ensimesmices

Se fico mudo, não mudo o que fica em mim

Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek

Reductio Ad Absurdum

Em época de festas, comilança e transações de permuta de presentes, uma leitura sobre suícidio e falta de sentido pode, acredite, ser bastante esclarecedora e até animadora.


punishment_sisyph-1050x1192.jpg

Passei o período de festas de Natal lendo “O Mito de Sísifo”, de Camus. Pode parecer estranho dedicar-se, nesta temporada de confraternizações e rabanadas, a um livro que começa dizendo que a única questão filosófica séria que existe é a do suicídio. Por outro lado, dez ou quinze minutos examinando os registros pós-festas no Facebook podem ter o redentor poder de, subitamente, dar razão a Camus.

Decerto não era no Facebook, no peru ou no pavê que Camus pensava nos idos de 1942. Em seu magnífico livro, o tema do suicídio é prelúdio para outro, bem maior, no qual suas baterias literário-filosóficas estão de fato apontadas: o absurdo. Num momento histórico convulsionado pela maior e mais devastadora guerra que a humanidade já conheceu, em que todas as referências morais praticamente se esboroaram, imagino que tal assunto se impusesse quase como uma força da natureza: o absurdo da existência humana em um mundo que lhe é intensamente indiferente. Mas creio que, embora escudados no conforto da distância que nos aparta desse passado terrível, e mesmo considerando que muito poucos de nós seríamos capazes de expressar essa percepção com o refinamento de um Camus, ela não nos é assim tão estranha: “numa esquina qualquer, o sentimento do absurdo pode bater no rosto de um homem qualquer”, diz ele ainda no início.

E o que é esse absurdo, então? Antes que alguém pense que estou falando da nomeação do Cid Gomes para o Ministério da Educação, lanço-me à tarefa impossível de resumir a amplitude do arrazoado de Camus. O ser humano vê sua necessidade de conhecer tudo em seus mais íntimos pormenores continuamente desapontada. O mundo lhe nega o acesso último à essência das coisas. Nosso intelecto anseia por uma certa “clareza”, mas só encontra opacidade. Está na estrutura do ser humano empreender essa busca; está na tessitura do universo frustrá-la. As religiões só fazem desviar-nos do assunto; as artes contentam-se em lançar a questão, e não em respondê-la. As ciências podem, em última análise, apenas descrever o mundo, mas não conseguem sabê-lo em seu sentido mais profundo. O divórcio entre o homem e sua vida, o ator e seu cenário – esse é Camus de novo, claro, sempre mais elegante.

Esse sentimento já andou, como diz Camus, batendo no rosto de muitos pensadores. O seu chapa Sartre (que depois virou seu desafeto, por razões que não nos cabe discutir aqui) falava da mesma coisa em “A Náusea”. E o próprio Camus vale-se da ficção para discorrer sobre idêntico tema em “O Estrangeiro”, lançado também em 1942. Tomando uma autora mais recente, compare-se o trecho camusiano “surge a estranheza: perceber que o mundo é ‘denso’, entrever a que ponto uma pedra é estranha, irredutível para nós” ao poema “Conversa com a Pedra”, da polonesa Wislawa Szymborska, que não reproduzirei por ser longo, mas cuja leitura recomendo com fervor e que pode ser encontrado aqui, ou aqui, ou ainda aqui.

Szymborska - que põe uma pedra no meio do nosso caminho, a negar o tempo todo os insistentes pedidos de um homem que nela quer entrar, fechando o poema com o veto incontornável (e genial) “não tenho porta” - captura o mesmo desconcertante hermetismo do cosmos do qual Camus se ressente, e que se pensarmos bem, já estava embutido no “cogito, ergo sum” de Descartes, uma vez que este conclui que a única coisa da qual pode ter certeza é a própria existência. Todo o resto, sendo resultado de percepções indiretas mediadas por nossos sentidos, pode não passar de ilusão. Alguém aí se lembrou de “Matrix”? E quem se der o trabalho (para mim, delicioso) de assistir com atenção aos filmes dos irmãos Coen verá que o absurdo do qual nos fala Camus é um de seus leitmotive, e com frequência o mais evidente – citarei “Um Homem Sério” e mesmo o recente “Inside Llewyn Davis”.

A verdade é que essa suspeita, e a insatisfação que dela resulta, são nossas companheiras antigas. Parmênides (malditos gregos) já tinha assistido a Matrix antes de todo mundo, já voltava com o bolo bem antes de Descartes ir com a farinha e, claro, já coçava o cocuruto com a ideia de que nossos sentidos não constituem instrumentos adequados para o conhecimento verdadeiro. O mundo sensível é ilusório, desconfiava o eleata em 500 a.C.

Ao longo do tempo, filósofos, religiosos, cientistas e artistas tentaram se virar como puderam com essa restrição estrutural, essa porta rebitada, esse “tô nem aí” do mundo: Tertuliano, autor cartaginense do alvorecer do cristianismo, pontificava “Credo quia absurdum” – creio exatamente por ser absurdo. Era o reconhecimento do fracasso da razão e o apelo à fé incondicional como único instrumento capaz de arranhar o incognoscível. Bergman (e depois dele, Woody Allen) nunca comprou essa ideia e passou a vida e reclamar, por meio de uma fileira de obras-primas do cinema, do silêncio de Deus. Noutro tempo e com outra perspectiva, mas com o mesmo inconformismo, Aldous Huxley tentou forçar a porta com uma abordagem cientificamente bruta - já contei essa história aqui.

Essa ânsia de totalidade nunca satisfeita, essa incompletude, o mal estar de um ignoramus et ignorabimus na marra já fez seu estrago até mesmo na matemática, quando Kurt Gödel provou por A+B que nenhum conjunto de regras pode ser ao mesmo tempo completo e consistente – ou seja, sempre haverá proposições dentro desse sistema que não poderão ser nem comprovadas e nem negadas pelas regras do próprio sistema. Eternamente sem resposta. O nome do teorema? Adivinhe: teorema da incompletude. A prova matemática de que nem tudo pode ser provado matematicamente. O sistema não se abarca e, tristeza, sabe disso.

Não obstante, talvez tomando as dores de Bergman, que enfim são as nossas, a ciência não se dá por vencida e não se cansa de procurar a quimérica “partícula de Deus” - e ainda que alguém argumente que esse batismo não passa de estardalhaço de uma divulgação científica rasa e sensacionalista ou de uma incompreensão dos reais objetivos da pesquisa, mesmo assim não deixa de ser sintomático que à busca se atribua tal nome, tão carregado de nosso primordial dissabor. Em algum nível, o incômodo reverbera: continuamos querendo tapar o último buraco de absurdo com a partícula elementar definitiva.

A proverbial ausência que nos move: seguimos desejando a clareza final, o trofeu da essência das coisas, a chave que abrirá a porta inexistente na pedra. Mas Luís Fernando Veríssimo (ou, de acordo com algumas fontes, o gato Garfield) já entendeu que Deus é ardiloso: quando achamos que temos todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas. E vamos nós atrás da próxima partícula. Talvez Douglas Adams tenha sido a única pessoa até hoje a fornecer uma resposta taxativa, que no fim é tão boa quanto qualquer outra – e como sabemos muito bem, é 42.

Mas Camus desenvolve a ideia de que o absurdo não está “no” mundo, não é inerente ou intrínseco a ele. As árvores não têm filosofia, dizia Fernando Pessoa; o mundo não é absurdo. O mundo apenas é. O absurdo está, antes, na nossa relação com o mundo e na insuficiência de nossos sistemas intelecto-perceptivos para abarcá-lo em sua totalidade. A ideia de Camus era seguir essa trilha até o fim, da maneira mais lógica possível, para então ver se ela necessariamente levaria à conclusão de que, se aceita, não deixaria ao ser humano outro curso de ação que não dar cabo de si mesmo.

Evidentemente, não vou contar aqui os meandros nem o resultado dessa investigação e privá-lo de uma leitura fascinante. Mas ei, este é um texto de fim de ano, e por isso preciso dizer que, acredite, o livro é otimista e Camus encerra sua busca concluindo que “é preciso imaginar Sísifo feliz”. Sísifo, aliás, era um sujeito condenado a rolar por toda a eternidade uma pedra – que, sabemos agora, não tem porta - para o alto de um morro, do qual ela sempre rolava cá para baixo de novo. Soa familiar? Então, meu amigo, você entendeu do que se trata e o absurdo já bafejou seu rosto. Espero que tenha sacado também que a luta continua e a nossa relação com o mundo quem faz somos nós. Feliz Ano Novo, portanto, Sísifos leitores.

Artigo originalmente publicado no Bad Request - http://badrequest.com.br/2015/01/reductio-ad-absurdum/


Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Paulo Zoppi