Tais Cruz

É do interior. É tratante. É insólita. Abstrai pra sobreviver.

Terra plana de benvirá


Nós te amamos. Saiba disso. Nós estamos com você. Saiba disso também. E nós seremos insuportavelmente cuidadosos e cautelosos com você. Aceite isso. Nós sabemos que está sendo difícil. Sabemos que será mais. Sabemos simplesmente que será. Mas, saiba: continuaremos complacentes com a dura herança. Continuaremos complacentes com a sua contumácia. Com a sua petulância. Já sabemos. Conhecemos. Te amamos assim mesmo.

Que pobre não tem uma herança que preste. Que pobre não fica com terreno, não fica com fazenda, não fica com dinheiro. Que pobre não fica com empresa, não fica com ações. Que pobre não tem casa de aluguel para fazer dinheiro. Que pobre, às vezes pela desgraça da vida, nem fica com mãe. Que pobre se dá a vida inteira pro sangue de seu sangue. Que pobre cria irmão, educa filho, deseduca neto, bagunça a sobrinhada. Que pobre ajuda. Que pobre dá o que não tem com o coração. Que pobre não pede nada em troca. Absolutamente nada.

Que pobre ajuda quem sabe que não pode ajudá-lo depois, da mesma forma. Que pobre é desgracento por um lado, mas tem muito o que agradecer a Deus por outro. Que pobre tem história. Que pobre tem mania. Que pobre pode ser conservador, que pode se dar ao luxo. Que pobre faz o que não deve porque quer viver o agora. "Vai saber o amanhã..." Que pobre toma friagem na beira do fogão à lenha, à noite, em meados de maio, com a família reunida esperando o pão assar e o café passar. Que pobre inventa história pra criança. História de onça, história de mijar na cama, história de cobra, história de lobisomem e do velho do saco. Que pobre põe a botina e o chapelão e vai pro meio do mato pegar umas laranjas, espantar as vacas. Que pobre plantou árvore lá na roça e hoje está enorme. Que pobre se orgulha de ver uma árvore, que coube na palma da mão em forma de semente, hoje fazer sombra pra ele e mais três.

Que pobre frita ovo com a gema mole para furar com a casca do pão. Que pobre usa palavra que ninguém ouviu antes. Que pobre leva para passear porque pobre tem o direito de passear. Que pobre te dá um chá d'umas vinte ervas dentro. Critica e dá certo. Que pobre vê TV Cultura no domingo de manhã e diz "aô!" a cada boa moda de viola que começa. Ou que acaba. Que põe dinheiro num negócio que todo mundo fala que não vai dar nada. E não dá. E pobre fica feliz, mesmo assim. Que pobre tem trocentas raízes na maldita árvore genealógica. E herda uma doença de cada ramificação, por exemplo. Que pobre não tem culpa. Que pobre diz que vai sarar, que vai ao médico, que não é nada. Que pobre é o próprio doutor. E não é.

Podia ser tudo. Podia ser normal, uma coisa só. Mas não é. Podia não doer nem aqui nem aí, mas dói. Podia respeitar a limitação humana. Como somos limitados! Até a fé podia ser respeitada. Porque tem uma hora que o corpo padece, a mente padece, as doenças padecem. Tudo padece. E continua lúcido como nunca. E sente cada sintoma, cada dor, cada efeito colateral. "Podia chegar e dar logo um tiro na minha cabeça para acabar com essa dor". Tenho medo de conhecer esse limite. Mas, tenho tanto medo quanto o de ver alguém que amo chegar nesse limite. E tem sempre alguém sofrendo mais. E a família inteira sofre que, com o perdão da expressão, é bonito de se ver.

O resto do texto ficou guardado aqui dentro que o coração apertou.

"Me pediram pra deixar de lado toda a tristeza, pra só trazer alegrias e não falar de pobreza. E mais, prometeram que se eu escrevesse feliz, agradava com certeza. Eu que não posso enganar, misturo tudo o que vivo (...) partindo da natureza do lugar onde nasci. Faço versos com clareza, à rima, belo e tristeza. Não separo dor de amor. Deixo claro que a firmeza do que escrevo vem da certeza que tenho, de que o poder que cresce sobre a pobreza e faz dos fracos riqueza, foi que me fez escritor."


Tais Cruz

É do interior. É tratante. É insólita. Abstrai pra sobreviver..
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