ensimesmices

Se fico mudo, não mudo o que fica em mim

Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek

Bem, Mal e Tudo o Que Há no Meio

Sobre duas séries de TV consideravelmente nerds que têm muito a dizer sobre temas morais complexos, evidenciando que a adoção de um modo de pensar aberto à dúvida e ao autoquestionamento é ferramenta que eleva o raciocínio acima do atoleiro dos lugares-comuns e das certezas prontas - indispensável, portanto, para tratar de tais temas como eles merecem.


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Em um dos primeiros episódios de Star Trek, chamado “Equilíbrio de Terror”, a Enterprise enfrenta um inimigo com quem a Federação, até aquele momento, nunca travara contato visual. Além disso, os romulanos (são esses os bad guys da vez, e voltariam a sê-lo em outras ocasiões) possuem naves com um grande e aterrador trunfo: uma sofisticada tecnologia de camuflagem que as torna invisíveis. É, portanto, em quase todos os aspectos, uma história mais ou menos típica de batalha, do tipo gato-e-rato, concebida como alguns antigos filmes de guerra em que um grande navio de combate, com todo o seu porte e poder ofensivo, mede forças contra um inimigo ardiloso, rápido e invisível, um submarino.

Essa estrutura dramática, por si só, é bem interessante e rende um episódio tenso e com boa dose de suspense. Mas há uma coisa fora do lugar: o comandante inimigo tem princípios. Questiona em seu íntimo as ordens de seus superiores, vacila. Tem dúvidas a respeito de tudo o que lhe disseram sobre os malévolos humanos. Está cansado de uma vida pautada por referências morais e de conduta em que ele já não acredita mais. Em suma, tem profundidade, integridade e honra.

Enquanto isso, do lado de cá, a dupla invisibilidade do inimigo (a da nave e a da espécie toda) inocula toda uma série de medos, dúvidas e suspeitas na valorosa tripulação da Enterprise. Quando se descobre que os sibilinos e traiçoeiros romulanos são a cara dos vulcanos, a espécie “do bem” à qual pertence o sr. Spock, está lançado de modo irreversível o germe da desconfiança sobre nosso amigo das orelhas pontudas. A mera semelhança física libera antigos rancores e põe em descrédito, para alguns, todo o devotado e irrepreensível histórico do personagem.

Quando o episódio termina, o comandante inimigo e o nosso heroi, o capitão Kirk, falam-se enfim, brevemente, pela primeira (e última) vez. É quando o romulano, com uma derradeira frase, deixa um legado de remorso dúbio e difícil de engolir: diz a Kirk que “numa realidade diferente, eu poderia tê-lo chamado de amigo”.

Se peço ao leitor a paciência de aturar um pouco de mitologia Trek (ah, o quanto esperei por este momento), é porque a história desse episódio explora, de um modo sofisticado e sem escamotear a complexidade e as ambiguidades inerentes, pelo menos dois temas sobre os quais não seria exagero refletir quase diariamente: um, a porosidade da linha imaginária que separa de modo artificial os conceitos de Bem e Mal; e dois, os preconceitos – o que são, onde vivem, o que comem e como nos fazem colocar pessoas ou instituições de um lado ou do outro da tal linha imaginária sem hesitar.

Assistir a uma história dessas quando se tem nove ou dez anos, como foi o meu caso, é um grande e desafiador privilégio. O episódio não nos deixa torcer para o “lado bom” impunemente. O tratamento matizado e com frequente inversão de papeis entre os “bons” e os “maus”, para uma mente em formação, desnorteia: então os mocinhos podem ter ódio e alimentar ideias desprezíveis? O vilão pode ser digno e de caráter tão elevado quanto qualquer um dos que estão do “lado certo”? Mas afinal qual é o “lado certo”? Quem ou o que o define?

Não estou dizendo que filmes (ou livros, ou peças de teatro, ou o que quer que seja) em que o Mal seja facilmente identificável não tenham seu valor. Divertem-nos, confortam-nos pela projeção do Mal no Outro e educam sobre as virtudes do Bem. Que o digam as baciadas de filmes de nazistas, a encarnação mais clara do Mal de que Hollywood já se apossou. Mas é inegável que esse didatismo todo impõe uma simplificação tranquilizadora, que mantém nossas próprias dubiedades bem guardadas e nosso terror em equilíbrio, mas que se não for superada pelo desenvolvimento de um olhar mais refinado pode ser perigosa. É a receita para produzir aquelas pessoas que têm certezas em demasia e pouco espaço para o exercício do questionamento e, mais fundamental, do autoquestionamento.

Star Trek, portanto, complicou de modo libertador a minha vida. Até então, o Mal era (ou deveria ser) fácil de achar e não merecia nada além do mais renhido combate e da mais sumária erradicação. E então, por uma brecha na programação em geral acéfala da TV aberta dos anos 70, chega-me essa semente de uma ideia desestabilizadora: talvez não seja tão fácil. Talvez o Mal não esteja sempre e somente no “outro” e não mereça a extinção, mas sim o entendimento e o trabalho constantes que serão o caminho para pô-lo a nosso serviço.

São conceitos mais nuançados, e por isso mais realistas. E mais difíceis de digerir também. Na história do episódio, a impossibilidade de ver o inimigo era real, mas também metafórica de uma cegueira moral e humanista, parábola da facilidade com que as ideias mais atrozes podem apoderar-se de nós quando não queremos ou não podemos ver todo um espectro de tonalidades morais que vão bastante além do preto-no-branco. O “inimigo invisível” e a “face oculta do Mal” são ficções que se alimentam de si mesmas e privam-nos da capacidade de ver que o Mal não tem uma única face nem está longe ou fora de nós. Olhe-se no espelho: achou.

Só para tirar a coisa do plano pessoal e alçá-la para o da sociedade, que no fim das contas nada mais é do que um eco amplificado das virtudes e defeitos dos indivíduos que a compõem, essa mesma desmontagem de cisões maniqueístas Bem/Mal, Nós/Os Outros e que tais foi feita pelo genial Millôr Fernandes em duas frases prenhes do seu sarcasmo: “O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O socialismo é o contrário” e “Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”.

Mais ou menos na mesma época, assisti a outra série que, por vias distintas, reforçou essas ideias ainda em gestação: “Cosmos”. Maravilhosa produção do início dos anos 80, a série é uma verdadeira declaração de amor à humanidade, ao universo e à ciência. “Cosmos” não diz explicitamente, mas transpira a todo momento, com seu forte apelo à dúvida cética como ferramenta-chave para a compreensão do mundo e dos próprios seres humanos, a ideia de que o universo é essencialmente amoral. Com sua visão objetiva e apaixonada da natureza (sim, as duas coisas juntas), “Cosmos” deixa ainda mais evidente que Bem e Mal são construções conceituais humanas variáveis no tempo e no espaço e passíveis de relativização.

Constatação difícil, mas necessária, se quisermos completar, no âmbito ético, o “salto civilizatório” que apenas iniciamos no contexto científico-tecnológico – e é fascinante que um seriado de TV (de novo, as pequenas pérolas escondidas da velha TV aberta...) sobre ciência e astronomia possa nos dar uma lição de moral dessa magnitude. Encharcado de amor e humanismo, o saudoso Carl Sagan é a prova de que uma disposição mental para um raciocínio eivado pela dúvida e pela não-compartimentalização em categorias estanques conduz a uma apreciação mais acertada e valiosa de qualquer assunto.

O sono da razão produz monstros, alertou-nos Goya. Produz caças às bruxas e acorrentamentos em postes também. Urge perceber que Bem e Mal, se tratados como absolutos, juntamente com outras ideias que dão suporte a preconceitos de toda sorte, são meros carimbos criados pelo nosso sistema cerebral “estereotipador”, que já foi assunto de meu artigo “Plunct, Plact, Zum”. Necessárias e incontornáveis, mas que precisam ser vistas sempre com um pingo de desconfiança, aplicadas com cuidado e critério, e estar permanentemente abertas à discussão.

Ainda na metade de “Equilíbrio de Terror”, os dois capitães inimigos, que a vida colocou em lados opostos, passam a respeitar-se profundamente. E a vitória final da Enterprise (não creio que isso seja um spoiler a esta atura do campeonato) não vem sem um travo amargo, evidente no olhar melancólico - “derrotado” seria bastante condizente com a ambiguidade de toda a história - e no silêncio eloquente de um capitão Kirk que parece adivinhar a falta de substância de padrões monolíticos tidos como imutáveis, universais e claros como a luz do dia, mas que não encontram esteio numa natureza onde tudo é um cambiante jogo de sombras e da qual fazemos parte com todas nossas nuances, grandezas e iniquidades. Todos nós.

Artigo originalmente publicado no Bad Request - http://badrequest.com.br/2014/11/bem-mal-e-tudo-o-que-ha-meio/


Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek.
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