
Um ápice, um êxtase, um pico. A sensação é explosiva. Todo um mecanismo que se desenrola evoluindo para uma explosão interna de regozijo que parece não ter fim. Mas é finita que só. Toda a sensação de ter os órgãos trocando de lugar quando, na realidade, por fora você está rindo de canto de boca. Calma, não estou falando do real dito-cujo.
Isso é o que acontece com músicas-êxtase. Algumas músicas, com o passar de seus sacratíssimos segundos, vão passando pelo meu corpo como uma corrente elétrica. E flui num encanamento de água corrente, uma sensação de que isso nunca vai acontecer de novo. E acontece. Exceto pelo fato de você se viciar nessa sensação: aí, rapaz, o encanto se esvai. Vira pó. Digo isso porque já senti meu corpo inteiro se arrepiar com uma música e meu corpo, que não é bobo nem nada, me apertou contra a parede e não resisti. A música foi gasta. A música caiu num limbo intransigente do qual ela não sairá jamais. Jamais.
Três músicas, recentemente, me causaram sensações gostosas de primeira vez. De várias primeiras vezes. Mas esgotou. Músicas-êxtase estão aí para isso mesmo. Para vir e, como um furacão, liberar substâncias no sangue que não serão sentidas até o próximo ato. Com outra personagem.
É um êxtase.
Não sei como explicar. Com certeza eu não sou a única. Mas se tivesse como, separaria cada uma dessas músicas em uma categoria diferentede ápice. Nenhuma delas provocou em mim prazer sexual. Foi um prazer de libertação. Um orgasmo salvador. De dentro para fora. Uma sensação lúdica de que, de repente, posso me transformar num pássaro e, pouco antes de alçar voo, ficar olhando uma grande pista de pouso em formato de pradaria. Ou uma grande pista de pouso em formato de ar, muito ar. É uma explosão lúdica de prazer que já não tenho mais. E a responsável por isso fui eu. OK.
A garota-propaganda da Nikon (que, ironicamente, só descobri depois que a música era de fato a garota-propaganda da Nikon), é uma dessas músicas que fazem quase que o papel de um livro. Digo do processo de imaginação. Welcome Home tem uma crescência que, por si só, já denota um ápice. (Sem falar nas lembranças que cada música traz consigo, mas isso é outra história e não vem ao caso.) É o tipo de música que cria expectativa, essa do Radical Face (que, por sinal, recomendo como um todo).
A segunda música é Sweet Disposition de The Temper Trap. Confesso que nessa houve trapaça. A primeira vez que a ouvi, foi num vídeo de auroras e alvoradas. E houve aquele processo de pegar o trecho da letra da música, jogar no Google e descobrir de onde vinha essa obra-prima. É uma música que até hoje me causa certo arrepio. Estou conservando essa sensação (inclusive, nesse momento, ela está aqui de fundo e eu estou apenas esperando o momento certo, o momento em que ela fará uma conexão lúdica comigo). Essa é uma daquelas músicas em que desisti de queimar neurônios para percorrer o método de criação. Porque Sweet Disposition é uma das músicas mais fluentes que já vi. Que seguem o curso do rio de forma initerrupta e harmoniosa.
Frank, AB de The Rural Alberta Advantage, é uma outra música-êxtase de libertação. Ela não é como Sweet Disposition que é uma música-êxtase de admiração e adoração. Frank, AB é salvadora. A voz, para mim, é muito simples. Embora, inédita. Não é tão sutil como Welcome Home. É como se fosse uma criança fazendo arte consciente de que está fazendo arte e é errado. É ousada. Desfiz o encanto de tanto ouví-la. Um pecado também. Mas, vezenquando me pego querendo fazer uma to-do list libertadora a partir dela. Frank, AB para mim, é a música-êxtase que mais respeito. Ela não dá uma ardência desesperadora de que vai acabar e ficará você e o vazio daquela sensação. Ela dá saudade. Frank, AB embora já meio gasta, dá saudade.
As três são descobertas de 2012. As três foram indicadas pela mesma pessoa.
Se você também tiver seus tesouros, suas músicas-êxtase, compartilha aí nos comentários. :)
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