Teodorico e era torturado diariamente durante o inverno de 524 - 525, escreve “A Consolação da Filosofia”, um diálogo entre ele e a Filosofia, que se apresenta como uma mulher, a própria Fortuna, que aparece em sua cela:

“Este homem, este homem buscou a fonte das tormentas que rugem e despertam os mares; O espírito que faz girar a Terra, a causa que faz transladar o Sol do Oriente brilhante ao Ocidente pálido; ele buscou a razão pela qual as horas de primavera são suaves com a manifestação das flores, e quem enriquece com uvas crescentes O outono maduro no final do ano (...). Agora vê que a mente que buscou e fez todos os segredos ocultos da natureza claros se encontra prisioneira prostrada da noite”.

Mesmo os religiosos sucumbiram a essa indagação pagã. O Padre Antônio Vieira faz uma descrição de como era a representação da Fortuna:

“Uns lhe puseram na mão o mundo, outros uma cornucópia, outros um leme; uns a formaram de ouro, outros de vidro; e todos a fizeram cega, todos em figura de mulher, todos com asas nos pés, e os pés sobre uma roda”.

“Acertaram, porém os gentios na figura que lhe deram, de mulher, pela inconstância; nas asas dos pés, pela velocidade com que se muda; e, sobretudo em lhes porem sobre uma roda, porque nem prospero, nem de adverso, e muito menos no prospero, teve jamais firmeza”.

A fortuna é volúvel, imprevisível, repleta de vontades incompreensíveis e insaciáveis, ela externa na aparência o medo do feminino. Ela potencializa, pela roda do Destino, a “Roda da Fortuna”, toda uma psicologia do pavor, pela qual se erigiram as sociedades falocráticas.

A consciência e a vontade humana estão limitadas pelo acaso. Neste aspecto, Maquiavel adota como modelo de príncipe o filho do papa Alexandre VI, César Bórgia.

César empenhou-se, de todas as formas possíveis, para conduzir o seu próprio futuro, todavia a morte de seu pai e uma série de outras adversidades imprevisíveis levou-o à derrota.

“O Príncipe” constitui um apelo a virtù e uma forma de agir segundo a sua mercê, o manual dos varões. Apresenta-se ao homem a exata realidade, de que és apenas um homem e de que por assim ser, como qualquer outro, está também fadado à morte e as desventuras.

Esse findar não se refere apenas ao findar da vida física, mas ao cabo das suas ações, ao limite de seu poder de interferir em sua trajetória pessoal, estas são transpostas por toda espécie de calamidades e infortúnios.

Entretanto, percebe-se na obra de Nicolau Maquiavel uma importante ruptura com o pensamento medieval, onde vigorava toda uma teologia da impotência face aos designos da Fortuna, como que reeditando o pirronismo, de nada valia as ações sobre o destino.

“Vi, ainda, sob o sol, que a corrida não pertence aos ágeis, nem aos valentes a peleja, nem aos sábios o pão, nem aos inteligentes a riqueza, nem aos entendidos o favor, pois a todos provem sorte e azar” (Ecl. 9,11).

“Vaidade das vaidades, diz Qohélet, vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl. 1, 2). Esse superlativo traduz um termo hebraico que significa “sopro, hálito, fumaça”. O “acaso” apresenta-se como o aleatório, o capricho da Fortuna.

“Já vi de tudo na minha vã existência: justo que fracassa por causa de sua justiça, malvado que sobrevive por sua maldade” (Ecl. 7,15).

Para os medievos, o tempo é a disposição agravante do incerto e a longevidade apenas prolonga a ação do acaso.

Doravante, Maquiavel se torna o prelúdio de um movimento que haveria de guiar nossas ações a calcarem-se na consciência e no planejamento. Insemina-se o embrião da liberdade racional, da responsabilidade pelos próprios atos e da filosofia existencialista.

Dedicado a Lorenzo de Médici, “O Príncipe” promove uma exortação às ações dos grandes homens, mas também atenta para os infortúnios e constante necessidade de adaptação que insistentemente norteiam o intuito humano de conduzir a própria existência.

Compreendendo a mutabilidade humana, Maquiavel concebe que é possível o aperfeiçoamento de suas formas de organização, o que se daria por meio da realização das potencialidades, pela ação da virtude em bem lidar com a Fortuna.

Esse agir exigirá dos indivíduos a capacidade de deliberar para saber enfrentar as resistências que surgem. Conhecer os limites da ação dos homens não significa limitá-los, mas permitir que ajam em consonância com a realidade.

Outro elemento que dificulta a ação humana é a temporalidade cíclica nas formas de governo. Utilizando-se de uma noção exposta pelos pensadores gregos Platão e Aristóteles, Maquiavel relata a existência das formas de governo e suas degenerações.

Para ele, as formas de governo são três ou seis, conforme a opinião dos "mais esclarecidos", referindo-se a Aristóteles: a monarquia, a aristocracia e a democracia são as formas boas e, as outras três, tirania, oligarquia e o politéia, são as degenerações.

Tal temporalidade poderia fazer com que todos os homens se prevenissem, pois, a decadência de um regime poderia ser prevista, no entanto não há um mecanicismo de sucessão de uma forma para outra, crises internas ou externas alteram o círculo das formas de governo.

Maquiavel descreve que os homens se afligem com o mal e se atormentam com o bem, produzindo uma luta movida pela carência ou pela cobiça, afastando-os do equilíbrio passional necessário para conduzir as próprias ações.

A instabilidade política, decorrente da natureza humana e das suas paixões aponta para outro ponto. Em Maquiavel, o acaso teria incitado às variadas formas de governo, desencadeando uma relação causal na evolução dos sistemas políticos.

Segundo Maquiavel, nos primórdios da sociabilidade humana, em decorrência do prestígio adquirido pelos mais valentes, os homens chegaram à conclusão do que seria útil e honesto, em oposição ao que era pernicioso e ruim, e contra aqueles que desta forma procediam, formularam leis e buscaram homens dotados de sabedoria e justiça para governar, fazendo nascer às monarquias.

Os herdeiros do reino, nem sempre dotados de destreza no trato da coisa pública, e em muitos casos inimigos da virtude, esbanjadores de suntuosidade e lascívia, despertam a ira dos súditos, que por sua vez, são repreendidos com grande violência por parte dos príncipes, em decorrência dessa preciosidade conceberam-se as tiranias.

Objetivando subjugar os tiranos, surgiram grupos que possuíam nobreza, riqueza, e virtude. Anexim de uma multidão que agradecida, pela libertação de um regime arbitrário, consentia com a edificação de um novo poder, a aristocracia.

O malogro não tardaria a escoar dos aristocratas. Acomodados com as facilidades do poder, passaram a transgredir os direitos dos cidadãos, agindo com desregramento, sovinice e cobiça. A oligarquia resultou de tal contexto.

As atitudes desmedidas de violência da oligarquia, para com o povo, lhes custaram o poder. A multidão, frente às lembranças da tirania, estabeleceu um governo que não jazia em um poder único, mas no de um grupo, firmando um "Estado popular", que, Segundo Maquiavel, rapidamente deixou notório o desleixo pelos cidadãos.

"Constrangidos pela necessidade, advertidos pelos conselhos de um sábio, ou movidos pela fadiga de tal licença, os homens voltaram ao império de um só, para recair de novo, gradualmente, da mesma maneira e pelas mesmas causas, nos horrores da anarquia".

A Glória, objetivo maior das contendas dos homens que se ocupam do governo do mundo, pode ser a causa de sua ruína. A confiança em si mesmo enevoa o discernimento humano e facilmente propicia que recaia sob os atos dos homens a imprudência e, com ela, o fracasso.

Um príncipe novo, segundo Maquiavel, aquele que recém conquistou ou assumiu um Estado, ou aquele que constitui novo Estado, mais do que aqueles os quais já consolidaram seu poder, encontram inconstâncias na administração do seu governo.

O pensamento maquiavélico se firma no princípio da necessidade para justificar e recomendar a tomada de certas atitudes concebidas como negativas no exercício da moral cristã, vigorosa em seu tempo.

A necessidade de ação, além de ser o elemento que advém do imprevisto, da ação do outro ser, da limitação das forças ou das leis diante de algo, pode vir acompanhada da Fortuna.

Na virtù política, os ciclos e a temporalidade da natureza humana, a qual Maquiavel despeja uma amplitude de sentimentos negativos, revelam características, onde os homens manifestam seus quereres, suas paixões e afecções, o que a uns confere o domínio e a outros uma postura de resguardo, por tudo isso cabe aqueles que se ocupam da ação política, o conhecimento para bem dispor, coordenar e corrigir o seu governo.

Os governantes também possuem suas ações limitadas. As aspirações de um príncipe são frustradas se ele não se cercar das condições necessárias para atingir os seus projetos, a condição inata é a permanência no governo, superior a moralidade, mais do que uma ética própria, ela é o engenho da antiética da necessidade.

Aqui se vincula uma proposição errônea de que ao príncipe tudo é permitido. Do contrário, e apesar do avesso ético, a ele é exigida uma profusa destreza para preservar-se no governo, daí deriva o limite de sua ação e a extensão de sua responsabilidade.

O espelho maquiavélico atesta que a responsabilidade sobre as próprias ações e a conduta sobre o próprio destino não são atributos de homens simples.


Carlos Feitosa Tesch

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