encruzilhada

O encontro entre o admirável, o erudito e o simplesmente interessante

Sandro Marcos

Viciado em atenção e notívago inveterado, simplesmente não vive sem a multiplicidade de culturas e conteúdos! Multiplicidade esta que expressa através de incursões pelos mundos da música, poesia, literatura e do amor verdadeiro.

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Entre o prazer efêmero e a glória do "não ter"

Ter ou não ter, eis a questão! Uma pequena dissertação sobre o prazer de buscar o que se deseja e contemplar o que se tem.


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Hoje estou pensativo e instigado, talvez maravilhado (que ninguém diga domado?) por algumas notícias boas recentes, talvez… Imagino como seria não ter, não possuir, com nada contar além de mim, além do nada, do fato simples: existo e aqui estou! Não ver nada em meu horizonte que não seja o imenso oceano de buscas; possibilidades infinitas enfim. O alcançar talvez não mereça tanta atenção, talvez não seja tão deslumbrante e vivo como o perseguir. Serei eu confuso, preguiçoso ou apenas desconcertado, desconstruído diante de minha própria figura pertencente ao mundo que não tenho como exemplo de sonho e sem alternativas a seguir?

Deveras insosso é o prazer de ter, a realização é efêmera, isto é um fato. Subta ou demoradamente, pouco importa, somos arrancados de nossa luta que tanto motiva-nos a acordar todos os dias e dar um passo à frente, jogados à obrigação da realização que não sabemos se queremos; buscamos sim, mas será que realmente desejamos que se concretize? Indubitável vazio forma-se então, vazio onde terminamos por nos perder, sem ter pelo que lutar, o que perseguir. O topo da montanha chegou mas e agora? Descer é claro! Alguns podem dizer: "subir em outra"! Uns tantos gritariam com o dedo em riste para o horizonte. Qual será o valor desta glória? Qual será a chance que teremos de novamente querer tanto algo que a busca em si já preencha o vazio do ter?

Infinitas são as chances de nada mais nos chamar atenção, afinal somos assim carentes, não sabemos desfrutar da conquista. Não é próprio do ser humano, ao menos não de todos, saber aproveitar este prazer efêmero como a última taça do vinho antigo e raro que guardamos na adega - aqueles que quiserem ler coração ao invés de adega sintam-se à vontade. Somos assim, definitivamente conquistadores, seja do que for, de quem for ou quando for. Deveríamos experimentar ser contempladores, daquilo que temos e do que buscamos, alcançando ou não. O ter pelo "ter" é vil, vazio e muito frustrante quando percebe-se que ele não abre caminhos, encerra-se em si mesmo, é fim...

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Não cabe a ninguém definir o que buscar, não cabe a ninguém julgar qualquer busca nem qualquer meio pelo qual é feita. Simplesmente deveríamos valorizar o que não conhecemos, como se fossemos mestres em todos os assuntos e entendêssemos os motivos e anseios alheios. O valor não está intrínseco em nada, nenhuma busca possui valor próprio e somente o adquire com o tempo. Nem falarei sobre o tempo pois é consenso que ele não deve ser desperdiçado mas não há a menor concordância em relação ao que é desperdiçar e o que é aproveitar. Não há “porquês” nem “poréns”, há somente razões indiscutíveis e tão próprias que chegam a ser quase impossíveis de ser entendidas por mentes avessas ao real significado da comtemplação do alheio como forma de virtude.

Instigado continuo, assim permanecerei indefinidamente, desta forma consigo preencher e, se não conceber, apreciar a eterna glória do não ter… a indelével empatia pela busca, sim, a busca do algo mais, seja lá o que for, seja lá quem for. Muitos morrem tentando, perseguindo… Morte feliz de fato. Morte com significado, despedida que deixa o pensamento aguçado, livre da enebriante sensação de sucesso que permeia estes dias vagos, estes dias quase inúteis. Não digo que hoje as pessoas consigam ou deixem de ter o que querem, hoje elas não buscam o que deveriam, estão e tornaram-se inertes, imóveis melhor dizendo. Suas bocas só sabem balbuciar verbos sem sentido, que nada modificam. Verbos como comprar, roubar, trapacear, ter, conquistar.

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Esta aparência enganadora, esta sujeira disfarçada de realização tomou as mentes fracas e muitas fortes também; sobraram os loucos que fugiram ou foram deixados de lado, tidos como inofensivos. Os loucos que aos olhos do mundo parecem bestas, aos olhos dos inertes parecem desleixados ou idiotas. Estes permanecem inabalados, cantarolando verbos encantadores como sentir, criar, meditar, sorrir, amar... Estes loucos assim ficarão para sempre, bebendo o vinho raro de uma garrafa que nunca se esvazia, a garrafa perfeita, cheia com a interminável, surreal e inverossímil glória do não ter!


Sandro Marcos

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