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Aquariana inquieta e publicitária apaixonada por moda, TV, cinema e nas coisas boas da vida :)

Jóyce Bandeira

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Eu, o batom vermelho e o feminismo

O batom vermelho aparece cada vez mais como um símbolo de mulheres empoderadas que lutam pela igualdade e eu me peguei refletindo sobre a minha relação com ambos. O batom vermelho não revela só lábios coloridos, ele exalta o sorriso e destaca algo muito poderoso: a fala.


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O batom vermelho aparece cada vez mais como um símbolo de mulheres empoderadas que lutam pela igualdade e eu, apaixonada por tudo isso, comecei a pensar na minha relação com ambos. Afinal, sou sim do tipo que usa batom vermelho até na padaria e bom, acho que não preciso falar muito sobre minha relação com o feminismo. Se ainda não fomos apresentados, tudo bem! Continue por aqui que logo tudo fará sentido.

Herdei duas coisas da minha avó índia: Os lábios carnudos e uma sorte danada com a pele. Quando eu digo sorte, é sorte mesmo, do tipo que passa pela adolescência sem nem saber o que é espinha! Estas duas características sempre foram motivos de muitos elogios e constrangimentos para mim. Probleminhas em relação à receptividade de elogios, principalmente deste tipo que você nunca sabe dizer nada além de obrigada! Explico: Quando alguém elogia minha aula ou um texto que escrevi, agradeço pelo reconhecimento a dedicação e esforço, mas quando alguém elogia seus olhos, seu cabelo ou sua boca, você não vai responder obrigada, eu nasci assim, hahahaha! Enfim, coisas da vida que discutimos no sofá da terapia.

A verdade é que ter a pele boa me livrou de muitas preocupações com oleosidade, espinhas, ressecamentos, rugas e isso nunca me causou grandes problemas, mas já os lábios não. Eu sentia uma necessidade fora do comum de escondê-los, batom clarinho, gloss transparente ou só um hidratante labial para dar um brilhinho. Era o que a maioria das revistas e experts falavam sobre maquiagem para lábios carnudos e tudo que eu poderia fazer para não chamar muito a atenção.

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E foi com essa lógica que eu vi até os 20 e poucos anos quando o batom vermelho começou a voltar com força quebrando aquela associação ridícula com o vulgar e caindo no gosto de mulheres poderosas e moderninhas. Eu que já nem lembro quando comecei acompanhar blogs femininos e de moda, via tudo isso acontecendo e achava lindo, vermelho é realmente uma cor apaixonante, mas não era pra mim – não era para os meus lábios grandes demais. Foi a influência – e grande insistência – das minhas amigas que um dia resolvi comprar um: O Boticário, linha Intense, cor 330, efeito mate. Se tornou o tipo de coisa que a gente não esquece!

“Se eu tivesse seu bocão, ia viver de batom vermelho”, “Meus lábios são finos e iam ficar parecendo dois riscos na cara, mas em você ia ficar lindo”, “Combina com você que é toda moderninha”. Foram estas frases que começaram a me fizeram mudar de ideia e tentar. Lembro que a primeira vez que passei, logo tirei. Passava, ficava olhando no espelho, tentando combinar com a sombra, com o cabelo, com a roupa e logo tirava. Uma vez, venci o espelho e consegui sair de casa, mas tirei no carro antes de chegar ao bar. Não lembro quanto tempo exatamente durou essa “batalha”, mas sei que ela não foi curta. Quando me aceitei de batom vermelho tirei tantas fotos, recebi tantos elogios, me senti tão bem e segura, como poucas vezes na minha vida. Eu me senti liberta, sexy e mulher.

Quando o batom vermelho se tornou meu melhor amigo eu venci a “a cara de puta” que alguns dizem que ele representa, venci as normas ridículas que algumas pessoas insistem em propagar do que se pode ou não fazer, eu me libertei do estereótipo de mulher pura, inocente e santa que eu nunca tive interesse em ter, mas que mesmo assim alguém julgou que eu precisava. Eu venci o medo de mostrar uma das partes preferidas do meu corpo e hoje a exibo como merece: com destaque!

O batom vermelho não revela só lábios coloridos, ele exaltasse o sorriso e destaca algo muito poderoso: a fala. Mesmo sendo considerada uma falta de educação usar em público, lá no século 19, ele sempre esteve presente nos lábios que grandes revolucionárias, atrizes e divas desta e de muitas outras épocas. Uma mulher de lábios vermelhos é alguém que tem poder, que deseja falar, sorrir e ser bonita do seu jeito.

Descobri muito mais sobre mim quando venci meus próprios preconceitos e limitações em relação a isso. Percebi que o batom vermelho não me deixa com cara de puta, me deixa com a mesma cara e ainda destaca o que eu mais gosto em mim. E como disse Jout Jout ao nosso querido Jô Soares, “o que é uma cara de puta, não é mesmo”.

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Aquela pessoa que mal conseguia chegar ao carro com a boca vermelha hoje acredita que qualquer lugar é lugar e às vezes é tudo que preciso quando estou tristinha ou sofrendo com falta de inspiração. Me lembro daquele primeiro batom com muito carinho e ele ainda ganhou mais de 15 amiguinhos dos mais variados tons e marcas que ficam espalhados na penteadeira, bolsa e gaveta do escritório.

A história pode até parecer bem clichê, afinal não foi por mim que o batom vermelho se tornou um símbolo do poder feminino, mas essa é a minha. Nos meus estudos sobre o feminismo descobri Srilatha Batliwala que fala de forma linda e inspiradora sobre o empoderamento feminino. Em uma de suas reflexões ela diz que precisamos descobrir o que é ser mulher sem estar sob olhos masculinos. Descobrir o que é ser sexy e feminina para você e não o que agrada o outro.

Isso acontece naquele momento que ficamos nos admirando no espelho, que nos tocamos, entendemos e aceitamos os desejos que estão adormecidos no fundo da nossa alma. É aquele momento que a gente se observa e permite refletir sobre quem somos e o que queremos.

Em minhas longas reflexões entre eu e minha imagem no espelho percebi que o batom vermelho me ajudou a valorizar o que eu mais amava em mim e entender que isso é tudo que importa. Amor existe para ser irradiado e não guardado em uma caixa, então mostre para o mundo o que você ama. Contagie o mundo com o que te faz feliz!

Hoje “sou mais eu” quando estou de bocão vermelho porque ele representa muito o quero pra mim e a mulher que eu sou. Não há nada que você não possa ser, então descubra a mulher que você é e permita-se!

Texto original no meu blog Little Bottles of Joy


Jóyce Bandeira

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