ensimesmices

Se fico mudo, não mudo o que fica em mim

Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek

Blues, Tequila e um Carro Lá Fora

Do lado de cá, um tratamento intensivo à base de blues afagando a alma; acolá, um motorista rude e seu tanque de guerra particular azucrinando a tarde do domingo pasmacento. No meio, uma oportunidade inesperada e fugidia de sentir-se irmanado até mesmo a quem lhe parecia o seu oposto.


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Fazia bastante tempo que eu não ouvia blues. Sozinho no domingão modorrento, a ideia chegou-se a mim. Escolho mas não muito e dou o play.

Inicia-se um sincopado cortejo afroamericano, como é de bom tom dizer hoje em dia. Os instrumentos em comitiva, descendo das caixas acústicas num compasso fúnebre que, sabe-se lá por que, injeta com um tranco suave 360 joules no coração do bode dominical, feito de súbito cordeiro ressurreto que tira a chatice do mundo, na longa missa que será presidida por uma diva diferente a cada CD que vai para a goela do aparelho. A corrente eletrofônica repõe em marcha o fluxo da vida até então amortecido.

Tarde dos paradoxos: o lamento negro convertido em luminosa celebração. Nas plantations de algodão do Sul úmido dos EUA rebentou em botão a sofisticação de um rude cantar, destilação de um povo exangue de esperança. No delta do Mississipi que assistia à passagem dos barcos ancorou a música que abarca o alfa e o ômega das emoções. Sofrimento e sublimação, amor e morte, religião e sexo, tudo a um só tempo, impresso no improviso ordenado, a expressão do êxtase individual que só vale a pena quando este se reconhece parte a serviço de um todo.

Tarde dos paradoxos: pela escala menor da tristeza azul o espírito é soerguido a uma alegria maior, solar. Respondo aos arpejos multicor com solfejos que sei de cor. Tragado pelo blues, sinto a urgência de tomar um trago. A comunhão com a tequila é imprevista, mas vem espontânea. Poderia ser cachaça também. Mas nossa branquinha, desta vez, cederá lugar ao agave, nada grave.

(E não é que depois me recordo de que a boa tequila nasce do agave-azul? Sincronicidade cromática formando a verdadeira corrente do Golfo, que vem aquecer a alma e o esôfago.)

Odetta troveja uma confissão lamuriosa aos ouvidos de um trompete que a escuta respeitoso e espera sua vez para responder com comentários manhosos, desenhando arabescos acobreados no ar, enquanto eu deito mais um gole ardente e afundo no poço da voz ao mesmo tempo severa e serena, como se estivesse submerso num oceano de água morna, feliz por saber que lá fora está muito frio. Aninho-me nessa tepidez sonora por horas. Quando me dou conta, já tinham passado por mim em procissão as grandes damas Alberta Hunter, Odetta e Sippie Wallace, e fazendo a curva lá no alto despontavam nos speakers Wynton Marsalis e Eric Clapton.

Um pouco mais tarde, ainda com o blues tangendo minhas costas – agora eram Sonny Rollins, Dizzy Gillespie e mais uma galera arrematando a sessão com, apropriadamente, “After Hours” –, fui sentar-me à janela, o sol mais gentil do começo da tarde batendo nas canelas (sou branquinho, tenho que me cuidar). Senti que a experiência caminhava tranquila e por vontade própria para seu final, o séquito sonoro sumindo satisfeito, e por isso não lhe opus resistência.

Há que se deixar as coisas irem a seu término com elegância e gratidão.

Foi quando a rua da tarde vazia lá embaixo foi rasgada por um carro grande, um SUV abrutalhado. Retalhou rascante a jam session e estacou nervoso em cima da linha branca no limite do cruzamento, resfolegando sem paciência. Lançou-se à frente tão logo a mudança do sinal lhe concedeu a permissão e guinchou desafinado na conversão à esquerda, desaparecendo com estrépito.

Geralmente não tenho tolerância nenhuma para com esse tipo de embotamento e desejo do fundo do coração que seu autor arda para todo o sempre no mármore do inferno. Mas agora, não sei se foi o blues ou a tequila ou a tarde que estava destinada a gerar ainda mais um paradoxo, fui tomado por um calor de compaixão pelo sujeito a bordo do seu couraçado, nota dissonante no meu domingo – mas Art Tatum já avisava que não há, afinal, notas erradas. (1)

Muito de repente, rápido para que o arbítrio mais desapaixonado não tivesse tempo de protestar, vi-me irmanado àquela pessoa dentro do estegossauro motorizado, ambos, eu e ele, numa busca não-verbal por uma reconciliação com algum princípio básico de prazer. Imaginei que talvez, dentro da sua limitação antropoide (que também é a minha!), aquele acelerar e frear bruto fosse a sua particular e espasmódica forma de reconexão ao fluxo da vida. Enquanto o sax de um Sonny aturdido recuperava-se cambaleante daquela intromissão sacrílega, eu pensava nas palavras de um coroinha do jazz que já mencionei aqui, mas que desta vez tinha sido dispensado da prédica, Jamie Cullum: “parecemos tão diferentes, mas somos todos a mesma coisa.” (2)

Depois, faço o mea culpa, passou. Arrefeceu o sentimento da fraternidade improvável e a razão normativa despertou de seu cochilo, estrilando que era indefensável qualquer argumento em favor de uma similaridade entre a minha inofensiva epifania pessoal e o comportamento temerário e imprudente do bronco condutor não identificado. Mas teimou ainda, por um bom tempo, a lembrança desse lapso de congraçamento litúrgico com um estranho que nem me viu e nem notou que seu carro atravessou meu culto, que seu rugido rombudo assustou os paroquianos da minha eucaristia privada. E que não soube que eu o perdoei, mesmo sem discernir muito bem se ele sabia ou não o que fazia.

O som dos jazzistas encolheu-se aqui dentro nos ecos das últimas notas, evaporando numa mudez digital. Lá fora, a rua de novo deserta. E eu, agora embebido em silêncio – o oceano morno já suscitando saudade – e sentado bem na esquina do cruzamento inusitado blues + tequila, acompanhei o sol que abandonou minhas canelas à própria sorte e já se ia derrubando sonolento, pondo fim à minha tarde mas não aos paradoxos, deixando-me a pensar nas inauditas conciliações de som e ruído, fineza e deselegância, e todos os possíveis pares de contrários que reverberam dentro de nós, que nos igualam e nos conectam uns aos outros numa encruzilhada visceral que insistimos em esquecer.

Fazia mesmo bastante tempo que eu não ouvia blues, mas acho que eu nunca escutei o seu recado exatamente dessa forma. Ite, missa est.

(1) "There’s no such thing as a wrong note." (2) "We all seem so different but we're just the same." Jamie Cullum, Twentysomething

Artigo originalmente publicado no Bad Request - http://badrequest.com.br/2014/11/blues-tequila-e-um-carro-la-fora/


Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek.
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