encruzilhada

O encontro entre o admirável, o erudito e o simplesmente interessante

Sandro Marcos

Viciado em atenção e notívago inveterado, simplesmente não vive sem a multiplicidade de culturas e conteúdos! Multiplicidade esta que expressa através de incursões pelos mundos da música, poesia, literatura e do amor verdadeiro.

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Hoje é um dia daqueles...

E se um olhar mais demorado mostrasse mais que o óbvio? E se hoje fosse um dia que nunca acabasse mas sem ser diferente. E se hoje fosse um dia daqueles?


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Hoje é um dia daqueles... Esta frase reticente, tenho certeza, soou como uma reclamação para a maioria dos que lêem. Concordo, parece; mas neste caso tenho que pedir calma aos leitores pois não é bem este o assunto destas linhas. Não vou reclamar hoje, afinal, hoje é um dia daqueles e por isso mesmo me atenho neste momento ao brilho natural das coisas, das pessoas, talvez até de mim mesmo se sobrar uma migalha nesta minha pequena reflexão.

Primeiro devo dizer o porque de hoje ser um dia daqueles… Sem retirar as reticências começo pelo tempo, ou melhor, o clima – deixemos o tempo de lado por hora. O clima aqui está ameno, quase frio, temperado como dizem no interior. Isso de fato me anima; não sou muito “amigo” do sol, luz, calor nem me diga. Ao acordar então fui naturalmente obrigado a sorrir, somente nuvens e o quase frio. Sorriso dado, rosto lavado, café tomado… agora sim acordado!

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Caminhando em direção ao trabalho vi novamente as mesmas pessoas dos dias anteriores, dias ensolarados, chuvosos, dias iguais. Passou também o mesmo padeiro a entregar o pão – aqui ainda existe algo assim – e também lá estava a senhora de outrora lavando a mesma calçada. Tudo quase igual e sem sol. Hoje é um dia daqueles, repito quase enfadonhamente, um dia sensacionalmente quase igual aos outros, que bom, um clima quase frio… Nesta manhã pude encarar a rotina com outros olhos, talvez um olhar da alma ou mesmo um simples efeito da animação matinal quando o dia começa como hoje.

Pois bem, tentei continuar, trabalhar, almoçar, voltar ao trabalho para no fim do dia apenas ir embora. Tentativa logo frustrada por minha imersão em pensamentos, divagações possivelmente. Ao cair neste vale de ilusão e reflexão não mais consegui sair. Meu corpo continuou os afazeres que agora já me pareciam abstratos, minha mente deitou na relva da quase aparente loucura; loucura aos olhos dos que pensam enxergar a realidade mas que na verdade só vêem o que são programados para ver. Sem problemas, afinal os humanos já foram escravos muitas vezes e hoje estamos na dita "era moderna"; sejam como computadores então, sejam programados. Continuarei na relva, alvo de desconfiança, deixem-me em paz. Hoje é uma dia daqueles bons, onde tudo é igual e eu aqui posso me esvair de mim, ou ser eu mesmo às vezes.

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Este dia é bom pois posso ver as coisas como gosto, como imagino em meu íntimo, deitado na relva que mencionei antes, é bom porque lá estão todos os ingredientes que o fazem ser, existir. Sendo assim cada pessoa ou personagem que nele está ou que o integra, é fundamental; com suas qualidades e defeitos intrínsecos e essenciais, participando ativamente desta rotina que cada vez mais me mostra não o sentido da vida, mas da morte. Onde estar morto é colocar o sentido da vida na posse, no ter e em tantos outros pobres verbos ligados ao maldito dinheiro, maldito e necessário, sim, não sou louco nem burro o suficiente para pensar que viveria sem ele hoje, ainda não consigo divagar tanto assim. Esta rotina seduz o corpo e a mente primária, mas abre caminho para a alma e a mente escondida e inconsciente, aquela que me leva onde nem sei como chegar, onde posso estar a qualquer hora ou qualquer lugar. A rotina segue, bela e eficáz, mantendo as coisas em seus lugares, salvo por um ou outro mais louco que eu, que aparece as vezes e me mostra que talvez eu precise ainda de algum tempo para poder exergar mais longe, mais internamente ainda.

Deixemos para o futuro, distante ou logo ali, esta suposta evolução; afinal hoje é um dia daqueles, nublado e quase frio… Estas são as migalhas que falei, este clima me traz aquele sorriso mundano, aquela animação que faz o tempo perdido com o mundo real parecer um pouco bom, um pouco menos inútil.


Sandro Marcos

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