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Aquariana inquieta e publicitária apaixonada por moda, TV, cinema e nas coisas boas da vida :)

Jóyce Bandeira

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LOVE

As fases de amor contadas através do sexo no novo filme de Gaspar Noé.


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Sou do tipo que raramente lê críticas de filmes que quero muito assistir, mas depois que a rede social se tornou uma das maiores produtoras de spoilers de todos os tempos foi difícil passar os olhos pela timelime sem ler algo sobre o novo filme de Gaspar Noé.

Censurado em 18 anos e proibido de veicular em alguns lugares do mundo, o filme chegou aos dois extremos da crítica sendo considerado “a melhor obra do diretor” e um simples “pornô 3D”. Também não podemos esquecer que nenhum outro filme teve filas tão grandes em toda a história do Festival de Cannes.

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Negando-me a acreditar que um diretor como Gaspar se dispusesse de seu tempo e inteligência apenas para inovar trazendo a tecnologia 3D para o universo pornô, chamei um amigo, comprei pipoca e fui ao cinema. Se fosse realmente um pornô viveria minha primeira experiência de assistir um filme assim comendo pipoca!

Que me desculpe os decepcionados, mas o filme é maravilhoso e explico! Não estava lá interessada no sexo ou na exposição exagerada – e muito real – do ato. Eu fui interessada na história e ela não me decepcionou. Com uma hipersensibilidade tão característica de Noé é impossível não criar uma deliciosa linha das fases vividas em qualquer relacionamento usando apenas o sexo.

As fases de conquista, paixão, amor, rotina, frustração e o doloroso caminho para o fim que são contadas em inúmeros filmes através de diálogos são apresentados por Noé no sexo. O cuidado com o outro, a vontade de descobrir cada detalhe e satisfazer a quem se está apaixonado, a tranquilidade e leveza do ato mostram como estamos quando começamos um relacionamento. É algo leve e sublime.

Quando um relacionamento caminha para o fim ficamos frustrados, irritados e egoístas, mesmo com algumas tentativas de resgatar os bons momentos do início, estamos mais interessados em suprir apenas nossas vontades e é neste momento que o sexo se torna mecânico, egoísta e até mais violento. Este não é o primeiro drama que retrata o ciclo de vida do amor, mas talvez seja o primeiro a colocar o sexo como foco desta contextualização.

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Todos os personagens possuem histórias densas e características bem definidas que justificam cada atitude tomada durante a trama. Quero ressaltar minha real animação com a cena no melhor estilo “papo de boteco” entre Murphy e dois amigos franceses onde discutem a possessão americana em relação à mulher e o sexo, e como os franceses tratam essas questões de forma muito mais despretensiosa.

Concordo com algumas críticas que li sobre a inexperiência dos atores e como isso prejudicou alguns momentos com dramas mais intensos, mas a mensagem estava lá e o cinema exige um trabalho conjunto entre imagem e imaginação.

Vivemos uma “higienização” tão grande nas cenas de sexo e violência no cinema atual que cabeças explodem sem escorrer uma gota de sangue e a relação sexual acontece com mulheres de sutiã ou lençóis estrategicamente posicionados para cobrir partes dos corpos nus. Há quem diga que isso acontece para conseguir diminuir a faixa etária de censura e aumentar a bilheteria, e outros que defendem os valores tradicionais da sociedade.

Se você assistiu ao filme interessado apenas nas cenas de sexo, provavelmente não viu nada de diferente dos que existem nas salas fechadas para maiores de 18 anos das locadoras ou se ainda é cheio de pudores quando se fala em sexo deve ter ficado chocado com algumas cenas e como aquilo era um absurdo tão grande que nem deve conseguir se lembrar do nome de qualquer um dos personagens.

Todo mundo já completou o ciclo de amor pelo menos uma vez na vida e o que Noé fez foi contar a evolução desta história através da intimidade do casal em sua mais sublime demonstração de sentimento e não em lembranças rotineiras como conversas diárias, jantares com amigos e discussões sobre criação de filhos.

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O sexo ainda é algo tão sujo e errado em nossa sociedade que falar sobre isso é proibido e quem não respeita essas regras acaba visto com maus olhos. Me lembro que quando sai da sessão ouvi a conversa de duas meninas na fila do banheiro e uma delas dizia ter certeza que Murphy iria abusar do filho quando os dois entraram na banheira. Eu só consegui pensar: “Oi?! Depois de 2h de filme o único desenho que você conseguiu fazer do personagem foi que ele poderia ser um maníaco sexual?”

O saudosismo de Murphy em relação à Electra poderia ser sobre uma viagem que fizeram ou sobre a rotina dos dois morando juntos, mas suas lembranças vieram através do sexo. Não sei se por naturalidade ou com a intenção de chocar, mas Gaspar Noé soube retratar isso muito bem!

A reflexão que fica é que o sexo ainda é um tedioso tabu onde a simples existência do ato já cria bloqueios que desfavorecem qualquer tipo de discussão sobre. O que acontece no filme Love não é diferente do que acontece entre as quatro paredes da sua casa ou dos desejos mais ocultos que vivem em sua cabeça, então porque ainda temos tanta dificuldade em lidar com isso quando eles são expostos. A realidade é uma só, mas é você que escolhe como quer vê-la!


Jóyce Bandeira

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