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quando uma vida encontra outra e a palavra encontra a carne

Carlos Feitosa Tesch

Historiador, especializado em política, ética e linguagem. Atuando como professor, escritor, editor e revisor acadêmico.

FORTUNA: O LIMITE E A POTÊNCIA EM MAQUIAVEL

"Sorte imensa e vazia, tu – roda volúvel – és má, vã é a felicidade sempre dissolúvel, nebulosa e velada também a mim contagias; agora por brincadeira o dorso nu entrego à tua perversidade". Canções de Benediktbeuern


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Muito mais do que o seu objeto de análise, César Bórgia, o próprio Maquiavel testemunhou os limites da fortuna e amargou, aquém de tantos esforços, os seus ditames remanescentes da medievalidade.

Insurge ainda na dedicatória e no capítulo primeiro de “O Príncipe” a miragem da Fortuna; quando favorável propicia o poder, mas em suas agruras, sempre incertas, abate sobre os fortes a desgraça.

Resulta daí a necessidade de bem cultivar as virtudes para fazer frente ao insólito devir. O afastamento ou a lacuna deixada pela Virtù ou pela Fortuna tornam inviáveis quaisquer pretensões de condução de um governo, sobremaneira de si próprio.

O imaginário da Fortuna possui origem provável em duas deusas oriundas da cultura greco-romana, a Fors, a deusa etrusca da boa sorte ou o princípio masculino do Acaso: “aquela que traz”; aqui se firma o conceito de providência e a Fortuna: “fertilidade, fértil”, associada à agricultura e às mulheres.

A Fortuna se equipara a Tyche, deusa grega do acaso e da sorte. O mundo romano fundiu as deusas em uma, a Fors–Fortuna, congregando em si o destino e o acaso.

A deusa Fortuna era invocada sob muitos nomes distintos: Redux, sentimento público para pedir o regresso de uma viagem e a Huiusce Diei, fortuna particular do dia seguinte.

Como uma nódoa persistente de outro tempo, a sombra do paganismo e um persistente traço cultural, a Fortuna aparece, no início do postulado maquiavélico, como um dos possíveis caminhos para a aquisição de poder.

Sua apoteose encontra-se no penúltimo capítulo, "De quanto pode a Fortuna nas coisas humanas e de que modo se deve resistir-lhe", nele sua potência é substancialmente destacada.

Responsável pela metade das nossas ações, segundo Maquiavel, a Fortuna pode intervir na conquista e na queda dos Estados, e por isso ela deve ser conduzida por intermédio da virtude.

O galardão da deusa, que se transfigura em ação sob a vida dos homens, pode ser alcançado, mas jamais se deve confiar totalmente nos desígnios da “Imperatrix Mundi”.

A Fortuna traz consigo, segundo a visão dos humanistas, presentes caros aos homens como honra, glória e poder, por isso deve ser alcançada. Essa conquista será possível àqueles que possuírem a virtù, ou seja, a sagacidade, a coragem, a atitude em dominá-la.

A ação da Fortuna é insígnia para o mundo da Renascença. Se dela dependemos para atingirmos nossos objetivos, a possibilidade da ação humana sobre ela se revela um esforço inútil e, portanto, imperaria o imprevisto e a irracionalidade como preceito.

Pouco valorosas seriam as máximas humanistas acerca do poder e da ação humana já que os homens ainda se reconheciam como reféns dos desígnios da Fortuna. Voltar ao classicismo também teve sua paga.

Para transpor, na porcentagem que nos cabe, os imprevistos provocados por essa intempestiva Donna, os humanistas e o próprio Maquiavel, a colocam como um poder que deve ser domado e que avizinha a virtude e o mérito.

Aquele que se portar sob maneira viril será capaz de conquistá-la e atraí-la para si, a fim de moldar suas conquistas.

Quando vista as intempéries na face da Fortuna, o indivíduo desiste de possui-la, este se revela fraco e não merecedor do poder que ela pode proporcionar, abdicar da Fortuna é tão somente entregar-se a ela.

A concepção de que uma força seja capaz de interferir nas ações humanas, valor que se credita a Fortuna, não contraria o conjunto dos princípios humanistas de liberdade de ação para o homem, mas observa uma elitização da liberdade, onde só os que possuem a virtù, poderão ter espaço para a ação.

A Fortuna coíbe a presunção humana que crer ser senhor de todas as coisas e de todas as suas ações, já que poucos conseguem exercer tal domínio, e mesmo os que a adquirem a seu favor, não a possuem de maneira absoluta, face sua volubilidade.

Em Maquiavel, essa concepção de varão, não só cabível ao príncipe, mas a qualquer homem que é senhor de seus atos, é fortalecida.

Aqueles que firmam sua conduta tão somente na sorte, brevemente encontraram a Fortuna que diante de seus olhos rapta de suas mãos a sorte, outrora favorável. Ao contrário, aquele que se defronta com a Fortuna consegue, por sua sagacidade, obter sua afeição e por extensão os seus bens.

Virtù e Fortuna estão assim associadas, e como muitas vezes temos conhecimento das coisas pela ideia de negação ou expressão dos contrários, como alertou o próprio Maquiavel, a virtude se apresenta como elemento de domínio do caráter humano.

Deve um governante, portanto, ser detentor de virtudes tais como: a sabedoria, a justiça, a coragem e a temperança para obter os favores da impetuosa Fortuna e garantir a sobrevivência de seu governo.

Todavia, em Maquiavel, não só o domínio da Fortuna e o cultivo de Virtudes são obstáculos à atuação de um governante, como é possível perceber por intermédio de cinco outros grandes desafios do ato de governar.

1. Dos aliados:os novos principados padecem da dificuldade de firmar apoio incondicional daqueles que constituíram os caminhos que possibilitaram a tomada do poder.

Deve o príncipe perceber que tal questão estremece seu governo, sobretudo, por estar cercado pela inveja e pelos anseios pessoais dos seus aliados, ávidos em espreitar pela sua derrubada, caso contrariado em suas aspirações. Esse suporte pode ser também a causa de sua ruína.

Deste modo, deve o príncipe preferir o apoio da multidão, já que se deixam sempre engambelar pelas aparências; e por serem menos ambiciosos do que os seus demais aliados; pouco lhes será dispensado mais adiante do que o cultivo de um sentimento de respeito e reverência, que não comumente, hão de duvidar.

2. Da inteligência e do poder do governante: a própria consciência do governante pode também ser causa do limitar da sua ação.

O príncipe deve aprimorar-se no desenvolvimento das virtudes cabíveis e não sendo hábil para assim o fazer, estará desguarnecido contra aqueles que o precedeu, permitindo que estes se reorganizem no intuito de depô-lo.

3. Da legislação e das suas alterações: homologar novas leis confere grave risco para o príncipe.

Em Maquiavel percebe-se que promover alterações nas leis consiste em uma tarefa árdua e de eficiência muitas vezes duvidosa, tendo em vista que legislador “terá por inimigos todos aqueles a quem as leis antigas beneficiavam, e terá tímidos defensores nos que foram beneficiados pelo novo estado de coisas”. O que despirá o príncipe de apoio conciso em equilíbrio, corroborando para sua derrocada.

Quando se avizinha à necessidade de novas leis, deve o príncipe cercar-se das armas cabíveis para conter os revoltosos, para manter-se no poder ele conduz as reformas à força, ou atua com destreza para iludir seus opositores e minimizar as controvérsias.

As mudanças só carecem de ser amplamente anunciadas se for para bem se apresentar frente à multidão, dando-lhes a sensação de terem suas carências sanadas.

4. Da disposição das armas e dos exércitos: Maquiavel adverte, no que tange os impedimentos do pleno poder de agir dos governantes, que vão é atingir o poder com armas de outrem.

Caso o poder do príncipe advenha das forças de outro, isso denota a fraqueza desse governante e a sua possível subserviência a outro, pois aquele que detêm as armas é de fato o verdadeiro conquistador.

Desta feita, faz-se imprescindível à existência de um exército nacional dotado de amplos recursos. A carência de um exército nacional, ou mesmo a fragilidade deste, deixa o Estado e seu governante enfraquecidos.

Não sendo propicio a utilização dos exércitos mercenários, pois estes combatem por dinheiro, por ganância, não sendo assim combatentes confiáveis, já que não compartilham com o príncipe nenhum tipo de apego pela contenda e pela causa a que lutam.

Por tudo isso, o exército torna-se indispensável, tendo em vista que quanto maior forem as suas forças, com mais respeito e temor o príncipe contará com o temor por parte dos seus possíveis opositores.

5. Do controle dos seres governados: o maior desafio para os que detêm o poder são aqueles a quem eles governam.

O príncipe deve sempre buscar ser apoiado pelo povo, não devendo assim fazer-se odiado pelos seus súditos. Deve o príncipe, agradar a população ou fazer com que a multidão acredite que as suas necessidades estão sendo sanadas.

Contar com o povo significa manter o Estado coeso. As ações dos príncipes para abarcar o apoio da população passam na concepção de Maquiavel, pela garantia dos direitos de liberdade comercial e produtiva e pela manutenção do direito a propriedade privada. Tais empenhos são muito bem quistos pelos populares.

A impossibilidade de conquistar a simpatia da massa jaz na conquista de um Estado que se forja por meio de regras próprias. "Tais cidades têm sempre por bandeira, nas rebeliões, a liberdade e suas antigas leis, que não esquecem nunca, nem com o correr do tempo, nem por influência dos benefícios recebidos". Se assim o for, cabe à destruição de tal cidade e a constituição de um império do medo.

Todavia, isso não assegura a estabilidade do governo, pois um povo que se habituou a apreciar com leis próprias a sua existência, submete-se forçadamente a um governante até que seja propício um levante para por fim a tal governo.

Desta feita, há o governante que ser hábil no cultivo das virtudes necessárias para perpetuar-se no poder, que em Maquiavel atinge um novo patamar que eleva a responsabilidade humana, em detrimento da Fortuna.

O novo homem, inaugurado pelo pensamento maquiavélico, não se lança a própria sorte, ao acaso do porvir, mas eleva-se a qualidade de senhor das suas ações, senhor que deve gozar de virilidades tais, que seja capaz de transpor as mais diferentes dificuldades e domar a volubilidade da Fortuna.


Carlos Feitosa Tesch

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