
Quando fui atravessar a rua, vi o cadáver do bicho lá. Só eu dei uns dois passos para trás. Fui ver de perto. Não tão de perto porque, sei lá, devia estar fedido. Mortos fedem. E como ele não estava banhado em formol nem nada, suspeitei que ficar com o corpo grudado no bloquete da rua + sol + mudanças bruscas de tempo + sei lá quanto tempo ele estava ali, o resultado seria um cheiro ruim. Um fedor. Um fedô, como dizem. Como eu mesma costumo dizer "ai, credo, que fedô!".
Era um rato grande. Parecia uma pomba. Daí lembrei que "pomba é rato que voa". E pensei "rato é pomba morta no chão". Sei lá. Fiz essa alusão infeliz. Era um ratão, enfim. Percebi, então, em uma fração de segundo que era, de fato, um rato por causa do focinho (posso dizer isso, né?!) fino. Dentuço. Sei lá também. O fato dele estar com a cabeça esmagada e a massinha encefálica aparente, me fez tirar o foco do focinho. Ou que nome quer que o nariz de um rato tenha. E ele tinha um rabo enorme.
Estou falando no pretérito imperfeito porque, olha, é uma alma que já foi. E um meio-corpo que jaz no bloquete da rua do trabalho. Digo "meio-corpo" porque ontem eu passei naquela rua e tinha um gari. Pensei comigo "o moço vai tirar o cadáver desse rato, que deve ter agonizado pouco, dali". E fui para uma reunião. Ao voltar, era quase meio-dia, vi de longe que não tinha mais aquela protuberância no bloquete. O moço tirou o rato de lá. Na verdade tirou metade. Porque estava tudo lá, menos a cabeça. E, para mim, em termos de prioridade se tratando de um rato, a cabeça é a metade do corpo.
Fiquei imaginando a cena. O rato vai atravessar a rua correndo. Coitado. Não olhou. Não tem faixa de pedestres para ratões. Tem? Não tem. Então, num júri, nesse caso, o atropelador do rato teria razão. "Mas, mas, mas ele não estava na faixa. Muito pequeno em relação a um carro (quiçá um caminhão ou uma van). Não, não, não era minha intenção. Eu não o vi." Creio que se fosse eu passando ali, de carro, me assustaria se visse um bichano daqueles passando na minha frente. Só não sei se aceleraria. Porque ratos transmitem doenças. Doenças essas que podem matar pessoas. E são asquerosos, os bichos. Da classe da barata, por exemplo.
Eu não tenho medo de barata. Tenho nojo. Principalmente por ela ser um bicho, hã, crocante. Você dá uma chinelada nela e o coral de seus órgãos, em uníssono, diz "CROC!". Até em inglês o nome é crocante: cockroach. Mas, voltemos ao rato. O rato não é um bicho crocante. Ele é próximo de um gato. (Não vou comparar a um cachorro porque gosto de cachorros. De gatos, não.) Deve ter feito um barulho estridente? O barulho da cabeça do rato sendo prensada no bloquete. Acho que não tem barulho. E se tiver, também, dane-se. Não me interesso por ratos.
Nesse mesmo dia, vi um feto de passarinho morto na rua da minha casa. Bem na calçada, exatamente. E vi um outro, acho que velho, caidinho na rua. O passarinho velho foi voar e caiu. Tipo a gente: foi andar, tropicou e caiu. O passarinho tropicou no ar e caiu. Mas, morreu. Difícil a gente ver alguém que dá um tropicão, assim na rua, e morre. Daí precisa de outros fatores, hã, secundários. Mas, enfim. O fato é que eu acho que vi muitos cadáveres num dia só. E liguei esse fato ao fato de meu dia ter sido ruim. Ver cadáveres acabados. Ver cadáveres incólumes. Dia ruim. Tudo a ver.
Fiquei pensando, durante boa parte do dia, em toda a relação de vida e existência desses bichos. Agora mortos. São acolhidas onde, suas almas? Cumpriram sua missão aqui na Terra? Ninguém pode dizer. Quer dizer, podem dizer. Mas, daí se tem fundamento ou não... É outra coisa. E, para mim, isso não tem. Não estou querendo comparar com a gente, pessoas, seres humanos, homo sapiens sapiens (e acho que a cada burrada que a humanidade comete, ela deveria perder um sapiens como castigo). Mas como é que fica a falta de um ser vivo na Terra que fez questão de se apresentar como "estou fazendo falta a partir de agora"?
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Comentários
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Eduardo Cruz
Muito bom o texto. Mesmo falando sobre o cadáver de um rato, ele me prendeu.
E essa parte me fez rir, rir bastante por sinal: "O passarinho velho foi voar e caiu. Tipo a gente: foi andar, tropicou e caiu. O passarinho tropicou no ar e caiu. Mas, morreu. Difícil a gente ver alguém que dá um tropicão, assim na rua, e morre."
Bruno Mendonça
Achei muito interessante o questionamento, e sinceramente, não sei onde são acolhidas suas almas, mas de uma coisa eu sei: realmente as baratas não são crocantes. Muito legal!
Jairo César
Gostei do texto! Leve, saboroso e bastante curioso... ;) Engraçado como as coisas nos levam a pensar em outras coisas, às vezes mais estranhas que aquelas que deram origem às elucubrações (ou devaneios, acho são isso).
Alexandre Maia
Caramba, é esse tipo de estilo que eu adoro ler numa crônica: meio falado, meio escrito solto, falando de algo banal (?) de forma bem sem pretensões mas externando tudo que se passou pela cabeça.
Ótimo ler seu texto, Tais, mesmo sendo, como bem observou o Eduardo Cruz aqui, sobre um rato morto. Aliás, um rato, um passarinho, mas outro passarinho, baratas - tudo morto. Só não tem gente morta porque, como você mesma lembrou, gente não morre só de dar um tropeço na calçada. Embora morra com um engasgo!
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