ensimesmices

Se fico mudo, não mudo o que fica em mim

Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek

Um Duplo Bem Sentido – Solidão, Morte, Selfies e Uma Marmota

Gêmeos, clones, reflexos distorcidos e projeções idealizadas... Do mito de Narciso às selfies da internet, a relação ambígua de medo e fascínio do ser humano com sua própria identidade e a sombra de sua finitude brotam continuamente no cinema e na literatura com variadas codificações e colorações, mas sempre sussurando a pergunta: quem ou que sou eu?


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Assisti dia desses a O Homem Duplicado (Enemy), adaptação para o cinema do livro homônimo de Saramago. O filme não é lá essas coisas: pretensioso e arrastado, insistindo em fazer vingar algum suspense, à base de música minimalista tensa, num chão estéril batido por uma lentidão sem muito motivo e por uma falta de assunto que torna tudo meio desinteressante. Mas não é este o ponto aqui; ocorre que, superado o filme, me peguei pensando sobre o tema do duplo. Adiante nessa linha, pois.

É longa a tradição da figura do duplo no cinema e na literatura, onde ela tem sido apresentada com profusão de variações. Às vezes, o duplo é encarnado em um reflexo especular do protagonista, como em Gêmeos, Mórbida Semelhança; impossível não se lembrar também do drama surreal do sr. Golyadkin, personagem(ns) central(is) do livro de Dostoiévski chamado... hum, O Duplo. Noutras, o döppelgänger vem como uma versão transformada, monstruosa ou desfigurada, caso do Dr. Jekyll que irrompe “de dentro” do Sr. Hyde. Também podemos colocar na mesma pasta dos duplos metamorfos, sem medo de errar, o monstro de Frankenstein e o desafortunado dr. Victor, seu criador.

Se acrescentarmos gente que viaja no tempo e conversa ou se encontra consigo mesmo em outra época, teremos de Marty McFly a Jorge Luís Borges, que foi bater um papo com seu eu velho num de seus contos, 25 de Agosto de 1983 (aliás, é sabido o apreço de Borges pelo simbolismo dos espelhos). E para quem já viu Star Wars alguma vez na vida, virá à mente o rito de passagem em forma de desafio no qual Luke Skywalker, durante sua preparação para Jedi, enfrenta um Darth Vader que surge da fumaça e que ele derrota, apenas para dar-se conta de que a máscara mais famosa da galáxia antes do “V de Vingança” encobria o rosto de ninguém menos que... ele mesmo. Pegou?

Vê-se que a imagem aflora quase por si só, com toda sua carga simbólica, quando tentamos produzir qualquer tipo de reflexão (reflexo? Eita...) minimamente interessante sobre nós mesmos e sobre o que nos faz humanos e únicos. Que o digam os inescapáveis gregos antigos, que vez por outra nos mostram que sabiam tudo o que há para ser sabido no cosmos e que já nos acenavam de lá do horizonte dos tempos com o mito de Narciso, mas também com a recomendação: conhece-te a ti mesmo.

Uma ideia em estado bruto perpassa todas essas mutações do duplo: o duplo é mau. Ou ele expõe nossas deformidades morais, ou ele próprio é deformado em seu físico. É o vilão (veja que o título original do filme que abre estas digressões é “Inimigo”). Dificilmente ele nos traz boas notícias. E mais uma ideia recorrente: fique esperto, porque o duplo quer o seu lugar. A interação entre original e cópia, ou criador e criatura, ou personagem e alterego, é quase sempre perniciosa e seus efeitos são trágicos. Todos esses duplos trazem à tona o temor que cada um de nós tem do que pode se esconder no rio negro e pegajoso que flui, moroso, no subsolo de nossa personalidade, e que pode jorrar sem aviso. Medo de que os impulsos caóticos entranhados em nossas fundações tragam nossa própria desgraça, talvez a morte.

Mas agora quero falar de outra classe de duplos, um pouco menos afamada e evidente como tal, mas igualmente disseminada e reveladora. O duplo feliz. Esse, nós queremos que tome o nosso lugar. E vá a festas por nós, e sorria e cante e dance por nós. E seremos felizes com ele. Esse tipo de duplo abunda (perdão?) nas redes sociais – ai ai ai, de novo as redes sociais. Mas vou inovar e não imputarei ao Facebook mais essa culpa, porque acredito que o duplo contente seja tão ancestral e tão imbricado nos meandros de nossa constituição psíquica quanto o duplo mau. Ao longo da história, ricos patronos, mecenas, generais e imperadores têm encomendado pinturas, bustos e estátuas equestres de si próprios. A motivação por trás desses proto-selfies era eternizar-se por meio de um duplo de tinta ou de mármore. Mais: entronizar uma determinada visão de si mesmo. Confiante, imponente, vencedor. Nada muito diferente dos seus tataranetos digitais no Instagram. Super-homens conjurados para tirar o pé de seus respectivos Clark Kents da lama de uma vida prosaica. Eis o desejo irrealizável do qual se originam as cópias felizes de nós mesmos que fazemos circular por aí.

Desnecessário dizer que a gênese de tudo isso é o medo atroz da solidão, da insignificância e tchan, olha ele aí outra vez, o medo da morte. O fardo da sozinhez que a nossa unicidade enclausurada nos causa e que corta nosso fôlego com um arrepio. A perspectiva de um final marcado pela mais essencial das solidões: a extinção irrepartível do eu que é o único mundo que jamais existirá para cada um de nós, temor repetido várias vezes pela turma de “Lost” na forma do bordão “Live together, die alone” (1). Solidão como só se vê nas pinturas de Edward Hopper e que Aimee Mann explicita em uma das belas e incômodas canções da trilha sonora de Magnólia: “One is the loneliest number/that you'll ever do” (2).

Falar em gênese no meio deste tema me faz lembrar de Phil, não o Collins mas o Connors, protagonista de Feitiço do Tempo, delicioso filme despretensiosamente carregado de temas profundos. Não viu? Veja. E procure bem que o duplo, com sua função de espelho dos vícios, está lá, dentro de uma casinha de madeira: afinal, a marmota (!) também se chama Phil, e enquanto ela enxergar a sua sombra o inverno vai seguir em frente (é, veja o filme, pô!). Da mesma forma, Phil, o humano arrogante de Bill Murray, não conseguirá sair do dia que ele mais odeia, da cidade que ele mais despreza, do inverno da sua alma, enquanto se recusar a enxergar qualquer coisa além de si mesmo.

E aqui chegamos ao único duplo real, que pode existir de fato: o Outro. Esse mesmo, olhe aí para o lado. Não é perfeito, afinal não é você, mas é o que temos. Aimee Mann sabe disso também, tanto que continua: “Two can be as bad as one/It's the loneliest number/since the number one” (3). Mas Umberto Eco dispara de volta: “Quando o outro entra em cena, nasce a Ética”. E eu acrescentaria com muita modéstia que nasce a única real possibilidade de nos compreendermos melhor, a nós mesmos e uns aos outros.

O que buscamos por meio de nossos duplos, seja exorcizar nossos podres (duplo mau), seja afastar o espectro da solidão, da falta de sentido e da irrelevância (duplo feliz), podemos conseguir por meio do recurso natural mais abundante: gente à nossa volta. Não é moleza, como notou Sartre ao decretar que “o inferno são os outros”. Mas talvez a ginástica da tolerância seja o melhor caminho para o condicionamento da alma, com o qual podemos enfrentar com serenidade os fatos da vida dos quais mais fugimos. Afinal, para a morte e para os impostos não há solução, mas para a vida pode ser que a resposta esteja ao alcance de um abraço. Fato que Chris McCandless, o infeliz protagonista de Na Natureza Selvagem, descobriu tarde demais e pôs no caderninho: “A felicidade só é real quando compartilhada”.

Para um filme fraco, O Homem Duplicado rendeu. Apesar de eu ter assistido sozinho.

(1) “Viva junto, morra sozinho” (2) “Um é o número mais solitário/que você jamais fará [conseguirá fazer ou ser] (3) “Dois pode ser tão ruim quanto um/É o número mais solitário depois do número um”

Artigo originalmente publicado no Bad Request - http://badrequest.com.br/2014/09/um-duplo-bem-sentido-solidao-morte-selfies-e-uma-marmota/


Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek.
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