encontros

quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico, tutor de produção e online academic writing. Apenas um inquieto que no suposto silêncio da escrita expira palavras.

Sobre amar duas mulheres ao mesmo tempo

Amar uma mãe como mulher é receber um afeto que nasce sem o exaspero da prioridade, é se desnudar da posse, é finalmente deixar as coisas próprias de criança, outra vida repousará em tal conforto, é finalmente ser homem.


bellies_gallery_NEW_1025-8.jpg “Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não apaga quando sopra o vento e chuva desaba”.

Disseram-me ser impossível uma divisão tão imensurável, execraram-me tão somente por indagar, insistiram que o coração não poderia se ocupar de dois amores simultâneos, nem de dois desejos tão intercalados.

No mais inesperado das horas, contrariando expectativas domesticadas, croquis de vida e emoções de lugar algum...surgiu você. Uma pequena promessa de vida, além do que toda cegueira de outrora propunha.

Mas toda essa explosão do inédito não me atordoou em inquietudes, veio tão tênue aos meus braços, um presente sem mérito, a paz, o repousar do andarilho, a refeição do faminto.

Sem mesmo poder ver-te, o último milagre comum, um dos poucos mistérios restantes...fiquei extasiado, tomei de empréstimo uma vida que não parecia ser minha, mas que me encontrara pela simples afeição, a qual não hesitei em crer.

Quando um dia...ainda nos teus primeiros anos, ao me perguntar em uma das muitas conversas curiosas que tivermos...aquelas próprias das manhãs de sábado, descobrirá que amei tua mãe pelo amor que ela sentia por ti.

Não ouvi dela um dia de lamento, de maldizer ou de pesar. Contrariando todas as moralizantes condenações alheias, ela apenas transbordava amor; não houve dor excruciante, e elas não foram poucas, que a fizesse conceber um mundo sem você.

Não falo como quem avalia o todo depois de muito tempo passado, falo pelas noites sem dormir, tantas madrugadas que atravessamos conversando sobre você e sobre os muitos planos desse amor contagiante.

Amorosamente discutíamos sobre como você seria o eterno centro das nossas vidas, falávamos do teu nome, da tua educação, dos cuidados com a tua saúde, das roupas que lhe caberiam melhor, da decoração do teu quarto e das tuas festas de aniversário; bem planejamos uns dez anos.

Acompanhei o sono intermitente de todos os dias, o desconforto de todas as horas e o corpo irreconhecível a cada olhar, mas tudo parecia tão pequeno, nem as lágrimas tiravam da tua mãe o infinito desejo de você.

Depois das noites foram os dias, as tardes, você tomava cada instante das nossas vidas. Em toda a ansiedade da espera, em todo zelo pela tua chegada, você era o nosso constante e melhor assunto.

Bastava teu nome sussurrado para termos paz.


Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico, tutor de produção e online academic writing. Apenas um inquieto que no suposto silêncio da escrita expira palavras..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @obvious //Carlos Feitosa Tesch