encruzilhada

O encontro entre o admirável, o erudito e o simplesmente interessante

Sandro Marcos

Viciado em atenção e notívago inveterado, simplesmente não vive sem a multiplicidade de culturas e conteúdos! Multiplicidade esta que expressa através de incursões pelos mundos da música, poesia, literatura e do amor verdadeiro.

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Palavras certas por uma boca torta

Palavras de um andarilho sobre as homenagens póstumas. Uma reflexão incidental simples, verdadeira e exagerada. Somente isto, nada mais. Se diz algo à você guarde-a, senão jogue no lixo e siga sua vida!


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Oscar Wilde teria dito certa vez que “nunca devemos lamentar que um poeta seja um bêbado, devemos lamentar que nem todos os bêbados sejam poetas.” Usando como muleta esta afirmação cheia de credibilidade, adianto que surpresas às vezes me deixam irritado. Seja por esperar a entrega do “presente” ou por serem verdadeiramente desagradáveis, algumas delas não servem para nada. O problema é que devo admitir que outro dia um bêbado me trouxe uma incidental reflexão sobre a validade das homenagens póstumas que foi bem instigante e me fez pensar se não deveríamos colocar mais vezes nossas cabeças para fora do pântano de obrigações e compromissos destes malditos dias corridos. Odeio correria bem mais que surpresas e é por isso que sugiro uma leitura paciente - da mesma forma que pedi a alguns amigos aos quais contei o caso - e antes de dizer que fiquei maluco de vez ou que esta é mais uma “liçãozinha” de moral barata lembre-se do que disse o criador de Dorian Gray.

O embriagado maltrapilho em questão, que nunca mais vi e espero mesmo não ver, era um rapaz de uns vinte e poucos anos, ou melhor, vinte e dois anos (era seu aniversário e ele fez questão de mencionar várias vezes), com um físico magricela de fazer inveja a um canário belga, usando roupas que pela aparência suja e pelo cheiro pareciam vestir aquele corpo há uns bons três dias, no mínimo. O rapaz ainda por cima estava, claro, com um bafo tremendo, que afastava, aposto, até moscas daquela sua boca torta. Este pequeno notável, candidato ao esquecimento, parou em frente a mesa no bar em que eu e minha esposa estávamos e, depois de muito importunar e cuspir em nossa direção, ajudado pela paciência que um bom sexo mais cedo havia me dado, conseguiu “discursar” - esse era o tom - seu testemunho de tristeza, potencializada pelo álcool, mas ainda assim uma tristeza que pareceu ser bem sincera, algo além de uma simples lamentação etílica corriqueira. Uma história barata mas não uma “liçãozinha” de moral.

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Sérgio, vou chamá-lo assim, entre soluços e distrações com tudo e todos que passavam, contou que falecera um amigo seu, tinha ido ao velório horas antes. Um amigo de “cachaça e maconha somente, cerveja não”. Descreveu com lágrimas nos olhos a dor que sentia em seu coração pela perda, dizendo isso entre um gole e outro do copo de cerveja que o gaiato tratou de me pedir e ganhar. Era um amigo de infância que acabara de ser sepultado e aquela bebedeira seria para afogar as mágoas. Fingindo acreditar nesta última afirmativa dei a ele um cigarro e toda “corda” que ele desejava, fazendo com que continuasse seu relato, com a lamúria que ainda a esta altura parecia verdadeira. A história era entrecortada por assuntos atrevidos que teimavam em vir à sua cabeça desorientada mas ia ficando cada vez mais interessante ver onde ia parar aquela filosofia contemporânea de boteco. Eu, já bastante irritado, cheguei a quase desistir de ouvir de tanto que o mequetrefe desviava a conversa mas resisti por estar interessado e ter percebido também certa curiosidade em minha esposa, que a esta altura já havia controlado o medo que têm de bêbados da rua.

Fazendo com que eu praticasse ágeis esquivas da saliva - isso devia ser esporte olímpico - que ele deixava escapar a cada palavra proferida, Sérgio enfim me fez entrar na conversa ao constatar um paradoxo que o revoltava:

- Quando tu morrer - disse ele - vem um e põe lá uma flor… por quê não dão uma flor pra gente agora que a gente tá vivo? Ninguém dá”. - E sua namorada Sérgio, nunca te deu flores? Perguntei apenas para mantê-lo focado (mais um esporte olímpico?) na conversa. - Que nada amigo, ela me dá é surra se eu chegar em casa muito bêbado. - Então vai preparando o lombo pois hoje vai ter - completei. - Vai, vai… e vai ser muita surra… - completou ele emendando uma gargalhada.

Cambaleando e soluçando, deixou sair de sua boca torta palavras mais certas e sensatas que qualquer uma dos jornais ou revistas que eu tenha lido nestes últimos tempos. O que Sérgio dissera não era uma verdade absoluta, nem o modo de pensar de quase ninguém que não fosse meio maluco de nascença; era seu pensamento, sua revolta e amargura somente, encerrava-se ali. Uma visão de mundo compartilhada sem querer, num momento inesperado mas que me fez (talvez movido também pelo álcool e/ou pelo sexo de mais cedo) refletir por algum tempo e tivesse aquilo não como lição de vida, mas como uma anotação valorosa de canto de página no caderno da faculdade. Vindo de quem vinha parecia um conto sem sentido, não era. Fez tanto sentido que dissipou minha descrença inicial e me deixou em concordância com sua observação.

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Seguiu contando que queria deixar a cidade pois ela estava amaldiçoada por um padre e nenhum negócio daria certo ali. Seus devaneios etílicos, agora puros e tradicionais foram mais longe, já enveredando por caminhos que não valem a pena mencionar. O que “martelou” minha mente naquela noite foi a bela (?), triste e despercebida reflexão sobre a crueldade do mundo. Uma dura e pertpétua realidade que nunca deixa de açoitar os menos favorecidos mas que felizmente também atinge de raspão os ricos, famosos e poderosos. Todos recebem homenagens póstumas que deveriam ter sido prestadas em vida mas não foram. Até artistas são assim, músicos vendem horrores quando morrem e poetas deixam este mundo na solidão e na miséria, para ficarem famosos depois de mortos.

Um demonstração de afeto parece tão complicada se observarmos a frequência que ocorrem. Marmanjos choram por um título perdido por seu time do coração mas são incapazes de chorar pelo amor de suas vidas. Este peculiar episódio me fez pensar em quão tardias são as homenagens e glórias neste mundo insano. Nos dão medalhas que não encontram mais peitos para exibi-las ao invés de uma palavra que nos ensine a superar todo este caos que nos cerca, nos dão lágrimas inúteis que já não podemos enxugar ao invés de dizerem o quanto somos importantes em vida. Nestes casos prefiro concluir que o que nos dão é tão inútil quanto o ouro que os faraós “levavam” consigo para suas tumbas. Se não podem nos oferecer sentimentos verdadeiros e importantes então que nos ensinem a ficar tranquilos no trânsito das capitais, ou mostrem como se vota ou… (chega, mais fácil pedir sentimentos verdadeiros). É bem possível que eu estivesse mais bêbado que o rapaz da boca torta naquele dia e que ficar com a cabeça submersa no lamaçal seja uma boa pedida. Fica a dúvida, fica no mínimo o mote para uma próxima reflexão de alguém debaixo do chuveiro; antes ou depois da maldita correria.


Sandro Marcos

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