encruzilhada

O encontro entre o admirável, o erudito e o simplesmente interessante

Sandro Marcos

Viciado em atenção e notívago inveterado, simplesmente não vive sem a multiplicidade de culturas e conteúdos! Multiplicidade esta que expressa através de incursões pelos mundos da música, poesia, literatura e do amor verdadeiro.

Posts da Encruzilhada no seu email: http://bit.ly/1h82eCv

Não se fazem mais artistas como antigamente?

O público contemporâneo está envenenado por uma sociedade de valores deturpados, uma sociedade que cultua o resultado e a rapidez, a pressa e o acúmulo em detrimento da contemplação. Talvez por isso a arte clássica seja incomparável, talvez sejam os olhos de quem vê.


la-pieta-michelangelo-1024x768.jpgLa Pietá, de Michelangelo Sejam sempre louvados os grandes mestres da arte, seja qual for seu formato ou maneira de manifestação. Justiça se faça aos nomes de Michelangelo, Da Vinci, Shakespeare, Oscar Wilde, Fernando Pessoa, Pablo Neruda, Pablo Picasso e toda a sorte de grandes mentes artísticas de outros tempos, populares ou não. Mentes cujas expressões em forma de arte se tornaram clássicas e, em maior ou menor grau, verdadeiros patrimônios culturais da humanidade. Mas estará nossa arte a dormir? Os artistas contemporâneos nada mais significam que formas de preencher lacunas, não sendo ideais, mas o melhor que se pode ter hoje? Ou existem artistas e obras destes nossos dias que conseguem se equiparar, subjetividade posta de lado, aos consagrados mestres?

Não se trata de citar exemplos de trabalhos de qualidade feitos hoje em dia, eles estão por aí, quer os busquemos, quer não. O Lounge dia a dia nos mostra diversos artigos excelentes sobre trabalhos e artistas mais excelentes ainda. Comparações com obras consagradas são de igual inutilidade. A questão que deve ser posta sobre a mesa do psicológico, da lógica e da história é a incapacidade humana de valorizar adequadamente a arte contemporânea, a arte de hoje, de agora a pouco! Parece um tanto exagerado taxar de incapacidade? Pois bem, descrever o ato - ou falta dele - como "tendência a preferir o que é antigo" talvez soe melhor. Deixemos assim por hora.

Jan Vermeer - The Glass of Wine .JPGJan Vermeer - The Glass of Wine

Também não se faz necessário nem produtivo, discutir, ressaltando ou contentando, o valor das obras clássicas, nada disso; estamos a questionar, sim, que espécie de benção divina caiu sobre a terra naqueles tempos - aqui podemos entender principalmente (mas não somente) como um período pós-Renascimento -, fazendo que os artistas produzissem obras não só inigualadas, como inigualáveis. Obras que influenciaram, mudaram a vida humana ou que "apenas" marcaram o mundo artístico para sempre. Olhando além, com um pouco mais de cuidado, talvez seja possível conseguir perceber que na verdade a "benção divina" está nos olhos de quem vê, não na arte de quem cria. Afinal, teria a arte algum sentido se não provocasse reações no público? Dificilmente se encontraria algum que fosse além da individualidade do artista.

BL-PL-Arte-Pintura-Jacek-Yerka-00.jpgObra de Jacek Yerka, polonês nascido em 1952

O público apreciador de arte, e a sociedade em que se insere este público, provavelmente mudou mais que mesma, uma vez que a humanidade e seus costumes mudaram drasticamente e estas mudanças certamente influenciaram tanto criação quanto observação. Talvez seja um "sacrilégio" dizer que hoje se faz arte tão boa quanto se fez um dia - ainda que o conceito de boa arte seja mais abstrato que muitas obras de Kandinsky -, mas não parece nada absurdo declarar que o público (especialistas e críticos incluídos) passou por transformações que talvez os impeçam de reconhecer nos artistas dos nossos tempos, requisitos suficientes para considerá-los mestres. Isto em qualquer vertente que se tome como exemplo, seja a pintura, escultura, a poesia ou a música. A máxima aceita universalmente é a de que não se faz arte como antigamente, porém não é difícil imaginar obras atuais fazendo enorme sucesso e influênciando gerações caso tivessem sido concebidas no passado. O público contemporâneo está envenenado por uma sociedade de valores deturpados, uma sociedade que cultua o resultado e a rapidez, a pressa e o acúmulo em detrimento da contemplação.

milhazes2.jpg"Meu Limão", obra da artista brasileira Beatriz Milhazes arrematada por 2,1 milhões de dólares em 2012

Mas a qualidade de obras independe, ou deveria independer de como as analisam críticos ou do valor de avaliações de especialistas. Daí a importância do olhar das pessoas, daí constatar-se que hoje a arte não mais transforma o mundo. Realmente não o transforma como fizera noutros tempos, não tem o impacto na vida das pessoas de agora. Os sentidos dos humanos de hoje estão ocupados demais para prestar atenção e passarem às suas mentes a beleza da arte que observam, quando observam. O que não quer dizer, de forma alguma, que os artistas não estejam criando como antes, eles estão. E hoje existem muito mais deles, bons e ruins, criando e inovando apartados da massa social, cujos meandros sufocam não a arte de quem cria, mas os sentidos de quem deveria apreciar.


Sandro Marcos

Viciado em atenção e notívago inveterado, simplesmente não vive sem a multiplicidade de culturas e conteúdos! Multiplicidade esta que expressa através de incursões pelos mundos da música, poesia, literatura e do amor verdadeiro. Posts da Encruzilhada no seu email: http://bit.ly/1h82eCv.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/// //Sandro Marcos