ensimesmices

Se fico mudo, não mudo o que fica em mim

Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek

A Mensagem da Caixa Preta

Somos capazes de conceber a própria inexistência? Afinal, em tudo em que pensamos, inserimo-nos a nós mesmos como observadores do que está sendo pensado. Além disso, pressionados pela contínua santificação midiática de uma juventude idealizada, rejeitamos o conceito da finitude antes mesmo de nos debruçarmos sobre ele. Aqui, algumas ideias sobre como lidamos com o envelhecimento, amparadas em um brevíssimo giro aleatório por certas abordagens cinematográficas dessa dança reticente que todos executamos com ela, a Indesejada das gentes.


Mensagem da Caixa Preta.jpg

Recebo no meu Facebook uma imagem com a legenda: “Se você sabe o que é isto, você está ficando velho”. É uma espécie de caixinha cilíndrica preta com tampa cinza. O post, como é de se esperar, não informa a solução do suposto enigma. Mas eu sei o que é aquilo. E nunca atinei que aquilo pudesse um dia tornar-se um critério de classificação geriátrica. Não, não pode ser verdade. Todo mundo conhece o tal tubinho. Mas aí faço a conexão inquietante com outra informação que circulou algum tempo atrás: a multidão indignada por ter recebido de graça da Apple uma música do U2 e que de imediato protestou: “Quem é U2?”.

Não conhecem a caixinha nem o U2. Dois esplêndidos exemplos de memento mori providenciados pela world-wide web, ela própria campeã em parir e matar conceitos num zás-trás (a força da web que ergue e destroi coisas belas? Não resisti.). Eliane Brum escreveu, não faz muito tempo, um artigo com o título espetacularmente melancólico e preciso “O mundo da gente morre antes da gente.” O tubinho preto finou-se, o U2 parece ir pelo mesmo caminho, e eu estou agora oficialmente notificado do fato de que estou ficando velho. Como conviverei com essas constatações? Mais intrigante ainda, por que até hoje não me senti velho? Que erro grotesco de autopercepção me faz seguir ignorando o galope da minha própria senescência?

Vem-me à mente Luís Fernando Veríssimo. Escrevendo a respeito do suicídio de Pedro Nava, que se matou aos 80 anos, foi direto ao ponto: “Pensei que houvesse uma glândula, algum dispositivo, que na velhice nos reconciliasse com esta coisa que acontece em nós, e da qual não sabemos a metade, que é uma vida finita. Não há. Merda, não há.”.

Atribui-se a Woody Allen a declaração de que ele não gostaria de tornar-se imortal por sua obra, e sim não morrendo. Como eu nunca alimentei nenhuma esperança séria (só algumas cômicas) de tornar-me imortal pela minha obra, percebo que estive esse tempo todo inebriado pela (im)possibilidade da outra via, a de não morrer e pronto. É a falta que a glândula do Veríssimo faz. Adoro quando me identifico com a verve e as altas expectativas de Woody. Salto para o já-não-tão-moleque assim Jamie Cullum e o padrão se mantém, pois quando o ouço cantando "Twentysomething", não é que alguma coisa daquilo também ressoa em mim? Adoro quando me identifico com a jovialidade e as muitas dúvidas pós-teen de Jamie.

Tenho uma teoria de que o cérebro humano é incapaz de conceber a própria ausência. É como aquelas operações matemáticas que estão além da capacidade de uma calculadora e geram um “E” ou, nas mais histéricas, enchem o display de “EEEEEEE”. Ou como procurar o fim do rótulo do fermento Royal. Calculadora, fermento Royal... Um pensamento me assombra: será que tem alguém que não vai saber do que estou falando? Mas enfim. Se minha teoria estiver correta, não é totalmente exato dizer que fugimos da ideia de nossa finitude pelo terror que ela nos inflige. Pelo menos essa não seria a história toda. Fugimos também pela pura e simples incapacidade de pensá-la. Pode ser que a psicanálise me dê razão quando nos informa de que o ego é anacrônico, no sentido de algo que se opõe ao que é cronológico – conceito talvez mais bem expresso pelo termo inglês timeless. Daí o meu choque com o post-bomba da caixinha preta que devastou num só golpe minha alienação etária.

Nebraska.jpg "Nebraska"

Mas nosso ego sem noção tem uma ajuda e tanto nos tempos que correm, marcados pela glorificação da utopia da juventude eterna. E mesmo sendo esse um fenômeno mais ou menos recente do ponto de vista de cultura de massa, já tivemos, nos idos de 1600, um Rei Lear que, nas palavras do seu bobo, ficou velho sem ter ficado sábio, o que deflagrou toda a ruína que se abateu sobre ele. O espectro da velhice incapacitante sempre esteve à espreita. No cinema, filmes que vão do recente “Nebraska” ao antigo e venerado “Era Uma Vez Em Tóquio” (mimetizado por “Uma Família Em Tóquio”) mostram filhos que veem os velhos pais como um estorvo irritante, um incômodo que deve ser administrado por pura obrigação e falta de alternativas. O envelhecimento é ignorado pelo indivíduo, que enfia os dedos nas orelhas e canta “lá-lá-lá-lá” bem alto, e é desprezado pela sociedade, devido ao fardo que representa.

Gran Torino.jpg "Gran Torino"

Mas Clint se rebela. Em “Gran Torino”, temos um Clint Eastwood durão (estou consciente de que isso é uma espécie de pleonasmo) que grunhe quando o filho lhe dá de presente um daqueles telefones de números bem grandes, para expulsá-los (filho e telefone) logo em seguida. Na tela e na vida, Clint é a antítese do ancião incapaz, dependente e vulnerável. E lembremos que são dele filmes como “As Pontes de Madison”, cujo tema maior é o amor na meia idade, e “Os Imperdoáveis”, um faroeste crepuscular, filme de um gênero velho em que os protagonistas são todos velhos, e o único sujeito mais jovem não acerta a pontaria porque não enxerga direito. Os anciãos parecem querer equilibrar o jogo.

Star Trek II - Kirk's Glasses.jpg “Star Trek II – A Ira de Khan”

Tem também STAR TREK (oba). Um dos temas latentes em “Star Trek II – A Ira de Khan” é nada menos que a crise da meia idade. Na época em que foi feito, os atores já velejavam no lago dos cinquenta-e-poucos anos. Optou-se então por uma trama em que a própria meia idade está em foco. Não vou falar muito para não estragar (vai que alguém cometeu esse ato criminoso e irresponsável de nunca ter visto o filme), mas alusões a vida e morte, as angústias causadas pela percepção da fuga da juventude e os desafios trazidos pela idade estão presentes o tempo todo, e o que será determinante no destino do vilão é o fato de que ele “é inteligente, mas inexperiente”. Ponto para os cinquentões.

Esse brevíssimo e completamente aleatório passeio pelas inúmeras abordagens do tema em filmes e textos poderia estender-se, é claro, por semanas. Mas não me parece necessário: já começo a ver que as artes apenas refletem e expõem um pouco de nossa própria ambiguidade e reticência a respeito. Não terei respostas, então me arrisco a formular a minha. Se o autoengano sobre o próprio envelhecimento é parte de um necessário circuito de proteção psíquica para evitar que sejamos paralisados pela inexorabilidade da morte, por outro lado manter a ideia viva, silenciosa mas presente, sob controle lá no backstage, por mais desagradável que seja, pode ser de algum modo frutífero como impulso para a reafirmação da oportunidade única que recebemos e que temos que aproveitar até o fim. Star Trek de novo: “É nossa mortalidade que nos define”.

Talvez da trabalhosa ginástica psicológica requerida para manter um equilíbrio do tipo “esquecer-lembrando” surja a mais madura, ainda que um tanto agridoce, consciência do valor da vida. De novo, Woody Allen já percebeu isso: “Não é que eu tenha medo de morrer. Eu só não quero estar lá na hora em que isso acontecer”.

Em tempo: se você não sabe o que é a caixinha preta com a tampa cinza, eu é que não vou contar. E quanto ao rótulo do fermento Royal, ah, por favor, dá um Google aí, meu jovem.

Woody Allen - Boris Grushenko.jpg Woody e a Indesejada das gentes


Paulo Zoppi

Contista bissexto, tem um punhado de escritos numa encadernação espiral. Ama Star Trek, cinema, leitura, jazz e Star Trek.
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