encruzilhada

O encontro entre o admirável, o erudito e o simplesmente interessante

Sandro Marcos

Viciado em atenção e notívago inveterado, simplesmente não vive sem a multiplicidade de culturas e conteúdos! Multiplicidade esta que expressa através de incursões pelos mundos da música, poesia, literatura e do amor verdadeiro.

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A Ópera-Rock brasileira sobre a vida de Brian Jones

A vida do ex-líder e fundador dos Rolling Stones é transformada em ópera-rock pela banda brasileira Dusty Old Fingers em seu álbum de estréia. O disco traz instrumental inspirado em Blues e Classic Rock e parte lírica digna de obra literária.


11nov1965---brian-jones-charlie-watts-e-mick-jagger-do-rolling-stones.jpgBrian Jones (esquerda), Charlie Watts e Mick Jagger do Rolling Stones em apresentação de 11/11/1965.

Pense num trabalho inspirado, numa ópera rock que esbanja qualidade lírica de uma obra literária. Agora junte a isto um trabalho instrumental que orgulharia grandes mestres do Blues e do Rock N’ Roll e uma sequência de faixas que conta primorosamente a vida de um dos grandes nomes do rock mundial. Se neste momento eu perguntar de onde vem esta banda poucos seriam os que apontariam Campinas – SP. Pois bem, é exatamente de lá que vem o Dusty old Fingers, banda que conta com Tony Monteiro (guitarra, também jornalista e crítico musical), Rick Machado (bateria), Fabiano Negri (vocal e guitarra, Rei Lagarto), Joni Leite (baixo e harmonica) e Marcelo Diniz (teclados).

A banda lançou o trabalho em questão, The Man Who Died Everyday, em 2013; um álbum que fala, em forma de ópera rock, sobre a vida de Brian Jones, fundador – e líder por algum tempo – dos Rolling Stones! Como dito anteriormente, o trabalho lírico criado por Tony Monteiro vale mesmo a leitura atenta pois é uma atração à parte, mesmo sem acompanhamento do instrumental, já que aborda à cada faixa variados aspectos variado da vida e carreira de Brian Jones. Já quanto à música temos que mencionar a primeira faixa, My Best Enemy, – ao violão, gaita e voz – que já joga, melhor, arremessa o ouvinte no clima correto para que se aproveite ao máximo o restante do disco. Para se ter uma ideia desta primeira faixa, imagine um encontro de Robert Johnson e os The Doors… Deu para imaginar o clima quase místico dos confins do Mississipi , não é?

dofcdH_cr.jpgA capa de "The Man Who Died Everyday"

The World At My Feet vem num blues/rock, meio Gary Moore, com Fabiano mostrando logo o excelente trabalho vocal que realiza em todo o disco, permeado pela guitarra inspirada e correta de Tony Monteiro e contando com o ótimo solo de Fabiano, sem fritar como Moore. Em seguida temos um teor mais introspectivo e suave com a balada Blond Hair, Baby Face; novamente um grande trabalho de Fabiano, com uma das melhores letras do álbum e primeiro video clipe da banda. Na sequência o DOF nos brinda com um tremendo trabalho de baixo pulsante de Joni Leite e um marcante (grudento?) solo na faixa Librae Solidi Denarii, que fala sobre o envolvimento de Brian com as drogas. O título da música, segundo Tony Monteiro, é “uma expressão em latim que não tem tradução, já que era uma forma que os jovens na Inglaterra dos anos 60 utilizavam para se referir ao LSD”.

dof.jpgO "Dusty Old Fingers"

O peso recheado de bons riffs vem com Everything That I Want, quinta faixa, que é um daqueles rockões empolgantes que garantem muito perigo se ouvidos ao volante! Destaque para o baixo mais uma vez e para o solo do final, sensacional! O pique deve ser mantido após uma faixa destas e se Lost Eyes é menos energética, compensa isto com competentíssimas intervenções de Marcelo Diniz nos teclados. Dirty Eyes começa maldosa e segue cadenciada e instigante, com os anos 60 transbordando numa aura bem Rolling Stones. Dá para imaginar Mick Jagger cantando em certos momentos! Destaque para as guitarras dobradas que deram um charme especial e atual à faixa. Sem dúvida, uma das melhores do disco.

artworks-000058648147-s4tulb-original.png"Dusty Old Fingers" em gravação de videoclipe.

Que dizer então de Going To Hell? Um blues em sua essência lírica e instrumental com a magnífica participação de Sheila Le Du nos vocais em duetos inesquecíveis com Fabiano. O solo desta música também merece ser reverenciado; nada exagerado e ao mesmo tempo empolgante! A Shadow Of Myself traz de volta o clima da primeira faixa, com as gaitas esvoaçando pelo palco sonoro criado pela guitarra sem efeitos muito bem escolhida aqui. Fabiano Negri simplesmente dá um show à parte ao cantar este tema que meio define o “personagem” Brian Jones. Quase nos dois minutos de música somos surpreendidos (estraguei a surpresa?) pela transformação da música num quase Hard anos 70, bem cadenciado e evidenciado pelo trabalho do baixo. Esta faixa é a melhor do disco e me fez sorrir ouvindo ao constatar que aquele “baixão anos 70″ não morreu! Impossível não associar o trabalho de Joni nesta faixa ao de Andy Fraser do Free no álbum Fire And Water. Palmas de pé para A Shadow Of Myself e seus mais de sete minutos de deleite sonoro!Dusty Old Fingers - The Man Who Died Everiday

Hora de fechar o trabalho com chave de ouro e esta incumbência recaiu sobre a música que intitula o álbum: The Man Who Died Everyday. O fechamento é feito de forma brilhante como todo o álbum, a última música é um rock leve, sim, mas daqueles que prende todo mundo e fica na cabeça pela semana toda. Mas termina de forma melancólica e surpreendente com a participação especial do maestro Paulo Gazzaneo no piano de fundo para o vocal ainda mais triste de Fabiano. E aqui cabe ressaltar mais uma vez o trabalho lírico e de guitarras de Tony, além de mencionar que nesta musica se torna ainda mais evidente a ótima produção encabeçada por Fabiano Negri (Co-produção de Tony Monteiro). Todas as baterias do disco foram gravadas por Cézar Pinheiro e seu trabalho correto e bem executado merece menção honrosa, apesar do baterista oficial ser Rick Machado.

166460-970x600-1.jpegBrian Jones e Mick Jagger.

Realmente enche de orgulho ouvir um trabalho deste calibre realizado por brasileiros, mas o prazer maior não vem de qualquer sensação patriótica, mas sim da pura constatação de que falamos de um disco para ficar na história, mesmo! Bem produzido, com composições de altíssima qualidade e execução afinada de seus integrantes The Man Who Died Everyday merece o destaque que vem obtendo na mídia especializada e junto aos fãs cada vez mais numerosos da banda. Brian Jones ficaria lisonjeado!


Sandro Marcos

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