encruzilhada

O encontro entre o admirável, o erudito e o simplesmente interessante

Sandro Marcos

Viciado em atenção e notívago inveterado, simplesmente não vive sem a multiplicidade de culturas e conteúdos! Multiplicidade esta que expressa através de incursões pelos mundos da música, poesia, literatura e do amor verdadeiro.

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A música, do gravador de rolo ao Pro-tools

Um panorama sobre a evolução dos métodos de gravação da música, sua popularização e a consequente multiplicação de artistas nos dias de hoje. Arstistas libertos do domínio das gravadoras e cada vez mais presentes em todo o mundo.


Com a evolução da tecnologia de gravação perdeu-se bastante em "magia", romantismo e houve até mesmo uma severa diminuição da motivação da gravação em alguns artistas, acentuada pela banalização do mercado fonográfico. Apesar disso ganhou-se em pluralidade, praticidade e em certa liberdade.

Studio 3 Abbey Road

Não importa qual sua motivação, os homens há muito tempo desejaram que suas falas, discursos, músicas e tudo o mais que produzissem em forma de som fosse perpetuado. Thomas Edison começou a tornar isto possível em 1877 com seu fonógrafo e de lá para os dias de hoje a evolução foi constante e cada vez mais acelerada. O meio da música e seus "atores", não tardiamente valeram-se das evoluções destas ferramenteas para passar a registrar pura e simplesmente suas criações ou vender seu produto, sua arte.

Esquecendo por hora os primórdios da gravação mêcanica, fonógrafos e outras arcaicas maneiras de registro da música e nos atendo somente à gravação elétrônica e olhando para os antigos estúdios de gravação analógica onde a mesa de som de quatro canais (pistas) era a alta tecnologia da época, amplificadores eram necessários para cada instrumentista e sintetizadores e gravadores de fita magnética de rolo eram grandes e pesados equipamentos, nota-se que a parafernalha utilizada consumia grandes recursos financeiros e de espaço. Daí não fica difícil chegar à conclusão de que os processos das primeiras gravações de música em estúdio exigiam tal complexidade que gravar um disco até os anos 90 era difícil, caro e quase um privilégio divino se tomarmos como exemplo as décadas de 50, 60 e 70. As gravadoras, devido ao dinheiro que possuiam, eram detentoras de um quase monopólio e desta forma "determinavam" quem ia ser ouvido ou não. Artistas com menos sorte perderam-se no tempo sem oportunidades para gravarem seus trabalhos.

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Quanto aos métodos e processos há de salientar-se que as antigas gravações eram feitas "ao vivo" no estúdio, ou seja, os músicos ligavam seus amplificadores individuais, plugavam seus instrumentos e tocavam como se estivessem em um palco fazendo um show. A música era captada em takes inteiros de uma só vez e se houvesse erros era quase sempre preciso executar toda a música novamente. Era trabalhoso mas não há como negar o caráter muito mais humano da coisa, os músicos conseguiam imprimir nos discos o que sua performance real demonstrava e isto é tão atraente que hoje em dia muitos artistas se utilizam, mesmo gravando digitalmente, desta forma para gravar seus discos: a captação da performance de forma visceral e "orgânica".

Isso mudou com o tempo, os equipamentos foram diminuindo de tamanho, alterando sua tecnologia e aderindo à nanotecnologia que permitiu armazenar grande volume de áudio em equipamentos minúsculos. Hoje gravar um disco tornou-se algo acessível para muitos artistas ou curiosos ao redor do mundo. Entramos na era dos computadores e a música passou a ser gravada em equipamentos e formatos digitais onde são os dados (bits e bytes) que fazem o "trabalho". Com os computadores vieram os softwares de gravação como o Pro-tools e é aí que a grande praticidade se revela; com os softwares passa-se a ser possível gravar, refazer, cortar, multiplicar e muitas outras operações com grande facilidade e baixo custo. Além disso é possivel alterar digitalmente vozes, timbres, distorções, tons e até mesmo tocar uma guitarra com som de piano saindo dos auto falantes. Quanto aos instrumentos houve evolução mas a foi mesmo forma de captação e distribuição da música que mostrou maiores e mais radicais mudanças.

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Em estúdio, cada músico passou a gravar suas partes de forma separada e praticamente independente. Desta maneira gravava-se uma faixa de bateria como guia e os outros músicos vão gravando separados seus takes. Se erram? Simplesmente apagam e refazem somente o ponto onde houve o erro. E se precisarem repetir ou prolongar uma mesma parte da música é so fazer uma espécie de "Ctrl + C" e "Ctrl + V" para colar as partes já gravadas onde seja necessário. Até mesmo as dobras, recurso inventado e usado nos anos 60 com o objetivo de "engordar" e dar mais consistência à música tornaram-se triviais, tarefas muito simples de fazer. Guitarristas e baixistas podem usar uma gama de efeitos e timbres - inclusive de amplificadores - muito elevada e experimentar até que consigam o som desejado. A adição de canais também tornou-se quase ilimitada podendo-se ter quantos forem precisos até o limite de processamento do computador apenas.

Logo os membros das bandas nem mesmo precisavam estar no estúdio ao mesmo tempo e com a internet não precisam estar nem no mesmo país. Aproveitando-se ainda da popularização dos softwares e dos computadores em si, cada um grava sua parte em sua própria casa ou em um estúdio de sua cidade e envia a seus companheiros por email ou alguma outra forma de compartilhamento. Assim a música se constrói aos pedaços, até que se forme completamente nas mãos dos produtores, engenheiros de som, etc. Daí para o CD ou arquivo e então para as lojas físicas, ou virtuais para download. A compra da música está se tornando um ato e não mais uma aquisição.

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Talvez a frieza tenha tomado conta dos processos de gravação, talvez a magia do encontro entre amigos no estúdio para horas a fio de takes e verdadeiras performances tenha chegado ao fim mas é fato indiscutível que uma onda de praticidade e multiplicidade de artistas que gravam seus discos, seus cd's demo, se alastrou pelo mundo. São inúmeras bandas que surgem e logo gravam suas músicas. Há uma infinidade de estúdios com preços cada vez mais acessíveis e o home studio tornou-se cômodo de muitas casas. Em suas garagens e porões bandas capturam, digitalmente, suas composições e logo divulgam para o mundo. Um autraliano pode, em instantes, conhecer o trabalho de um banda norte-americana independentemente de qualquer auxílio de gravadoras de qualquer porte. Se por um lado multiplicaram-se bandas sem talento com acesso fácil à gravação e divulgação, por outro muitas outras talentosas não necessitam tanto como outrora da ajuda de olheiros e gravadoras para poderem ter seu sonho realizado, estão, de certa forma, libertos desta vassalagem artística. Cabe a nós ouvintes filtrarmos o conteúdo e valorizar o que realmente tem qualidade; assim como ocorre com outras formas de arte.


Sandro Marcos

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