ensimesmices

Se fico mudo, não mudo o que fica em mim

Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek

De Todas as Almas

O conjunto de referências éticas e humanas que o sr. Spock encarna amplifica o sentimento de perda causado pela morte de Leonard Nimoy, o ator que se confundia com o personagem e que de modo tão habilidoso o compôs. Aqui, reminiscências de uma das mais memoráveis criações da ficção homenageiam criador e criatura e expressam o agradecimento por um trabalho que não fez outra coisa senão inspirar-nos a ser melhores.


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Spock morreu. A esta altura, imagino que todos estejam sabendo. Quando eu soube, fiquei com um nó – uma bola de tênis descreve melhor – empacado na garganta. A perda de uma referência tão cardeal não poderia ser verdade; se fosse, não poderia ser suportável.

Mas depois Spock voltou, e voltou ainda melhor. Continuou evoluindo como personagem e cada vez mais como referência, ao ponto de se transformar em uma espécie de venerável guru. E tudo voltou ao normal.

E então, muito tempo depois, Nimoy morreu. Creio que todos estejam sabendo também. Mais uma vez subiu a bolota na garganta. Tão maior agora, pela certeza de que desta vez ele não voltará. Tanto tempo depois da cena climática de “Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan”, roubado pela segunda e definitiva vez de minha referência, senti como se perdesse uma espécie de “pai moral”, exatamente no dia do aniversário do meu pai.

A torrente de homenagens que se seguiu sugere que não estou sozinho nesse sentimento. Como um personagem fictício alcança tal impacto?

Em “Ben-Hur”, um dos romanos, desnorteado pela ineficácia da repressão militar na contenção da rebeldia dos judeus, indaga: “Pode-se partir o crânio de um homem, prendê-lo, jogá-lo em uma masmorra. Mas como se combate uma ideia”? Ao que seu interlocutor responde “com outra ideia”.

Muito mais recentemente, o protagonista de “A Origem” assim descreve o mesmo poder: “Qual é o parasita mais adaptável? Uma bactéria? Um vírus? Um verme intestinal? Uma ideia. Adaptável… Altamente contagiosa. Uma vez que uma ideia tenha tomado posse do cérebro, é quase impossível erradicá-la. Uma ideia totalmente formada – totalmente compreendida – se instala; bem ali no meio, em algum lugar.”

Star Trek sempre transbordou boas ideias, e muitas das melhores estão encarnadas no personagem trazido à vida por Leonard Nimoy. Falei de nós na garganta; Spock não chorava. Muito longe de expressar qualquer ideário macho, esse comportamento era reflexo de uma identidade profundamente cindida, de um incômodo constante com o próprio desencaixe no mundo, uma batalha latente, a sós consigo mesmo, em prol de um estoicismo autoimposto.

O brilhantismo científico, a precisão matemática, a perícia mental são apelos fortíssimos para qualquer candidato a nerd, mas a incorruptibilidade, a lealdade inegociável, a amizade altruísta e, talvez principalmente, o sofrimento silencioso sempre foram as características que realmente me atraíram em Spock e fizeram dele uma figura perene na galeria de arquétipos essenciais da ficção (não a científica, e sim toda a ficção).

Alfinetado continuamente pelo Dr. McCoy, cujo humanismo irascível era mais escancarado, Spock não cessa de dar aos seus camaradas de serviço e a nós espectadores mostras e mais mostras de uma humanidade em seu mais alto grau, elegantemente envelopadas em argumentação cartesiana e (mal) disfarçadas de conclusões “frias” de cálculos lógicos. Como Buster Keaton, o humorista que fazia rir ao jamais sorrir, Spock transmite os ideais mais nobres aos quais o ser humano deveria aspirar justamente pelo seu empenho tão obstinado em não ser humano, esforço embasado em uma retidão de caráter inflexível e que desnuda o rigor do adestramento ao qual deve se submeter qualquer um que almeje simplesmente ser uma pessoa melhor, abandonando ou subjugando toda a mesquinhez que também é tão humana.

E era assim que tantas ideias, entre as melhores que já pudemos produzir, correspondendo às mais notáveis metas que podemos projetar para nós mesmos e para nossa sociedade, iam-nos sendo inoculadas, gota a gota, episódio a episódio: o respeito à infinita diversidade em combinações infinitas; os sacrifícios que deveríamos enfrentar como consequência do fato de que as necessidades de muitos sobrepujam as necessidades de poucos, ou de um só; o lembrete sobre o quão frequentemente os seres humanos acabam conseguindo aquilo que não queriam; a humildade de admitir que o universo ainda contém infinitos desconhecidos; a serenidade para encarar que a mudança é o processo essencial de toda a existência. Por fim, quem estaria mais credenciado a dizer-nos que a lógica é o início da sabedoria, e não o seu fim?

Quando se percebe isso, é fácil entender o efeito indelével do personagem que a emissora chegou a tentar descartar por motivos fúteis, como o aspecto “satânico” e o caráter “ambíguo”. E é natural que, no (primeiro) final heroico de uma vida guiada pela absoluta integridade, Spock diga “eu fui e sempre serei seu amigo”. De uma trajetória marcada pelo contínuo embate consigo mesmo, sempre em luta para expor ao mundo e entregar aos outros somente o que ele considerava que tinha de melhor, só se poderia esperar palavras finais como essas. A batalha de Spock deveria ser a nossa, pois as mais elevadas virtudes não são produtos de prateleira e não vêm sem empenho, como o mar de mediocridade mental e nulidade moral que nos rodeia não nos deixa esquecer.

Por isso, de todas as almas que encontrei em minhas viagens, a dele foi a mais... humana. Como várias outras menções feitas aqui, esta também é uma citação; os conhecedores saberão. E como fiz com todas as outras citações, não a coloco entre aspas porque não quero obstáculos gráficos intermediando uma sensação que no fundo é minha e apenas aconteceu de ser tão bem expressa em uma obra de ficção, por um personagem inventado, a respeito de outro personagem inventado, que naquele momento morria uma morte reversível, mentirinha do cinema prontamente desfeita no filme seguinte.

Não; a sensação é real e é minha, como real é agora a partida do homem de carne e osso que com tanta habilidade fez aquelas ideias viverem que me contagiou com elas, os mais resistentes e adaptáveis dos vírus. Estão todas circulando em meu organismo até hoje, em muitos casos não sem dor, mas ele também ensinou um dia que a dor é coisa da mente, e a mente pode ser controlada. Por isso, com esta minha homenagem mal-ajambrada, tento controlar a dor do nó que ainda não desceu goela abaixo, e a única emoção que quero expressar é gratidão. Obrigado, Nimoy, por ter-nos dado o Spock de que tanto precisamos e por tê-lo feito de uma forma tão fascinante.


Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek.
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